AYLA - CONFIDENTE

655 Palavras
Aos 19 anos, Ayla possuía uma beleza que parecia florescer no concreto. De pele parda, tomada pelo sol do Rio, e cabelos cacheados que ela costumava prender em um coque alto e firme para trabalhar, ela era o retrato da resistência juvenil. Seus olhos eram grandes e expressivos, de um castanho tão claro que pareciam mel quando a luz do fim de tarde batia na janela de sua pequena casa na Maré. Ela não usava joias caras ou roupas de marca; sua única vaidade eram as próprias unhas, sempre pintadas com cores vibrantes ou desenhos minuciosos que serviam de vitrine para o seu talento. Ayla morava sozinha desde que os pais, exaustos de viverem entre o fogo cruzado e a opressão do crime, decidiram retornar para o interior do Rio. Eles imploraram para que a filha única os acompanhasse, mas Ayla tinha um sonho que pesava mais que o medo: seu salão. Com muito esforço e luta, economizando cada moeda de gorjeta e deixando de comprar roupas para si, ela montou um espaço de dois cômodos na frente de sua casa. O "Espaço Ayla" era seu santuário. O chão era de cimento queimado, as paredes pintadas de um tom de rosa pálido que ela mesma misturou, e as prateleiras ostentavam fileiras organizadas de esmaltes, lixas e cremes. Ela amava o que fazia. Para Ayla, ser manicure não era apenas sobre estética; era sobre ouvir, acolher e, por alguns minutos, fazer com que as mulheres do morro se sentissem rainhas em meio à guerra. Ela gostava do cheiro da acetona, do barulho rítmico da lixa e da sensação de ordem que sentia ao organizar seus alicates esterilizados. Nas horas vagas, quando não havia clientes, Ayla gostava de desenhar em papéis sulfite, criando novos padrões de nail art, ou de ouvir suas músicas de R&B em um volume baixo, deixando o som preencher o vazio da casa. Diferente de muitas meninas da sua idade, Ayla não tinha namorado. Ela via de perto o preço que se pagava por entregar o coração a homens que viviam com a vida por um fio ou que achavam que eram donos de suas mulheres. Ela queria ser dona de si mesma. Sua liberdade era o seu bem mais precioso, e ela a guardava com unhas e dentes, mantendo uma distância segura dos vapores e soldados que tentavam impressioná-la com correntes de ouro e motos potentes. Foi justamente essa postura discreta e trabalhadora que chamou a atenção de Catarina. O que começou como um atendimento profissional na mansão do Abutre tornou-se a amizade mais sincera da vida de Ayla. Ela era a única pessoa que Catarina realmente confiava. Enquanto cuidava das mãos da "Primeira-Dama", Ayla percebia o tremor nos dedos da amiga, os hematomas escondidos sob as mangas longas e o olhar sem brilho de quem vivia em uma prisão de luxo. Ayla nunca julgou. Ela apenas ouvia. Foi ela quem limpou as lágrimas de Catarina quando o Abutre passava dos limites, e foi ela quem, em sussurros encorajadores, disse que o mundo era grande demais para se resumir àqueles muros. Elas criaram um código de lealdade: Ayla trazia as fofocas leves do asfalto para distrair Catarina, e Catarina encontrava em Ayla a irmã que nunca teve. Nessa manhã, após a notícia da fuga de Catarina ter se espalhado como fumaça de incêndio, Ayla sentia um peso no peito. Ela estava feliz pela amiga, genuinamente radiante por saber que Catarina tinha tido a coragem de buscar a liberdade, mas o instinto de sobrevivência dizia que o perigo agora batia à sua porta. Sentada em sua banqueta de couro sintético, Ayla olhava para o salão que tanto amava. Cada detalhe ali tinha o seu sangue e o seu suor. Ela não queria deixar tudo para trás, mas sabia que, para o Abutre, ela não era apenas uma manicure; ela era o elo mais fraco e, possivelmente, a próxima vítima de sua vingança possessiva.
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