SETE - COMANDO VERMELHO

882 Palavras
O clarão alaranjado ainda refletia nas nuvens baixas sobre a Maré quando Sete e Tico se encontraram na base do Turano. O cheiro de pólvora e poeira de tijolo trazido pelo vento confirmava que o "recado" fora entregue com precisão cirúrgica. A explosão na Viela 12 não apenas destruíra uma rota estratégica do Abutre, mas fizera o chão de todo o complexo vizinho tremer. — Limpo, patrão — disse um dos soldados da contenção, guardando o rádio. — Nenhum inocente na rua, só os escombros e o desespero dos moleques do Abutre tentando entender de onde veio o baque. Sete assentiu, o rosto ainda rígido, mas com uma sombra de satisfação. Tico, ao seu lado, limpava o suor da testa com o dorso da mão. O ódio que o consumia desde que vira as flores de sangue parecia ter encontrado uma válvula de escape momentânea, mas ele sabia que aquilo era apenas o começo. Eram 23h da noite. O silêncio que se seguiu à explosão no morro era pesado, carregado de expectativa. Sete caminhou até a mesa de madeira da boca principal e sacou um celular encriptado, um aparelho que ele só usava para as comunicações que decidiam o destino de territórios inteiros. — Vou acionar a cúpula — disse Sete para Tico. — Isso aqui saiu do controle de uma guerra de morro. O Abutre quebrou a ética. Tico cruzou os braços, a postura de sentinela inabalável, enquanto Sete discava o número do Chefe do Comando Vermelho, a autoridade máxima da facção. A ligação demorou três toques para ser atendida. A voz do outro lado era rouca, pausada, carregada do peso de quem comanda um império das sombras. — Fala, Sete. O eco desse estouro chegou aqui em cima. Que p***a tá acontecendo na divisa? Sete respirou fundo, mantendo a voz firme e respeitosa. — Boa noite, meu relíquia. Peço perdão pelo barulho, mas a situação na Maré apodreceu. O Abutre perdeu a mão. Ele tá torturando civil, batendo em mulher pra mandar recado. Ele pegou a manicure da Catarina, uma menina nova, que não tem nada com o crime, e moeu a garota na porrada em praça pública. A menina rastejou até aqui, tá no meu hospital com as costelas e o rosto destruídos. E agora ele tá mandando flores com sangue e ameaça de morte pra dentro do meu morro. Acabei de derrubar a passagem da 12 pra ele entender que aqui o buraco é mais embaixo. Houve um silêncio longo do outro lado da linha. O Chefe do CV não era homem de explosões temperamentais; ele era um estrategista de negócios. — Ele mexeu com as mulheres, Sete? — a voz do Chefe saiu mais fria. — Isso não é conduta. Isso atrai os holofotes que a gente não quer agora. Me diz uma coisa... as meninas estão sob o porte de vocês? Sete olhou para Tico, que inclinou a cabeça para perto do aparelho, a expressão endurecida. — A Catarina está comigo, na minha casa. Sob minha proteção total — afirmou Sete com determinação. Tico, sem hesitar, aproximou-se do microfone do celular e disse com uma voz que não admitia contestação: — E a Ayla está comigo, meu relíquia. Eu não saio do lado dela nem pra dormir. Ninguém toca mais na menina enquanto eu tiver vida. O Chefe do CV soltou um suspiro pesado, captando a gravidade e o envolvimento pessoal de seus dois melhores homens naquela situação. — Escutem bem os dois — ordenou o Chefe. — Segurem o ímpeto. Não avancem mais nem um metro na Maré por enquanto. Eu não quero uma guerra de extermínio que trave o comércio da cidade inteira por causa de um louco. Eu vou entrar em contato agora com a cúpula da outra facção, lá na cúpula de cima. Vou explicar que o Abutre está sendo um carrasco descontrolado e que isso está prejudicando a paz dos negócios. Sete franziu o cenho. — O senhor acha que eles vão entregar a cabeça dele? — Eu vou resolver de outra forma — disse o Chefe. — Vou propor um xeque-mate político. Se ele não recuar e não parar com as ameaças às meninas, a própria facção dele vai ter que tirar ele de lá pra evitar que a gente transforme a Maré em brasa. Fiquem na defesa. Protejam as meninas. Eu retorno quando a conversa lá em cima acabar. A ligação caiu. Sete olhou para Tico, que ainda segurava o fuzil com força. — Ouviu, né? — Sete guardou o celular. — O Homem vai tentar o diálogo entre as cúpulas. Mas eu conheço o Abutre. Ele não aceita ordem nem de quem tá acima dele quando o assunto é o ego dele. — Ele que tente a sorte — Tico respondeu, já montando na moto para ir em casa, tomar banho e voltar ao hospital. — Se a política falhar, a minha justiça é de chumbo. Vou voltar pra Ayla. Ela deve ter se assustado com o estrondo e eu prometi que já voltava. Enquanto Tico arrancava ladeira acima, Sete ficou ali, observando a fumaça na Viela 12. A paz agora dependia de conversas em salas fechadas, longe dali, mas Sete sentia no peito que o sangue do Abutre já estava escrito no destino do Rio de Janeiro.
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