CATARINA - OUTRO RESGATE

1190 Palavras
O sol já estava alto quando Catarina despertou. O quarto no alto do Turano, embora seguro e luxuoso, ainda parecia um cenário estrangeiro para ela. Por um breve segundo, ao abrir os olhos, o teto de gesso rebaixado e o silêncio absoluto a fizeram tatear o colchão em busca de uma fuga, mas o cheiro de café fresco que subia pelas frestas da porta a trouxe de volta à realidade. Ela não estava mais na Maré. Não havia gritos, não havia o som seco de tapas ou o cheiro de uísque barato impregnado nos lençóis. Catarina sentou-se na cama com dificuldade. Seu pé, devidamente enfaixado após os pontos, latejava com uma dor sorda, lembrando-a da corrida desesperada pela mata. Ela vestiu o robe de seda clara que Sete havia providenciado — uma peça que contrastava violentamente com as roupas vulgares que o Abutre a obrigava a usar — e, apoiando-se nas paredes do corredor, iniciou a descida para a cozinha. Ao chegar ao pé da escada, ela parou. Sete estava de pé, de costas para ela, olhando pela imensa vidraça que dava para o vale. Ele segurava uma caneca de cerâmica preta, mas não bebia. Sua postura era de uma rigidez militar; os ombros largos pareciam carregar o peso de uma tempestade iminente. O rádio em sua cintura chiou uma vez, mas ele o silenciou com um movimento brusco. — Bom dia... — Catarina sussurrou, a voz ainda rouca de sono. Sete se virou lentamente. O rosto dele, geralmente uma máscara de indiferença controlada, estava sombrio. Os olhos, que às vezes suavizavam ao olhá-la, agora estavam frios como aço temperado. Ele não respondeu ao cumprimento. Apenas colocou a caneca sobre a ilha de granito e cruzou os braços sobre o peito tatuado. — Você demorou a acordar — ele disse, a voz grave vibrando no ambiente silencioso. Catarina sentiu um frio imediato na espinha. Ela conhecia aquele tom. Era o tom de quem guardava uma notícia que tinha o poder de destruir mundos. Ela caminhou com dificuldade até a banqueta e se sentou, as mãos tremendo levemente sobre o colo. — O que aconteceu, Sete? — ela perguntou, os olhos fixos nos dele. — O Abutre atacou de novo? Os meninos da divisa... aconteceu algo? Sete soltou um suspiro pesado, desviando o olhar por um segundo antes de encarar Catarina com uma franqueza brutal. — Na madrugada, por volta das três da manhã, a contenção da trilha leste achou alguém. Uma menina. Ela cruzou a mata sozinha, vinda da Maré. O coração de Catarina deu um solavanco. Ela sentiu o ar faltar nos pulmões, e o rosto de uma pessoa específica brilhou em sua mente como um sinal de alerta. — Uma menina? — Catarina gaguejou, a voz falhando. — Como ela estava? Onde ela está agora? Sete deu um passo em direção a ela, a expressão endurecendo ainda mais. — Ela estava destruída, Catarina. O Abutre não apenas bateu nela. Ele tentou quebrá-la. Ela chegou com costelas fraturadas, um braço quebrado e o rosto que quase não dá para reconhecer. Ela rastejou pelo barro com ossos partidos só para chegar aqui. E o tempo todo, entre um desmaio e outro, ela chamava por você. Pedia pela "Catarina". Catarina sentiu o mundo girar. Suas mãos subiram ao rosto, abafando um soluço que subiu rasgando sua garganta. As lágrimas, que ela achava terem secado na noite da fuga, transbordaram instantaneamente, molhando a seda do robe. — Meu Deus... não... — ela chorou, o corpo tremendo violentamente. — É a Ayla. Tem que ser a Ayla! Sete franziu o cenho, processando o nome. — Ayla? — É a única pessoa que eu tinha, Sete! — Catarina gritou, levantando-se da banqueta e ignorando a dor aguda no pé ferido. — A única alma naquele inferno que me tratava como gente! Ela não tem nada a ver com isso! Ela só fazia as minhas unhas... ela limpava o meu sangue quando aquele monstro me batia! Ele fez isso para me atingir! Ele sabia que eu amava aquela menina como uma irmã! Catarina começou a andar de um lado para o outro na cozinha, desorientada, batendo as mãos contra as coxas em um gesto de puro desespero. O pânico a consumia. Ela imaginava o rosto doce de Ayla, de apenas 19 anos, sendo alvo da brutalidade de um homem que não conhecia limites. — Onde ela está? Me leva até ela agora! — Catarina exigiu, agarrando o braço de Sete com força, as unhas cravando na pele dele. — Se ela morrer, Sete... se ela morrer por minha causa, eu nunca vou me perdoar. Eu trouxe essa maldição para a vida dela! Sete segurou os pulsos de Catarina com firmeza, forçando-a a olhar para ele. Sua voz era um comando, tentando ancorá-la no meio do caos emocional. — Calma! Ela está no posto médico. O Tico está com ela. Ele não saiu do lado da cama desde que a pegou na mata. O médico disse que ela está estável agora, mas a noite foi ruda. Ela é forte, Catarina. Mais forte do que você imagina. Catarina desabou contra o peito de Sete, chorando copiosamente. O cheiro de sândalo dele, que antes a acalmava, agora parecia misturado ao cheiro imaginário de sangue e acetona do salão de Ayla. — Ele destruiu a vida dela... — ela soluçava contra a camiseta preta de Sete. — Ele tirou o sustento dela, a segurança dela... tudo porque eu tive coragem de fugir. O Abutre é um demônio, Sete. Ele não vai parar enquanto não houver cinzas ao redor de mim. Sete a envolveu em um abraço protetor, mas seus olhos, por cima da cabeça de Catarina, brilhavam com uma promessa de extermínio. A dor de Catarina era o combustível que faltava para a sua paciência estratégica se transformar em ação letal. — Ele cometeu o erro fatal dele, Catarina — Sete sussurrou, a voz carregada de uma frieza que faria o próprio inferno congelar. — Ele mexeu com quem não devia e jogou a última peça no meu tabuleiro. Eu vou te levar até o posto agora. Mas escute bem: cada marca no corpo dessa menina vai ser cobrada com juros. O Abutre não vai ter nem um túmulo para chamar de seu quando eu terminar com ele. Catarina se afastou, limpando o rosto com as costas das mãos, os olhos vermelhos agora refletindo uma faísca de algo que Sete reconheceu imediatamente: o desejo de vingança. — Eu quero ver ela — ela disse, a voz agora endurecida pelo ódio. — E depois... depois eu vou te dar cada detalhe, cada nome, cada esquema que falta para você apagar aquele lixo da face da terra. Sete assentiu. Ele pegou a chave da moto e o rádio. A manhã, que começara com o peso de uma tragédia, agora se transformava no prólogo de uma guerra que a Maré jamais esqueceria. O estrategista do Turano tinha finalmente decidido que o tempo de esperar o ataque do inimigo havia acabado. — Vamos — disse Sete. — O Tico está esperando. E a sua amiga precisa saber que ela não está mais sozinha.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR