O trajeto até o posto de saúde do Turano foi feito sob um silêncio sepulcral. Sete pilotava com precisão, mas seus olhos vigiavam cada retrovisor, atento a qualquer movimentação na divisa. Atrás dele, Catarina mantinha o corpo tenso, as mãos apertando a cintura do estrategista com uma força que denunciava o pânico que a corroía por dentro. Quando a moto parou diante da fachada simples do postinho, Catarina nem esperou Sete dar o apoio; ela saltou, ignorando a dor aguda no próprio pé, e mancou apressadamente em direção à entrada.
O cheiro de éter e limpeza a atingiu como um soco. Ela seguiu o som dos monitores cardíacos até o final do corredor, onde a porta do Quarto 04 estava entreaberta. Sete vinha logo atrás, sua presença imponente projetando uma sombra longa sobre o piso de azulejos.
Ao empurrar a porta, Catarina estancou. O ar pareceu fugir de seus pulmões de uma só vez.
Na penumbra do quarto, a cena que se desenhava era algo que ela jamais esqueceria. Tico, o homem de gelo do Turano, o soldado que ela raramente vira demonstrar qualquer emoção, estava sentado na poltrona de corino rasgado, inclinado para a frente. Suas mãos grandes e calejadas envolviam com uma delicadeza quase irreal a mão esquerda de Ayla. Ele parecia uma sentinela que não dormia há séculos, os olhos fixos na garota como se pudesse mantê-la viva apenas com a força do seu olhar.
Mas o que destruiu Catarina foi o que estava na maca.
— Ayla... — o nome saiu como um sopro agonizante dos lábios de Catarina.
A garota na cama, ao ouvir a voz familiar, virou o rosto lentamente. O movimento lhe custou um gemido de dor que ecoou pelo quarto. Quando seus olhos, cercados por hematomas negros e inchados, encontraram os de Catarina, a barreira de contenção de Ayla ruiu. Ela não conseguia falar devido ao maxilar travado pela inflamação, mas as lágrimas começaram a jorrar, abrindo sulcos limpos no rosto sujo de sangue seco.
Catarina correu. Ela tropeçou na beira da maca e caiu de joelhos ao lado da amiga, levando as mãos ao rosto, horrorizada com a extensão da crueldade.
— Meu Deus, Ayla! Perdão... por favor, me perdoa! — Catarina soluçava, o rosto escondido nos lençóis ao lado do corpo quebrado da menina. — Fui eu... eu fiz isso com você! Eu fugi e deixei você lá... eu devia ter te levado comigo! Olha o que ele fez com você, minha irmã... olha o que aquele monstro fez!
Ayla tentou apertar a mão de Catarina, mas suas forças eram mínimas. Ela apenas emitia sons abafados, um choro rascante de quem tinha sido levada ao limite da existência humana.
Sete, observando a cena da porta, sentiu uma pressão incômoda no peito. Ele fez um sinal discreto para Tico. O braço direito levantou-se da poltrona com relutância, soltando a mão de Ayla apenas quando teve certeza de que Catarina estava ali para segurá-la.
Os dois homens saíram para o corredor, deixando as mulheres no seu lamento de dor e lealdade. Tico fechou a porta com cuidado e encostou-se na parede oposta, passando a mão pelo rosto sujo de cansaço. Sua expressão era de um ódio tão profundo que parecia palpável.
— Sete... — Tico começou, a voz saindo baixa e perigosa. — Eu nunca vi nada igual. E olha que a gente já viu de tudo nessa vida de guerra. O Abutre não bateu nela pra interrogar. Ele bateu pra destruir. Ele moeu os ossos da garota como se ela fosse um pedaço de carne no açougue.
Sete cruzou os braços, ouvindo o relato com a frieza de um juiz.
— Qual é o quadro real, Tico? O médico me passou o básico, mas eu quero a tua visão.
Tico suspirou, o peito subindo e descendo com força.
— Ela tá apavorada, irmão. Tá com a alma em frangalhos. Quando ela acordou agora cedo, ela quase se matou tentando levantar porque achava que ainda tava na Maré. O pânico nos olhos dela... eu tive que segurar ela, Sete. Ela agarrou minha camisa como se eu fosse a última coisa no mundo que não ia bater nela. Ela tem medo dos médicos, medo do barulho da porta... qualquer sombra faz ela tremer.
Tico fez uma pausa, olhando para a mancha de sangue na própria manga.
— Ela tá com três costelas no osso, o braço direito empenado e o rosto... o rosto tá um mapa de covardia. A gente já deu muito tiro, Sete. Já invadiu muita base. Mas bater numa menina desse tamanho, desarmada... isso não é crime, isso é coisa de demônio.
Sete olhou para a porta fechada, de onde ainda vinham os soluços de Catarina.
— O Abutre assinou a sentença de morte dele, Tico. Ele achou que batendo nela, ele ia mostrar poder. Ele só me deu o motivo que faltava pra eu não ter piedade.
— Eu não saio do lado dela, Sete — Tico interrompeu, com uma determinação que surpreendeu até o próprio dono do morro. — Eu vou ficar aqui até ela conseguir falar. Eu quero ouvir o nome de cada um que encostou a mão nela. E eu te peço... deixa a segurança dela por minha conta. Eu vou ser a sombra dessa menina. O Abutre não chega a dez centímetros dela enquanto eu estiver respirando.
Sete assentiu, reconhecendo o brilho raro nos olhos de seu soldado mais leal.
— O morro é teu, Tico. Pega os homens que precisar. O postinho agora é uma fortaleza. E prepara o armamento pesado. A gente não vai mais esperar o Abutre bater na nossa porta. A gente vai levar o inferno até a Maré e eu quero que ele veja o rosto dessa menina em cada bala que a gente disparar.
Tico estralou o pescoço, o desejo de vingança agora sendo a única coisa que o mantinha acordado. Lá dentro, o choro de Catarina diminuía, dando lugar a um silêncio pesado. A guerra do Rio de Janeiro tinha acabado de mudar de tom; não era mais apenas por poder. Era por cada osso quebrado de Ayla.