A noite estava úmida, e o cheiro da chuva que ameaçava cair misturava-se ao odor acre que vinha da direção da Viela 12. Catarina atravessou a porta de vidro do postinho com um passo manco, mas decidido. Os pontos no seu pé ainda repuxavam, uma dor aguda que a lembrava de cada metro percorrido na lama, mas ela já conseguia apoiar o peso com mais firmeza.
Assim que cruzou a saída, seus olhos buscaram a penumbra. Sete estava encostado na lateral da moto, os braços cruzados sobre o colete tático, a luz de um poste solitário esculpindo as linhas duras de seu rosto. Ao vê-lo ali, inteiro, sem um arranhão da explosão, Catarina sentiu um alívio que quase a fez fraquejar as pernas.
Ela não caminhou; ela se lançou. O abraço foi um impacto de desespero e gratidão. Catarina envolveu o pescoço de Sete com força, enterrando o rosto na curva do ombro dele, sentindo o cheiro de pólvora e suor que emanava de sua pele.
— Obrigada... — ela sussurrou, a voz abafada contra o tecido da farda dele. — Obrigada por ter voltado.
Sete ficou rígido por um segundo. Ele não era um homem de afagos públicos, e a armadura que carregava no peito parecia se estender para dentro da alma. Mas, lentamente, ele descruzou os braços e envolveu a cintura de Catarina, apertando-a contra si com uma posse silenciosa.
— Eu disse que voltava — ele respondeu, a voz grave vibrando contra o peito dela. — Sobe aí. O morro ainda tá quente.
Catarina montou na garupa, segurando-se nele como se Sete fosse o único ponto fixo em um mundo que desmoronava. O trajeto até a mansão foi rápido, o vento frio da subida limpando um pouco do terror das flores de sangue.
Dentro da casa, o silêncio era um luxo que Catarina ainda estava aprendendo a apreciar. Ela caminhou até o quarto, sentando-se na beirada da cama para desamarrar o curativo protetor do pé. Sete entrou logo atrás, retirando o coldre e o colete, jogando o equipamento sobre a poltrona com um baque surdo.
Catarina o observava. Havia uma paz estranha em vê-lo desarmar-se. Antes de caminhar em direção ao banheiro, ela parou na porta e olhou para ele, os olhos brilhando com uma honestidade que desarmaria qualquer soldado.
— Sete... — ela começou, segurando o batente da porta. — Durante anos, toda vez que o Abutre saía para uma missão ou para um confronto, eu me ajoelhava no canto do quarto. Mas eu não pedia para ele voltar. Eu pedia, com todas as minhas forças, para que uma bala o achasse. Eu pedia para ele morrer, para que aquele inferno acabasse de uma vez.
Ela soltou um riso triste, limpando uma lágrima solitária.
— Mas hoje... hoje foi a primeira vez na minha vida que eu fechei os olhos e pedi o contrário. Eu pedi pra Deus te guardar. Pela primeira vez, eu tive medo de alguém não voltar pra casa. Eu queria que você voltasse vivo.
Sete parou o que estava fazendo. Ele a encarou, o olhar penetrante e meio balançado pela confissão. Ele não estava acostumado a ser o motivo da prece de ninguém, muito menos de uma mulher que fora tão quebrada pela vida. Ele deu dois passos na direção dela, sua expressão ainda mantendo aquele jeito bruto, uma proteção natural contra qualquer vulnerabilidade.
— Tu não precisa pedir por mim, Catarina — ele disse, a voz ríspida, mas a mão que subiu para tocar o queixo dela era inesperadamente cuidadosa. — Eu sou o dono dessa p***a aqui. Eu sei me cuidar. Agora vai tomar teu banho. Tu tá cheirando a hospital.
Ele a empurrou levemente para dentro do banheiro, um gesto meio rústico que era a sua forma de dizer que tinha ouvido, que tinha sentido o peso das palavras dela. Ela respondeu com um sorriso, sabia que ele tinha um jeito bruto, mas era um jeito dele.
Catarina deixou a água quente cair sobre seu corpo, lavando o cansaço e a tensão. Ela pensava em Ayla, na luta que a amiga travava no hospital e na sorte que tinha de estar sob o teto daquele homem que, apesar de ser um senhor da guerra, a tratava com uma dignidade que ela nunca conhecera.
Ao sair do banho, envolta em um robe de seda, ela encontrou o quarto na penumbra. Sete já estava deitado, com o tronco nu e os lençóis cobrindo apenas as pernas. Ele estava com um braço atrás da cabeça, olhando para o teto, mas Catarina sabia que ele não estava dormindo. A mente dele devia estar no rádio, na estratégia, na guerra que viria com o amanhecer - ele havia tomado banho no outro cómodo da casa.
Ela caminhou até a cama e se ajeitou do lado dele. O colchão afundou sob seu peso, e ela se aproximou, sentindo o calor que emanava do corpo dele. Sete não se moveu, mas quando Catarina encostou a cabeça em seu ombro, ele abriu o braço, permitindo que ela se aninhasse ali.
— Tico não saiu do hospital? — ela perguntou baixo.
— Não — Sete respondeu, fechando os olhos. — Ele só sai de lá com ela. Ou morto. Agora dorme. Amanhã o dia vai ser longo pra todo mundo.
Catarina fechou os olhos, ouvindo o batimento cardíaco firme de Sete. Ali, naquele abraço meio desajeitado e bruto, ela finalmente sentiu que podia baixar a guarda. A guerra estava lá fora, o Abutre era uma ameaça real, e Ayla lutava pela vida, mas naquele momento, na penumbra daquele quarto, Catarina estava em casa.