SETE - PRIMEIRO ATAQUE

761 Palavras
A noite no Turano não tinha estrelas; o céu estava encoberto por uma fumaça densa que parecia antecipar o conflito. No posto de saúde, o clima era de uma calmaria tensa. Catarina havia passado as últimas horas sentada ao lado de Ayla, trocando compressas mornas e segurando a mão da amiga, que finalmente conseguira pegar no sono sob o efeito dos remédios. Quando Tico retornou, seus olhos encontraram os de Catarina em um pacto silencioso. Ele não precisou dizer nada; o volume do fuzil sob o casaco e a mandíbula travada diziam tudo. Catarina levantou-se devagar, deu um beijo na testa de Ayla e sussurrou um "obrigada" quase inaudível para Tico, antes de seguir para a missão, apenas olhando para Ayla antes de deixar ela. Tico retomou seu lugar na boca, seus ouvidos estavam nos sons que iriam vim da encosta, porém sua cabeça, estavam nos bips dos monitores. Lá embaixo, na boca principal do Turano, Sete já estava em ação. Ele não vestia seu traje de gala; estava de preto, com um colete tático e um rádio que não parava de chiar. Ele reuniu um grupo pequeno, apenas os "crias" mais experientes em explosivos e táticas de guerrilha urbana. — Escutem bem — Sete disse, a voz baixa e fria, circulando o grupo sob a luz fraca de um poste. — O Abutre acha que manda no medo. Ele mandou flores com sangue pra avisar que tá vindo. Pois a gente vai avisar que o portão do inferno dele tá aberto, mas quem tem a chave sou eu. O plano de Sete era cirúrgico. Ele não queria uma invasão total naquela noite; ele queria desestabilizar o psicológico do inimigo. O objetivo era a Trilha da Viela 12, um ponto estratégico que o Abutre usava para escoar carga e infiltrar olheiros no limite do Turano. — Não é pra ficar pra troca de tiro prolongada — orientou Sete. — A gente entra, planta o "brinquedo", explode e recua antes que a poeira baixe. Eu quero que o Abutre sinta o chão tremer lá na sede dele. Quero que ele saiba que a gente chega onde quiser. O grupo se moveu pelas sombras, contornando a mata que Ayla havia atravessado com tanto sacrifício. Sete liderava a frente. Tico vinha logo atras. Eles chegaram ao ponto exato: uma passagem estreita de concreto que ligava a trilha a uma das vielas mais movimentadas da entrada da Maré. Dois vapores especialistas em demolição agiram rápido. Eles plantaram as cargas de C4 nos pilares de sustentação de um muro antigo e nos escombros que estreitavam a passagem. Sete observava tudo pelo binóculo térmico, verificando se não havia civis por perto. A rua estava deserta; o toque de recolher do medo já havia esvaziado as calçadas. — Tá pronto, patrão — sussurrou um dos soldados. — Recuar — ordenou Sete. Eles voltaram para a zona de segurança do Turano em silêncio absoluto. Quando estavam a uma distância segura, Sete pegou o detonador. Ele olhou na direção da Maré, visualizando o rosto do Abutre em sua mente. PÁ! O estrondo foi ensurdecedor. Uma bola de fogo alaranjada iluminou a noite, seguida por uma onda de choque que fez as janelas das casas próximas vibrarem violentamente. O som de concreto sendo esmigalhado e metal retorcido ecoou por todo o complexo. A passagem da trilha para a viela deixou de existir, transformando-se em um amontoado de escombros fumegantes. No hospital, Ayla deu um solavanco na maca, os olhos arregalados de pavor. Catarina também se assustou, levantou-se num salto, segurando a mão da amiga, mas logo percebeu o que era. Ela olhou para a janela e viu o clarão distante. Um sorriso e um medo tomaram conta. — Calma, amiga... — Catarina disse, voltando para o lado dela e colocando a mão em seu ombro para acalmá-la. — É só o Sete e o Tico protegendo a gente dele. Eles vão ficar bem. Lá na Maré, o Abutre pulou da cama com o impacto, quase caindo no chão. Ele correu para a janela, vendo a fumaça subir no limite do seu território. Os rádios da facção dele explodiram em caos: "Explodiram a 12! O Turano bateu e saiu! Tá tudo bloqueado aqui!" Sete, do alto do morro, guardou o detonador no bolso. Ele não sorria. Ele sabia que aquilo era apenas o começo. O recado estava dado: o Turano não estava apenas se defendendo; o Turano estava caçando. E o próximo estrondo não seria em um muro de pedra, mas no coração do império que o Abutre achava que tinha construído.
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