TICO - MEDO

900 Palavras
A noite no Turano tinha um silêncio pesado, interrompido apenas pelo zumbido distante de algum gerador ou o estalo metálico de um fuzil sendo manuseado na guarita do hospital. Dentro do quarto da UTI, o isolamento era absoluto. Tico sentia o peso do mundo nos ombros. Ele tinha usado o pequeno banheiro do setor para tomar um banho rápido, tentando lavar a craca da guerra e o cansaço que parecia ter penetrado nos seus ossos. Ao se vestir, o aperto no peito voltou. Ele vestiu a camiseta de algodão macio e a calça que tinha separado com tanto cuidado na mochila. Aquela era a "roupa da vitória", a troca que ele imaginou usar quando estivesse ajudando Ayla a se lavar, quando ela estivesse sorrindo e sentindo a água morna. Ver-se limpo e cheiroso enquanto ela continuava ali, pálida e ligada a tubos, parecia uma traição. Um toque suave na porta o despertou dos pensamentos. Era um vapor da confiança de Sete, trazendo um saco de papel pardo e uma lata de refrigerante gelada. — O patrão mandou fortalecer, Tico. Tu precisa comer, irmão — o moleque disse, entregando o lanche e saindo sem esperar resposta. Tico sentou-se na poltrona ao lado da maca. O cheiro do hambúrguer artesanal e das batatas invadiu o quarto, mas ele não sentia fome. Ele abriu a lata, o som do gás escapando parecendo um tiro no silêncio sepulcral. Ele jantou ali, mecanicamente, com os olhos fixos no rosto de Ayla. O único som era o ritmo hipnótico e artificial do respirador: Xiiii... clac... xiiii... clac... A máquina forçando o ar para dentro de um corpo que o Abutre tentara apagar. — Come com o olho, pequena... — ele murmurou entre uma mordida e outra, a voz rouca. — Quando tu sair dessa, eu vou te levar no melhor lugar da cidade. Tu vai comer o que quiser. Por volta das 22h, a porta automática correu e o médico intensivista entrou, acompanhado de uma enfermeira. Ele checou os monitores, anotou algo no prontuário e olhou para Tico com uma expressão séria, mas encorajadora. — Já se passaram quase vinte e quatro horas desde a cirurgia, Tico. Os parâmetros de oxigenação estão estáveis e os exames de imagem mostram que o dreno cumpriu o papel. O pulmão expandiu. Mas agora vem a parte mais difícil. Tico levantou-se, deixando o resto do lanche de lado. O coração dele começou a martelar contra as costelas. — O que o senhor vai fazer? — Precisamos saber se ela consegue caminhar sozinha. Vamos fazer o desmame do ventilador e extubar. Ayla precisa respirar por conta própria agora. Se ela não conseguir sustentar o fôlego, teremos que intervir novamente. Tico sentiu um suor frio descer pela nuca. Ele se aproximou da cabeceira da maca. A enfermeira começou a preparar o campo, aspirando as vias e soltando as fitas que prendiam o tubo na boca de Ayla. — Posso ficar? — Tico perguntou, a voz quase sumindo. — Fica. Segura a mão dela. O estímulo tátil ajuda no despertar — o médico autorizou. Tico envolveu a mão pequena de Ayla com as suas duas mãos grandes. A pele dela estava fria, mas ele tentou transferir todo o seu calor para ela. Ele sentia cada calo das suas mãos de soldado contra a delicadeza dela. — Vamos lá, Ayla. No três — o médico comandou. A enfermeira retirou o tubo com um movimento preciso. Por um segundo eterno, o silêncio no quarto foi absoluto. O som da máquina parou. O peito de Ayla, que antes subia e descia mecanicamente, ficou imóvel. Tico sentiu o pânico subir pela garganta. Ele se inclinou sobre ela, o rosto quase colado ao dela, sentindo o cheiro do antisséptico e da vida que parecia estar por um fio. — Respira, pequena... — ele sussurrou, a voz carregada de uma súplica que ele nunca dirigira a ninguém. — Por favor, Ayla. Só um pouquinho de ar. Puxa pra mim. Mostra pra esse mundo que tu é maior que a dor que te deram. Respira, meu anjo. Respira... Ele apertou a mão dela, os olhos fixos na curva do pescoço dela, esperando o movimento da traqueia. Dez segundos. Quinze segundos. O monitor cardíaco começou a apitar um alerta de queda de oxigênio. — Vamos, Ayla... não me deixa aqui sozinho — Tico pediu baixinho, uma lágrima solitária queimando seu olho. — Puxa o ar. Eu tô aqui contigo. Eu não vou soltar. De repente, o corpo de Ayla deu um pequeno solavanco. Um som rouco, como um ganido abafado, saiu da garganta dela. O peito subiu devagar, lutando contra a resistência dos pontos e da dor. Depois, desceu. E subiu de novo. Mais forte. Mais fundo. O monitor parou de apitar. O gráfico da oxigenação começou a subir, traçando uma linha verde de esperança na tela escura. — Ela conseguiu — o médico suspirou, aliviado, colocando o estetoscópio no tórax dela. — O murmúrio está presente. Ela está respirando, Tico. Tico não conseguiu responder. Ele apenas fechou os olhos e encostou a testa na mão de Ayla, sentindo o peito dela se movendo sob o ritmo da própria vida. Ele ainda estava com a roupa nova, cheirosa, mas agora ela tinha um novo significado: era a roupa que ele usaria para ver o renascimento da única pessoa que fizera o coração de um matador bater por algo além de ódio.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR