A noite no Turano tinha um silêncio pesado, interrompido apenas pelo zumbido distante de algum gerador ou o estalo metálico de um fuzil sendo manuseado na guarita do hospital. Dentro do quarto da UTI, o isolamento era absoluto. Tico sentia o peso do mundo nos ombros. Ele tinha usado o pequeno banheiro do setor para tomar um banho rápido, tentando lavar a craca da guerra e o cansaço que parecia ter penetrado nos seus ossos.
Ao se vestir, o aperto no peito voltou. Ele vestiu a camiseta de algodão macio e a calça que tinha separado com tanto cuidado na mochila. Aquela era a "roupa da vitória", a troca que ele imaginou usar quando estivesse ajudando Ayla a se lavar, quando ela estivesse sorrindo e sentindo a água morna. Ver-se limpo e cheiroso enquanto ela continuava ali, pálida e ligada a tubos, parecia uma traição.
Um toque suave na porta o despertou dos pensamentos. Era um vapor da confiança de Sete, trazendo um saco de papel pardo e uma lata de refrigerante gelada. — O patrão mandou fortalecer, Tico. Tu precisa comer, irmão — o moleque disse, entregando o lanche e saindo sem esperar resposta.
Tico sentou-se na poltrona ao lado da maca. O cheiro do hambúrguer artesanal e das batatas invadiu o quarto, mas ele não sentia fome. Ele abriu a lata, o som do gás escapando parecendo um tiro no silêncio sepulcral. Ele jantou ali, mecanicamente, com os olhos fixos no rosto de Ayla. O único som era o ritmo hipnótico e artificial do respirador: Xiiii... clac... xiiii... clac... A máquina forçando o ar para dentro de um corpo que o Abutre tentara apagar.
— Come com o olho, pequena... — ele murmurou entre uma mordida e outra, a voz rouca. — Quando tu sair dessa, eu vou te levar no melhor lugar da cidade. Tu vai comer o que quiser.
Por volta das 22h, a porta automática correu e o médico intensivista entrou, acompanhado de uma enfermeira. Ele checou os monitores, anotou algo no prontuário e olhou para Tico com uma expressão séria, mas encorajadora.
— Já se passaram quase vinte e quatro horas desde a cirurgia, Tico. Os parâmetros de oxigenação estão estáveis e os exames de imagem mostram que o dreno cumpriu o papel. O pulmão expandiu. Mas agora vem a parte mais difícil.
Tico levantou-se, deixando o resto do lanche de lado. O coração dele começou a martelar contra as costelas.
— O que o senhor vai fazer?
— Precisamos saber se ela consegue caminhar sozinha. Vamos fazer o desmame do ventilador e extubar. Ayla precisa respirar por conta própria agora. Se ela não conseguir sustentar o fôlego, teremos que intervir novamente.
Tico sentiu um suor frio descer pela nuca. Ele se aproximou da cabeceira da maca. A enfermeira começou a preparar o campo, aspirando as vias e soltando as fitas que prendiam o tubo na boca de Ayla.
— Posso ficar? — Tico perguntou, a voz quase sumindo.
— Fica. Segura a mão dela. O estímulo tátil ajuda no despertar — o médico autorizou.
Tico envolveu a mão pequena de Ayla com as suas duas mãos grandes. A pele dela estava fria, mas ele tentou transferir todo o seu calor para ela. Ele sentia cada calo das suas mãos de soldado contra a delicadeza dela.
— Vamos lá, Ayla. No três — o médico comandou.
A enfermeira retirou o tubo com um movimento preciso. Por um segundo eterno, o silêncio no quarto foi absoluto. O som da máquina parou. O peito de Ayla, que antes subia e descia mecanicamente, ficou imóvel.
Tico sentiu o pânico subir pela garganta. Ele se inclinou sobre ela, o rosto quase colado ao dela, sentindo o cheiro do antisséptico e da vida que parecia estar por um fio.
— Respira, pequena... — ele sussurrou, a voz carregada de uma súplica que ele nunca dirigira a ninguém.
— Por favor, Ayla. Só um pouquinho de ar. Puxa pra mim. Mostra pra esse mundo que tu é maior que a dor que te deram. Respira, meu anjo. Respira...
Ele apertou a mão dela, os olhos fixos na curva do pescoço dela, esperando o movimento da traqueia. Dez segundos. Quinze segundos. O monitor cardíaco começou a apitar um alerta de queda de oxigênio.
— Vamos, Ayla... não me deixa aqui sozinho — Tico pediu baixinho, uma lágrima solitária queimando seu olho. — Puxa o ar. Eu tô aqui contigo. Eu não vou soltar.
De repente, o corpo de Ayla deu um pequeno solavanco. Um som rouco, como um ganido abafado, saiu da garganta dela. O peito subiu devagar, lutando contra a resistência dos pontos e da dor. Depois, desceu. E subiu de novo. Mais forte. Mais fundo.
O monitor parou de apitar. O gráfico da oxigenação começou a subir, traçando uma linha verde de esperança na tela escura.
— Ela conseguiu — o médico suspirou, aliviado, colocando o estetoscópio no tórax dela. — O murmúrio está presente. Ela está respirando, Tico.
Tico não conseguiu responder. Ele apenas fechou os olhos e encostou a testa na mão de Ayla, sentindo o peito dela se movendo sob o ritmo da própria vida. Ele ainda estava com a roupa nova, cheirosa, mas agora ela tinha um novo significado: era a roupa que ele usaria para ver o renascimento da única pessoa que fizera o coração de um matador bater por algo além de ódio.