TICO - UTI

984 Palavras
O cheiro de éter e de morte limpa do corredor da UTI parecia querer grudar na minha alma. Eu estava ali, sentado num banco de metal frio, com os cotovelos nos joelhos e a cabeça baixa, contando os batimentos do meu próprio coração enquanto esperava uma resposta que demorava uma eternidade. O relógio na parede era um carrasco, cada segundo era uma martelada. Finalmente, a porta de vidro duplo correu. O médico apareceu, ainda com a touca cirúrgica e aquele olhar de quem tinha acabado de voltar do front. Eu levantei num salto, o fuzil batendo contra a minha perna, mas eu nem senti. Minha vida estava resumida naquela pergunta muda que eu fiz com os olhos. — Ela está viva, patrão — ele disse, e eu senti meus pulmões funcionarem de novo, como se eu também estivesse sufocando junto com ela. — O maior risco era o comprometimento total do pulmão. A costela que estava fraturada acabou perfurando a pleura durante aquele espasmo de dor, causando o que chamamos de pneumotórax. O pulmão dela murchou como um balão esvaziado. Tivemos que drenar o sangue e o ar, expandir o órgão novamente e estabilizar a fratura com uma placa interna. Eu assenti, tentando processar as palavras difíceis, mas só me importando com o resultado. — Ela vai demorar a sair daqui, doutor? — Vai. Ela fica na UTI agora, sob monitoramento constante. Depois, se tudo correr bem, volta para o quarto. Mas estamos falando de semanas, Tico. A recuperação de um trauma desses, com o corpo já debilitado como o dela estava, é lenta. Vai exigir paciência. Paciência. Uma palavra que não existe no dicionário de um soldado do Turano. Mas por ela, eu aprenderia até a falar latim se precisasse. O médico me autorizou a entrar por cinco minutos. Eu tive que vestir aquele avental descartável azul, lavar as mãos até a pele arder e colocar uma máscara. Entrei na UTI e o som era um coro de máquinas. Bip... xiiii... bip... O som do ventilador mecânico fazendo o trabalho que os pulmões dela, sozinhos, não aguentavam mais. Eu caminhei até o leito dela e travei. Ver a Ayla ali, cercada de fios, com um tubo na boca e novos curativos brancos espalhados pelo corpo, me deu um soco que nenhum rival jamais conseguiu me dar. Tinha um dreno saindo do lado do tórax dela, um saco coletor com um pouco de sangue, e aquilo me revirou as tripas. O rosto, que a gente tinha acabado de limpar no banho, parecia ainda mais pálido sob a luz branca e c***l daquele setor. Eu puxei o mocho de metal e sentei ao lado dela. Minha mão buscou a dela, mas eu tive receio. Tive medo de que o meu toque, bruto e calejado, pudesse quebrar o que os médicos tinham acabado de remendar. Pela primeira vez na minha vida de crime, eu senti medo de verdade. Não era o medo da morte. Eu já encarei o cano de uma pistola a centímetros da testa e não pisquei. Eu já entrei em favela inimiga com o pente vazio e o coração gelado. Mas ali, vendo aquela menina lutando pra cada centímetro de ar, eu senti um pavor que me gelou a espinha: o medo de o mundo perder a pureza que ela representava. O medo de eu não ser o suficiente pra proteger o que restava dela. Acorda, pequena... — eu pensei, sentindo um nó na garganta que eu engoli com força. Eu olhei para os novos curativos. Cada um deles era uma cicatriz na minha honra. Eu falhei. Eu deixei ela sufocar na minha frente. Eu devia ter percebido antes que ela estava cansando. Eu, que sou treinado pra ler o campo de batalha, não soube ler o corpo da mulher que eu prometi proteger. A estranheza que eu senti no peito quando sentei na poltrona do quarto 04 pela primeira vez agora tinha virado um peso de tonelada. Eu olhava para a mão dela, imóvel, e lembrava do jeito que ela apertou meus dedos antes da crise. Ela confiou em mim. E agora ela estava ali, sedada, num lugar onde eu não podia entrar com meu fuzil pra expulsar a dor. — Eu não vou sair da porta daquela UTI, Ayla — sussurrei por baixo da máscara, a voz saindo abafada. — Tu vai ter que aguentar o tranco aí dentro, porque eu tô aguentando aqui fora. O médico falou em semanas... por mim, pode levar anos. Eu vou estar aqui quando tu abrir o olho. Eu encostei minha testa na grade da cama, fechando os olhos. O barulho das máquinas era irritante, mas era o som da vida dela teimando em ficar. Eu nunca fui homem de rezar, nunca pedi nada pra santo nenhum, mas ali, no silêncio daquela unidade, eu fiz um pacto com o que quer que estivesse lá em cima. Se ela saísse dessa, eu ia garantir que o resto da vida dela fosse tão suave quanto o pijama de seda que a Catarina trouxe. Eu saí de lá cinco minutos depois, mas deixei meu coração batendo naquela maca. Voltei pro corredor, sentei no banco e comecei a limpar minha pistola, movimento por movimento, apenas pra manter as mãos ocupadas e não deixar o medo me consumir. A guerra lá fora podia esperar. A minha guerra agora era contra o tempo, contra a febre e contra qualquer bactéria que tentasse tirar a Ayla de mim. E se o Abutre achava que tinha feito um estrago, ele não perdia por esperar. Porque cada dia que eu passava sentado naquele corredor de hospital, meu ódio por ele ganhava uma camada nova de veneno. Ela ia ter alta. Ela ia voltar pro quarto. E quando ela saísse por aquele portão, o mundo ia saber que mexer com a Ayla era a mesma coisa que assinar o próprio atestado de óbito com sangue.
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