Pré-visualização gratuita 1: O Acordo Recusado
Eu não pretendia ser invisível, mas o campus da faculdade parecia ter sido projetado para fazer qualquer pessoa que usasse óculos de grau, suéter de lã e carregasse uma pilha de livros pesados se misturar perfeitamente com o concreto cinza das paredes.
O meu plano para o primeiro semestre era simples: sobreviver às aulas de cálculo, evitar qualquer tipo de contato visual com atletas universitários e garantir que a minha melhor amiga, Claire Collins — que conseguia iluminar uma sala inteira apenas respirando e ignorando a própria beleza —, não destruísse o próprio GPA indo a festas de fraternidade em plena quarta-feira.
Mas o destino (ou o ego ferido de um capitão de time) tinha outros planos.
Tudo começou no pátio central, exatamente dez minutos depois de o grandioso e intocável Noah Evans — o quarterback estrela do time de futebol, dono de um sorriso que aparecia em todos os panfletos de marketing da universidade — levar o maior e mais educado fora da sua vida.
Eu estava sentada no banco de madeira sob a sombra de um carvalho, revisando os meus resumos, quando vi o Noah se afastar da Claire com a expressão de quem acabou de ser atropelado por um caminhão de realinhamento de ego. A Claire tinha sido implacável: riu da cara dele, disse que não saía com jogadores por falta de perspectiva de diálogo e foi comprar um café.
Noah ficou plantado no meio do pátio por dois segundos, olhando para o nada, antes de seus olhos caírem sobre mim.
Ele me viu sentada ali, a "amiga nerd e quieta" que estava com a Claire o tempo todo. Na cabeça dele, brilhante de atleta, a lógica foi imediata: se o caminho direto falhou, vou chantagear a linha de apoio.
O cara caminhou até o meu banco com aquela postura de quem é dono do campus, apoiou a mão na jaqueta universitária bem perto do meu rosto e soltou, sem o menor pudor:
— Preciso da sua ajuda.
Eu nem levantei os olhos do caderno. Continuei grifando a fórmula de probabilidade com um marcador amarelo.
— Se for para convidar a Claire para sair de novo, economiza o fôlego, Evans. Ela não vai.
Noah franziu a testa, surpreso por eu sequer ter olhado para ele.
— Como assim ela não vai? Eu sou o capitão do...
— Ela só fica com quem ela gosta de verdade, e pelo visto você não entrou na categoria — interrompi com a maior calma do mundo, finalmente erguendo os óculos na ponta do nariz para encará-lo. — Agora, se me dá licença, a minha probabilidade de reprovar em estatística é maior do que a sua chance de conseguir o número dela hoje. Passar bem.
Fechei o caderno com força, pronta para me levantar e sumir dali. Mas, antes que eu desse dois passos, um grupinho de garotas da equipe de líderes de torcida passou bem ao nosso lado. Elas olharam diretamente para mim com aquela expressão clássica de quem mede a pessoa de cima a baixo com nojo, sussurrando risadinhas venenosas enquanto passavam: "Olha lá a esquisita achando que tem chance com o Noah... patético".
O meu maxilar travou. Eu engoli seco, sentindo o rosto esquentar de humilhação, e abaixei a cabeça, querendo que o chão se abrisse para me engolir.
Foi aí que o Noah viu a cena.
Ele olhou para as garotas que riam e, em seguida, olhou para o meu caderno de capa gasta. O ar de arrogância deu lugar a uma centelha de cálculo rápido na cabeça dele.
Noah deu um passo na minha frente, bloqueando o meu caminho com o corpo alto, e abriu um sorriso torto e desafiador.
— Preciso de ajuda para entender o que a Claire gosta — ele disse, baixando um pouco o tom. — E eu percebi que você é a única pessoa que pode me dar esse mapa, Button.
Eu paralisei. O meu cérebro travou por um segundo inteiro tentando processar aquela palavra estúpida.
— Button? — perguntei, arqueando as sobrancelhas e cruzando os braços, sentindo o meu escudo de defesa entrar em ação. — Por que diabos você tá me chamando assim?
Noah sorriu de canto, achando graça da minha indignação, e apontou com o queixo para o distintivo da faculdade preso na minha blusa, onde meu primeiro nome estava escrito em letras pequenas.
— Porque você é baixinha, brava e parece que vai apertar um mecanismo de autodestruição a qualquer segundo. Combina com você — ele explicou com a maior naturalidade do mundo, antes de dar de ombros.
— Meu nome é Ella. Ella Preston — corrigi, trincando os dentes. — Nunca me chame pelo sobrenome... quer dizer, nunca me chame de Button, seu i****a.
Ele simplesmente ignorou a minha correção sobre o nome, como se eu não tivesse dito absolutamente nada, e apontou para o meu caderno de cálculo que ainda estava aberto em cima do banco.
— Enfim, voltando ao que importa: Estatística Aplicada, hein? — ele continuou, impassível. — Quer ajuda com isso aí? Posso te dar umas aulas particulares. A gente faz um trato: você me ajuda a decifrar a Claire, e eu te ajudo a tirar uma nota alta nessa matéria. De bônus, posso te dar umas dicas de como fazer o pessoal notar você nesse campus, te ajudar a ser um pouco mais popular e parar de abaixar a cabeça para aquelas garotas.
Eu soltei uma risada seca e incrédula, olhando para a jaqueta de varsity dele como se ela viesse com um aviso de perigo e um atestado de loucura.
— Você? Quer me ajudar em cálculo e me transformar em popular? Olha, sem querer te ofender, Evans, mas a única estatística que você deve calcular nos treinos é quantas vezes por dia você se olha no espelho. E quanto a ser popular? Obrigada, mas dispenso a caridade do capitão do time. Eu prefiro tirar zero na prova a aceitar um acordo ridículo desses.
O sorriso do Noah sumiu na mesma hora, substituído por uma expressão de choque por ter levado um fora duplo. Ele franziu a testa, endireitando a postura e me encarando com uma pose indignada.
— Espera aí. Você tá recusando? Só porque eu sou atleta você acha que eu sou um neandertal que não sabe somar dois mais dois? — ele cruzou os braços, fingindo estar profundamente ofendido. — Para você ficar sabendo, caloura... a minha média no semestre passado foi 9.
Eu arregalei os olhos, genuinamente surpresa por um segundo, mas mantive a pose, erguendo o queixo.
— Parabéns pelo seu boletim exemplar, Evans. Agora, se me dá licença, eu tenho um fracasso acadêmico garantido para cuidar sozinha.
Virei as costas, pegando meus livros com pressa, e saí marchando pelo pátio antes que ele pudesse abrir a boca de novo. Mas, por dentro, enquanto escutava o som dos passos dele ficando para trás, eu sabia de uma coisa: aquele garoto não estava acostumado a ouvir um "não", e a minha paz no campus oficial e oficialmente acabara de terminar.