ABUTRE - INVASÃO

1243 Palavras
O sol de meio-dia castigava o asfalto do Complexo da Maré, mas o calor não era nada comparado ao incêndio que consumia os nervos de Abutre. Ele não pulsava mais com a batida do funk ou com o ritmo dos negócios; agora, seu coração batia no compasso metálico e seco do carregamento de fuzis. Ele caminhava pelo pátio principal como um animal ferido, uma fera que via sua autoridade escorrer pelos dedos como sangue. A fuga de Catarina não tinha levado apenas a sua "mulher"; tinha levado sua sanidade e o seu senso de guerra. Para ele, pessoas eram propriedades, e perder uma peça tão valiosa para o maior rival era uma humilhação que ele não pretendia carregar por mais de vinte e quatro horas. — REÚNE TODO MUNDO! — o grito de Abutre rasgou o ar, fazendo os vapores que estavam na contenção e nas bocas de fumo correrem em direção ao centro do pátio. Em poucos minutos, dezenas de homens estavam alinhados, armados com fuzis de última geração, coletes táticos e o medo estampado nos olhos. Ninguém queria ser o próximo alvo da fúria do patrão. Abutre subiu no capô de um jipe blindado, olhando de cima para o seu exército pessoal. Ele apertava o cabo de sua pistola banhada a ouro com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, quase saltando da pele. — Escutem bem, seus vermes! — Abutre começou, a voz rouca, carregada de um ódio que vibrava no ar pesado. — O Sete acha que pode rir da minha cara. Ele acha que o Morro do Turano é um castelo onde ele pode esconder o que é MEU. Ele acha que o Comando Vermelho é escudo pra ele. Mas hoje, a gente vai mostrar que pra quem é do nosso lado, não existe muro alto o suficiente! Ele apontou o dedo na direção das montanhas onde o Turano se escondia atrás da neblina de calor. — Eu não quero apenas invadir. Eu quero que eles sintam o medo. Quero que o Sete não consiga ouvir o próprio pensamento de tanto barulho que a gente vai fazer. Tuiuiú! Cebola! Peguem dez moleques cada um e subam pelas trilhas laterais. Não é pra entrar ainda. Eu quero que vocês cerquem os acessos da divisa e metam bala! Quero tiro pro alto, quero rajada na direção das torres de observação deles. Façam o Turano tremer! — Mas patrão, e a munição? — um dos soldados ousou perguntar, com a voz trêmula. — Se a gente gastar tudo no susto, como fica na hora de entrar pra valer? Abutre saltou do jipe e parou a milímetros do rosto do homem. O hálito de álcool, cigarro e fúria atingiu o soldado como um soco. — Eu não te perguntei sobre munição, seu bosta! Eu tenho dinheiro pra comprar essa cidade inteira se eu quiser! Eu quero o Sete apavorado. Quero ele achando que o inferno tá subindo o morro dele. Agora VAI! Os soldados se dispersaram rapidamente. Logo, o som de motores de motos e picapes ecoou pela Maré, partindo em uma procissão de morte em direção à zona de conflito. Abutre voltou para dentro da sua sala de guerra. O ambiente era o retrato de sua mente: mapas estavam espalhados pelo chão, pisoteados e manchados de bebida. Ele tentava bolar um plano de invasão, mas sua mente não trabalhava com a lógica fria e calculista de Sete; ela trabalhava com a força bruta e a agressividade desmedida. Ele pegou uma caneta vermelha e começou a riscar o mapa do Turano com uma violência que rasgava o papel grosso. — A gente vai entrar por aqui... contornando a mata — ele falava sozinho, os dentes cerrados, a saliva escapando pelo canto da boca. — O Sete espera um ataque pela ladeira principal. Ele é "militar", ele é metódico. Ele vai botar os blindados dele lá. Por isso, a gente vai fazer o barulho na frente e entrar por trás, pelo caminho das pedras. Ele parou, olhando para o vazio. A imagem de Catarina vestindo o vestido preto, a lembrança do nojo nos olhos dela, a afronta de ela ter buscado abrigo logo com o Sete... tudo isso o atingia como uma facada no ego. — Ela vai pagar — ele sussurrou, a mão tremendo sobre o mapa. — Ela vai ver o Sete morto e depois eu vou levar ela de volta pro porão. Ela vai implorar pra eu dar um tiro na cabeça dela. Abutre começou a organizar as caixas de munição pessoalmente. Ele verificava os carregadores, uma tarefa que normalmente deixava para os subordinados, mas ele estava possesso demais para ficar parado. A cada poucos minutos, ele parava para dar ordens ruidosas pelo rádio, exigindo que os tiros na divisa aumentassem de intensidade. — DÁ TIRO, p***a! EU QUERO OUVIR OS FUZIS DAQUI! — ele gritava no rádio, a voz falhando de tanto esforço. Do outro lado, o som seco das rajadas de 7.62 começava a ecoar das encostas. Abutre sorriu, um sorriso torto e macabro que não chegava aos olhos. Ele acreditava piamente que o barulho intimidaria o estrategista do lado de lá. Ele acreditava que, ao cercar o morro rival com fumaça e estrondo, ele estava retomando as rédeas da situação. — Patrão, os blindados já estão na posição de recuo, esperando sua ordem — avisou Cebola pelo rádio, o som de tiros de fundo quase abafando sua voz. — O Turano tá quieto. Eles não tão devolvendo o fogo. Acho que eles tão com medo de botar a cara. Abutre soltou uma gargalhada alta, quebrando uma garrafa de vidro contra a parede de concreto da sala. — É claro que tão com medo! O Sete é um covarde que se esconde atrás de tática e livrinho de guerra! Ele não tem o sangue nos olhos que eu tenho! Continua atirando! Quero que eles gastem o oxigênio de tanto tremer lá dentro! Ele se virou para o resto de seus homens na sala, que o observavam como se olhassem para uma bomba-relógio. — Preparem os coquetéis molotov. Se a gente não conseguir entrar por causa das barricadas, a gente queima a entrada. Eu não quero prisioneiros, exceto a Catarina. O resto... eu quero que vire cinza para servir de exemplo. Abutre pegou seu próprio fuzil, a arma banhada a ouro que era o símbolo máximo de sua vaidade e de sua crueldade. Ele a carregou com um estalo seco e satisfatório. Naquele momento, ele se sentia o dono do destino, incapaz de perceber que seu plano de invasão era furado, baseado apenas em impulsividade e feridas no orgulho. Ele estava organizando um m******e, mas sua cegueira possessiva o impedia de ver que o campo de batalha já tinha sido escolhido por Sete muito antes de o primeiro tiro ser dado. A agressividade de Abutre era o seu maior ponto fraco, e ele estava entregando sua cabeça em uma bandeja para o silêncio mortal do Turano. — Vamos subir — Abutre ordenou, os olhos brilhando com uma loucura definitiva que afastava qualquer traço de razão. — Hoje o Rio vai saber que ninguém foge do Abutre e vive pra contar a história. Ele saiu da sala com passos pesados, deixando para trás um rastro de destruição e um plano que tinha tudo para ser o seu último ato de comando. A caçada humana que ele iniciara estava prestes a se tornar o cenário de sua própria ruína.
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