A noite na mansão de Sete estava mais leve. O peso de chumbo que parecia esmagar o teto da casa havia diminuído um pouco, levado pelo rádio que Sete mantinha sempre por perto. Ele entrou no quarto principal, onde Catarina estava sentada na cama, terminando de secar o cabelo.
Sete sentou-se na beirada do colchão, o corpo relaxando visivelmente.
— O Tico deu o papo agora — disse ele, um meio sorriso surgindo no rosto duro.
— Tiraram os aparelhos. Ayla está respirando sozinha, Catarina. O pulmão dela aguentou o tranco.
Catarina largou a toalha no mesmo instante, os olhos brilhando com uma esperança que ela não sentia há anos. Ela se inclinou para frente, segurando o braço de Sete.
— Sério? Ai, meu Deus... eu sabia que ela era forte! Aquela menina é um milagre, Sete.
— É — Sete concordou, tirando as botas e jogando-as de lado. — O médico disse que o pior já passou. Agora é o tempo dela de cicatrizar por dentro e por fora.
— Quando ela sair de lá, Sete... — Catarina começou, a voz animada, as mãos gesticulando com empolgação. — A gente podia ver uma casinha aqui no Turano pra alugar. Perto da sua, ou mais pra baixo na rua principal. Ela é manicure, as moradoras vão amar o trabalho dela. Eu ajudo ela a montar o cantinho dela. Ela vai poder viver em paz, longe daquele inferno da Maré.
Sete soltou uma risada curta, balançando a cabeça de um jeito cético, mas divertido.
— Casinha pra alugar? Catarina, tu não conhece o Tico! Eu nunca vi meu irmão daquele jeito em toda a minha vida. O cara não toma banho, não dorme e quase não come pra não sair do lado daquela maca. Tu acha mesmo que ele vai deixar a Ayla ficar em "casinha sozinha"? Se duvidar, ele bota ela dentro da casa dele e constrói um muro de três metros em volta. O Tico não tá mais protegendo ela por ordem minha, não. É outra parada.
Catarina sorriu, sentindo um calor no peito. Ela sabia exatamente o que era "aquela parada".
— É... talvez você tenha razão. O Tico encontrou alguém que faz o coração dele bater por outra coisa que não seja fuzil.
Sete mudou de assunto, querendo quebrar um pouco a tensão da semana. Ele pegou o controle remoto e ligou a televisão enorme presa à parede.
— Tá com fome? Eu não tô a fim de fazer comida. Quer comer uma pizza? A gente escolhe um filme qualquer e fica por aqui mesmo.
— Pizza? — Catarina estranhou o convite tão casual. — Quero. Claro que quero.
Meia hora depois, a caixa de pizza de calabresa com borda recheada estava aberta em cima da cama, entre os dois. Sete estava recostado nos travesseiros, com uma fatia na mão, enquanto um filme de ação genérico passava na tela. Catarina estava ao lado dele, comendo devagar, observando o queijo derretido e o conforto do quarto climatizado.
De repente, ela parou de mastigar e olhou para Sete, que percebeu o silêncio dela.
— Que foi? A pizza tá r**m? — ele perguntou.
— Não... é que... — ela suspirou, dando uma risada sem graça. — Isso é tão simples, né? Comer pizza no quarto, assistir a um filme b***a na TV, sem ninguém gritando lá fora, sem medo de levar um tapa se eu falar na hora errada. Parece uma coisa boba, que todo mundo faz, mas é tão diferente do que eu vivi.
Ela olhou em volta, para o luxo da mansão, mas seu foco voltou para a caixa de papelão da pizza.
— Na Maré, eu nunca tive isso. Se eu quisesse pizza, tinha que ser quando ele queria, do jeito que ele queria, e geralmente terminava comigo chorando no canto. Estar aqui agora, tranquila, sabendo que a Ayla tá respirando e que eu posso comer uma fatia de pizza do lado de um homem que me respeita... Sete, eu nunca achei que a paz fosse tão gostosa.
Sete olhou para ela, o semblante suavizando. Ele passou o braço em volta dos ombros de Catarina e a puxou para mais perto, depositando um beijo rápido no topo da cabeça dela.
— Aqui a regra é outra, Catarina. Come tua pizza. O filme tá começando a ficar bom.
Catarina se aninhou no peito dele, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, como uma pessoa comum, e não como uma sobrevivente de guerra. O Turano era um morro perigoso, Sete era um homem do crime, mas naquela cama, com o cheiro de orégano e o som da TV, ela encontrou a liberdade que a Maré nunca lhe deu.