ABUTRE - RECUANDO

985 Palavras
O ronco dos motores dos blindados artesanais, os "caveirões" do tráfico, subia a ladeira principal do Turano como o rosnado de bestas famintas. Abutre estava na frente, de pé dentro da escotilha do primeiro veículo, segurando seu fuzil de ouro com uma das mãos e o rádio com a outra. O rosto dele estava transfigurado; a adrenalina e o ódio o haviam transformado em algo puramente destrutivo. Ele não via mais ruas ou pessoas, via apenas o objetivo final: arrancar Catarina das mãos de Sete e ver o morro rival em chamas. — AVANÇA! DERRUBA ESSA p***a! — gritou Abutre pelo rádio, sua voz quase sumindo em meio ao barulho ensurdecedor dos motores e das rajadas de fuzil que seus homens disparavam para todos os lados, atingindo fachadas de casas e postes, mesmo sem um alvo visível. O silêncio do Turano, em contraste, era absoluto e aterrorizante. Não havia música, não havia gritos, nem mesmo o revide dos soldados de Sete. Era como se o morro estivesse deserto, uma cidade fantasma esperando para ser devorada. Abutre interpretou isso como covardia. Ele sorria, um sorriso maníaco, enquanto o primeiro blindado se aproximava da barricada principal, feita de trilhos de trem e blocos de concreto. — Eles correram! — berrou Tuiuiú, que operava a metralhadora lateral. — O Sete peidou, patrão! Mas no momento em que o para-choque reforçado do blindado tocou o primeiro bloco de concreto, o mundo pareceu desacelerar. Um estalo seco ecoou, seguido por uma luz branca cegante. Sete não tinha colocado soldados na linha de frente; ele tinha colocado engenharia de guerra. A primeira mina terrestre, posicionada exatamente sob o ponto de maior pressão da ladeira, detonou com uma força que jogou a frente do blindado de três toneladas para o ar. O estrondo foi seguido por uma reação em cadeia. Das janelas altas e dos terraços que Abutre julgava vazios, surgiram os canos negros dos fuzis de elite do Turano. Não era um tiroteio desordenado como o da Maré; era fogo cruzado de precisão. — EMBOSCADA! — gritou um dos motoristas, mas já era tarde. Sete tinha bloqueado a rua de trás com um caminhão de lixo tombado segundos após a entrada do comboio, fechando a saída. Abutre sentiu o impacto da explosão sacudir seus ossos. O blindado em que ele estava deslizou para trás, a roda dianteira esquerda completamente destruída. — SAIAM DO CARRO! VAMOS A PÉ! — ordenou Abutre, pulando para o asfalto, os olhos ardendo com a fumaça de pólvora. Foi então que o verdadeiro m******e começou. Sete tinha instalado "cordões detonantes" ao longo das vielas. Quando os homens de Abutre tentaram se abrigar nas entradas dos becos, as paredes laterais explodiram, lançando estilhaços e escombros sobre os invasores. O terreno que Abutre achava que estava conquistando estava, na verdade, tentando matá-lo. Abutre disparava seu fuzil de ouro para cima, na direção dos telhados, mas os atiradores do Sete eram fantasmas. Eles disparavam duas vezes e mudavam de posição, seguindo o treinamento rigoroso que o braço direito do Comando Vermelho impunha. — Patrão, a gente tá sendo fuzilado de todo lado! O Cebola caiu, o Tuiuiú tá baleado! — Pedrinho gritou, arrastando um companheiro ferido. — Não tem como subir! Eles mineraram a ladeira inteira! Abutre viu o segundo blindado começar a pegar fogo. Ele olhou para cima, para o alto do morro, onde a casa de Sete se erguia, calma e inalcançável. Ele sabia que, naquele exato momento, Sete devia estar observando tudo com um copo de uísque na mão, rindo da sua estupidez. A fúria de Abutre era tão grande que ele m*l conseguia respirar. Ele queria continuar, queria subir a pé, queria trocar tiro até a última bala, mas a realidade era c***l: seus homens estavam batendo em retirada por conta própria, jogando as armas no chão para correr mais rápido. A logística de Sete tinha destruído a moral da Maré em menos de quinze minutos. — RECUAR! RECUAR AGORA! — berrou Abutre, o grito saindo como um r***o de dor de sua garganta. Ele teve que ser arrastado por dois de seus soldados para dentro de uma picape de apoio que ainda conseguia manobrar. Enquanto o veículo descia a ladeira em marcha ré, sob uma chuva de balas que ricocheteavam na lataria, Abutre via o território do Turano se afastar. Ao chegar na base da divisa, em terreno neutro, Abutre saltou do carro antes mesmo dele parar totalmente. Ele caminhou até uma mureta e descarregou o restante do pente do seu fuzil de ouro contra uma árvore, gritando palavras desconexas de puro ódio. — COVARDE! APARECE, SETE! LUTA IGUAL HOMEM, SEU FILHO DA PU.TA! — ele berrava para as montanhas, a voz ecoando no vale. Ele chutou o pneu da picape até seus dedos doerem. A humilhação era completa. Ele tinha ido para uma guerra e tinha sido expulso como um amador. Ele sabia que, a essa hora, a notícia já corria por todos os rádios do Rio de Janeiro: o Abutre tentou bicar o Turano e saiu sem as penas. Sua raiva possessiva agora tinha um novo alvo. Não era mais apenas sobre Catarina; era sobre a sua própria sobrevivência como líder. Ele se virou para os sobreviventes, que sangravam e tremiam ao redor dos carros destruídos. — Isso não acabou... — ele disse, o rosto sujo de graxa e sangue, os olhos brilhando com uma promessa de destruição total. — Ele acha que ganhou porque tem bombinha e estratégia? Eu vou mostrar pra ele o que acontece quando o Abutre perde a razão de vez. Eu vou queimar o Rio de Janeiro, mas eu tiro aquela p*****a de lá nem que seja em cinzas! Ele entrou no carro, batendo a porta com uma força que quase quebrou o vidro. O recuo era uma ferida aberta em sua alma, e ele pretendia fazê-la sangrar em cada beco da cidade até conseguir o que queria.
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