TICO - MEDO, DE VERDADE

960 Palavras
A noite era uma faca de dois gumes no Turano: o silêncio lá fora era o presságio de uma tempestade que o asfalto ainda não entendia. Tico deixou a boca com os ouvidos zumbindo e os pulmões impregnados com o cheiro ácido de enxofre e concreto pulverizado. Antes de voltar ao hospital, ele precisava se limpar. Ele não queria que Ayla sentisse o odor da destruição que ele acabara de causar, mesmo que fosse por ela. Ele subiu a ladeira, mas não foi pela rua principal. Ele cortou caminho pela entrada da trilha leste, o exato ponto onde a contenção a encontrara. Tico parou a moto e caminhou alguns metros pelo terreno íngreme. A lama ainda estava marcada, e a vegetação rasteira estava amassada. Ele observou a inclinação da subida, as raízes expostas que pareciam garras saindo da terra e o desnível das pedras escorregadias. — Porra... — murmurou sozinho, o coração apertando. Ele, um homem de quase cem quilos de puro músculo e treinado na guerra, sentia o esforço daquela subida. Imaginar uma menina de dezenove anos, com costelas quebradas e um braço empenado, rastejando por ali no escuro absoluto, fugindo de monstros, era algo que desafiava a lógica. Ayla não era apenas uma vítima; ela era uma força da natureza que se recusava a apagar. O respeito que ele sentia por ela subiu um degrau que ele nem sabia que existia. Ao chegar em casa, ele se desfez da roupa com cheiro de explosão como se fosse uma pele morta. Tomou um banho rápido, deixando a água quente lavar a tensão dos ombros. Ao sair, pegou uma mochila tática e começou a enfiar algumas coisas: uma troca de roupa extra para ele, uma tolha limpa. Ele sabia que, se ela precisasse de outro banho, ele estaria lá. Ele não permitiria que nenhum estranho a tocasse naquela vulnerabilidade. Ao estacionar em frente ao postinho, Tico viu a silhueta de Sete encostada na parede externa, fumando um cigarro com o olhar perdido nas luzes da cidade. Sete apenas acenou com a cabeça, um gesto de quem carregava o peso da ligação com o Chefe do CV. Tico entrou no corredor e viu Catarina saindo do quarto 04, com o rosto pálido e as mãos inquietas. — Tico! Graças a Deus vocês voltaram bem — disse ela, aproximando-se e segurando o braço dele por um segundo. — Tá tudo sob controle, Catarina. O Sete tá ali fora te esperando pra te levar pra casa. O movimento hoje acabou. Catarina assentiu, mas seus olhos estavam marejados de uma preocupação nova. Tico... entra lá. Ela está bem, mas a respiração não está legal. O médico passou agora pouco e disse que está com medo de o pulmão estar comprometido por causa daquela costela que quase perfurou. Ela está cansando muito para respirar. O estômago de Tico deu um nó. Ele agradeceu com um aceno rápido e empurrou a porta com o coração na boca. O quarto estava mais frio do que antes. A primeira coisa que ele viu foi o brilho do plástico: Ayla estava novamente com a máscara de oxigênio. Os olhos dela estavam abertos, mas pareciam vidrados, focados no esforço hercúleo de puxar o ar. O peito dela subia de forma irregular, e o som que vinha dali era um chiado úmido, assustador. Tico jogou a mochila no chão e sentou-se na beirada da maca, pegando a mão dela. — Ei... eu voltei. Tô aqui. Respira devagar, pequena. Ayla tentou olhar para ele, mas o pânico começou a transbordar. As pupilas dela dilataram. De repente, o ritmo do monitor cardíaco disparou — bip-bip-bip-bip-bip — e ela começou a se debater levemente, as mãos buscando o pescoço, como se houvesse uma mão invisível apertando sua garganta. Ela estava sufocando. — AYLA! — Tico gritou, levantando-se e segurando os ombros dela para que ela não se machucasse ainda mais. — DOUTOR! ENFERMEIRA! SOCORRO AQUI! AGORA! A porta foi escancarada. O médico de plantão e dois enfermeiros entraram correndo, empurrando Tico para o lado. — Edema! O pulmão colapsou! — gritou o médico, checando as pupilas dela e o dreno. — Prepara a sala cirúrgica agora! Ela está entrando em insuficiência respiratória aguda! Tico ficou paralisado no canto do quarto, vendo a maca ser destravada com violência. Ele viu o rosto de Ayla por trás da máscara embaçada; ela olhava para ele com um desespero mortal, a mão estendida no ar por um segundo antes de cair sem forças. Eles a levaram pelo corredor em uma velocidade alucinante, o som das rodas da maca ecoando como trovões nos ouvidos de Tico. Ele ficou ali, no quarto vazio, o cheiro de lavanda dela ainda no ar, mas a presença dela arrancada dele. Minutos depois, uma enfermeira voltou para recolher alguns papéis e o suporte do soro. Ela olhou para Tico, que parecia uma estátua de dor no meio do quarto. — Ela vai ficar bem? — a voz de Tico saiu como um sussurro quebrado. — Ela entrou em cirurgia de emergência agora — a enfermeira disse, com a voz carregada de pesar. — A costela fraturada acabou causando um pneumotórax e houve uma complicação interna. O cirurgião já está lá. Agora... agora é com Deus, Tico. E com a força dela. Tico sentiu o mundo desabar. Ele olhou para a mochila que trouxera com tanto cuidado, com as roupas limpas para o banho que ele esperava dar nela. Ele caminhou até a poltrona e desabou, escondendo o rosto nas mãos. O silêncio do quarto 04 era agora o seu maior inimigo. Se o Abutre estivesse na sua frente naquele momento, Tico não usaria o fuzil. Ele usaria as próprias mãos para retribuir cada grama de sofrimento que Ayla estava passando naquela mesa de cirurgia.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR