Era sexta feira e Clara só queria ir para casa, mas como era vice-presidente e tinha que dar o exemplo, ali estava ela. Tinha acabado de comer seu almoço no escritório mesmo e decidiu fazer uma coisa que há tempos não fazia, desenhar por desenhar, sem compromisso. Então pegou um bloco de desenhos que sempre carregava consigo, sentou em uma poltrona de frente para as janelas e começou a fazer esboços dos prédios e edifícios.
- Eu já te disse que você é muito talentosa?
Ela deu um pulo e quase caiu da poltrona. Quando olhou, era Eduardo !
- Meu Deus Eduardo , por que você vive fazendo isso? Que susto!
- Desculpa, posso me sentar?
- Claro – ela viu ele puxar uma poltrona – Já almoçou?
- Não, estou completamente sem fome. – ele fez uma pausa – Segui seu conselho, fui ver minha avó ontem, eu não consigo ficar com raiva dela.
- Ah que bom! Você fez bem.
- Monica estava lá, obrigada por falar com ela.
- Imagina, Gardenia é como se fosse da família. E então, alguma novidade sobre o testamento?
- Não – ele suspirou – nenhuma mudança.
Então o celular de Eduardo tocou e ela o observou enquanto conversava, parecia ser seu pai.
- Era meu pai – ele explicou quando desligou o telefone. Parecia intrigado com alguma coisa – Ele está vindo para cá com Daniel, disse que precisava falar comigo urgentemente. Eu falei para eles me encontrarem na minha sala, mas ele disse que preferia vir para cá, que seria melhor que você estivesse presente.
- Eu? O que será que houve?
Eles continuaram conversando coisas aleatórias enquanto esperavam e Eduardo pareceu relaxar um pouco. Então, eles ouviram uma batida na porta e Clara abriu, dando espaço para Daniel e Jeferson entrarem. Eles a cumprimentaram com um beijo na bochecha e entraram na sala, pareciam muito agitados.
- E então? – Eduardo perguntou
– Por que vocês dois estão assim? Aconteceu alguma coisa?
- Seu pai parece ter uma solução para sua situação Eduardo – Clara achou que Daniel estava com uma expressão estranha que ela não conseguiu reconhecer. “Aí tem coisa”.
- Filho, você já conseguiu uma pretendente?
- Uma pretendente? – Eduardo disse com uma risada sarcástica
– Em dois dias? Pai eu pensei até em contratar uma atriz, ou uma acompanhante de luxo... mas não sei... o senhor acha que a vovó ia engolir uma namorada repentina? Ou será que ela quer que eu me case a qualquer custo, mesmo com uma desconhecida. Eu pensei em achar alguém que fizesse um contrato comigo, determinando alguns termos do casamento, como tempo de duração, preço... Daniel falou que consegue fazer um contrato que seja legal perante a lei. O que o senhor acha pai?
- Na realidade filho, a ideia do contrato é interessante, eu até pensei em algo semelhante a isso. Mas se eu conheço sua avó, ela não pode saber que você está procurando um casamento arranjado, isso teria que ser sigiloso. E não acredito que ela vá engolir uma namorada, noiva e esposa que surja do nada. Minha mãe é bem capaz de mudar os termos do testamento se percebesse que você armou um casamento. Teria que ser uma mulher conhecida.
- Mas eu não conheço nenhuma mulher assim.
- Na verdade conhece filho – os olhos de Jeferson brilharam – todos nós conhecemos.
- Quem pai? Fala logo!
Jefersom demorou uns instantes para falar, até que olhou para Clara e disse:
- A Clara!
Clara demorou alguns segundos para processar aquela informação.
- O QUÊ? – ela e Eduardo deram um grito simultaneamente.
- Sim, Clarz é a mulher perfeita.
- Jeferson, vai me desculpar – Clar disse, incrédula – mas você também enlouqueceu? – ela olhou para Daniel – Você já sabia disso? Dessa ideia maluca?
- Ele me contou assim que me ligou, me pedindo que eu viesse para cá. E faz todo o sentido. Pensa Clara, você, para começar é a única mulher, a não ser a Gardênia e alguma prima distante, que Eduardo conhece a anos, você não seria uma desconhecida. Você é a única mulher que entende perfeitamente o que está em jogo com esse testamento da Gardênia . Seria muito fácil criar um namoro entre os dois, já que se conhecem faz anos, andam juntos para todo lado por causa da empresa e além disso, você tem o perfil de mulher que Gardênia aceitaria sem pestanejar.
Clara custou a perceber que estava de boca aberta. Se virou para Eduardo , que até agora não tinha dito nada:
- Eduardo , fala alguma cosia, diz pra eles que isso é loucura.
Eduardo olhou para Clara e não respondeu. Será que ele estava considerando aquele disparate?
- Clara, o que eles disseram faz sentido.
- O QUE? VOCÊ TAMBÉM?
- Além de tudo que eles falaram, acredito que você também tem interesse nessa história. Ou você quer que metade da empresa vá para a mão de um desconhecido, ou pior do George?
- Não, claro que não, ainda mais depois de tudo que me contou.
- E você não tentaria me arrancar cada centavo quando nos divorciássemos. Podíamos fazer um contrato, estávamos falando disso agora mesmo, com os termos que nós dois quiséssemos.
- Não acredito que você está considerando essa possibilidade! Nós dois? Casados? Você realmente parou para pensar no que isso implica? E meus pais? Nunca iam aceitar um casamento arranjado! – Clara disse exasperada.
- Eles não precisam saber!
- Quer dizer que teríamos que enganá-los também? E como faríamos isso? – ela não acreditava que estava fazendo essas perguntas, como se fossem realmente fazer aquilo. Dessa vez foi Jefersom quem respondeu.
- Eu já havia pensado até nisso. Vocês podem começar sendo vistos juntos com mais frequência, o que não é muito difícil, já que são presidente e vice-presidente da empresa. Então começam a soltar frases do tipo: Eu estava almoçando com a Clara outro dia... Ou fingir atender o telefone e dizer: Oi Eduardo ... beijos Eduardo. Vocês vão plantar a semente da desconfiança... quando passar um mês mais ou menos anunciam o namoro. Ficam noivos e se casam logo dizendo que foram apaixonados um pelo outro desde a infância e que só se deram conta agora.
Clara estava boquiaberta, ele realmente havia pensado em tudo.
- Ok... ok... Daniel, se, hipoteticamente, eu aceitasse isso. Que tipo de coisas podemos colocar nesse contrato? Por exemplo, poderíamos colocar que nos divorciaríamos após o cumprimento do testamento, poderíamos colocar que o casamento vai ser de fachada, eu digo, que não teríamos que viver vida de casados de verdade?
Ela viu a sombra de um sorriso nos lábios de Eduardo.
- Isso tudo é medo de mim, Clara?
- Cala a boca Eduardo! Talvez para você não faça diferença, mas estamos falando de um casamento aqui. Algo que se faz só uma vez, pelo menos na igreja e que estamos negociando como fazemos com nossos clientes.
- Me desculpa Clara!
- Não acredito que estamos aqui discutindo isso.
O telefone da sala dela tocou, era Milena.
- Clara , a Camila pediu para você ir até a sala dela. É sobre o novo game.
- Diga a ela que já vou Milena!
Ela olhou para os três homens na sua sala, um mais bonito que o outro. “Como é que eu fui me meter numa situação dessas?”
- Eu preciso ir, Camila precisa de mim, é sobre o novo game e não vai ser um casamento arranjado que vai colocar esse jogo no ponto de ir para o mercado. Fiquem a vontade.
Dizendo isso ela saiu batendo os pés pelo piso de porcelanato. Devia estar com a pior cara do mundo pois quando chegou na sala da amiga, ela a olhou com os olhos arregalados:
- Aconteceu alguma coisa? – ela se levantou de uma vez só.
- Aconteceu. Jogaram uma bomba no meu colo, e ela está prestes a estourar. Senta aí que eu vou te contar.
Uma hora depois, Clara voltou da sala da amiga. Depois de ter contado toda a história para ela e visto com elas algumas coisas sobre o novo game, resolveu que precisava ao menos tentar trabalhar.
“Ah Clara eu aceitava na hora... imagina ter um corpinho daquele à sua disposição por um ano!”
“Você fez voto de castidade por acaso, mulher?”
As palavras de Camila ressoavam nos ouvidos de Clara, m*l desabafou com a amiga e já se arrependeu. Sabia que ela não ia deixá-la em paz tão cedo.
Eduardo voltou para sua sala decidido a trabalhar, mas simplesmente não conseguiu. Aquela conversa entre ele, Daniel, seu pai e Clara não lhe saia da cabeça. “Como foi que eu não pensei na Clara antes?”, ele se perguntou. Ela seria a mulher perfeita, como a conhecia desde sempre, sabia de seu caráter, além disso era sabia perfeitamente que ele não podia perder a parte dele da empresa, sua avó aceitaria ela sem pestanejar e sem contar que seria bastante conveniente para ele conviver debaixo do mesmo teto com Clar durante pelo menos seis meses. Não que ele pretendesse comer a mesma mulher por seis meses, mesmo essa mulher sendo Clara, mas com certeza facilitaria a vida dele.
Ele se assustou com o rumo que seus pensamentos estavam tomando e olhou no relógio. Faltavam trinta minutos para o horário que normalmente saía da empresa e decidiu ir embora.
Seu apartamento ficava no centro, por isso não demorou muito a chegar em casa. Sua governanta já saiu aquelas horas mas deixou jantar pronto na geladeira. Eduardo resolveu tomar um banho antes de comer, ficou bastante tempo debaixo d’água, pensando.
“Como vou convencer Clara a se casar comigo?”
Depois de comer a massa com salada e tomar uma taça de vinho, decidiu ligar para Clara . Ele precisava falar com ela.
Ele ligou uma vez, e o telefone dela tocou até desligar, mas ele não ia desistir. Na segunda tentativa, ela atendeu no primeiro toque. Ele sentiu um alívio, achou que ela fosse ignorá-lo.
- Oi Eduardo – ele ouviu a voz dela do outro lado do telefone.
- Ei Clar, desculpa eu te ligar, mas é que realmente precisava falar com você.
- Tudo bem, o que você quer?
- Olha, eu nem sei por onde começar. Primeiro, queria te dizer que eu não tive nada a ver com aquela história do meu pai, me pegou tão desprevenido quanto você, eu juro.
- Eu acredito Eduardo, se tivesse sido ideia sua, tenho certeza que você não precisaria de intermediários.
- Mas sabe, é que depois de tudo que eles falaram eu não pude deixar de pensar na possibilidade.
- Eduardo, você não pode estar falando sério! – ela exclamou – Não pode estar considerando a hipótese da gente se casar!
- Não vou mentir para você, eu estou sim. Eu não conheço nenhuma mulher além de você que se encaixa no perfil, a única relação que tive com mulheres até então foi... bem... você sabe...
- Eu sei e como sei Eduardo ! – ele ouviu o suspiro de Clara do outro lado – Mas sinceramente, estamos falando de casamento! Eu não sou do tipo romântica incurável, mas eu vou jogar minha chance de me casar na igreja fora.
- Claro que não, você estaria se casando comigo!
- Eu estou falando de casamento por amor Eduardo, com a pessoa que você decide compartilhar a vida, não que você entenda a importância disso né – ela completou.
- Olha, eu vou te pedir uma coisa então. Vou te pedir que pense em tudo isso, em tudo que implica e principalmente em outra solução, porque eu simplesmente não consigo pensar em nada.
- Tudo bem então, eu vou pensar sim.
- Boa noite Clara.
- Boa noite Eduardo.
Quando ela desligou o telefone, ele sentiu algo que nunca sentiu antes, uma espécie de vazio, ele simplesmente queria continuar conversando com ela. Estava tão abalado que era sexta feira a noite e ele não queria sair. Como era possível que sua vida tivesse virado de cabeça para baixo tão rápido. Sua avó estava doente, tinha mais um ano de vida, ele teria que se casar o mais rápido possível senão perderia a empresa e por último, ele queria se casar com Clara, tinha que ser ela. “Preciso convencê-la a aceitar se casa comigo, mas como?”