O mês de junho passara voando para Clara. Além de todo o trabalho para colocar a nova empresa nos eixos como seu pai e James queriam, ela teve que voltar a Portugal para se despedir de todos os amigos e colegas de trabalho que fez naquele tempo. Alguns funcionários da filial aceitaram a proposta e já haviam se mudado para São Paulo, no Brasil, Camila e Paulo foram os primeiros, e depois Milena, que era secretária de Clara em Portugal, resolveu aceitar a proposta e já estava a caminho de São Paulo para assumir o mesmo cargo na nova empresa. A filial foi fechada, e os outros funcionários foram dispensados com uma ótima carta de referência e uma gorda indenização. Clara ficou tranquila pois sabia que todos iam ficar bem.
Era sábado de manhã, início do mês de julho e ela já estava de volta a São Paulo. Ela decidiu que depois de todo aquele tempo morando sozinha, não seria capaz de voltar a morar com os pais. Sua mãe chorou um pouco, mas no fim das contas concordou. Ela iria dividir um apartamento com Camila e Milena próximo ao parque Ibirapuera, não era nada muito luxuoso mas era extremamente confortável e perfeito para elas. No final das contas, ela estava feliz com aquela mudança repentina em sua vida.
Assim que terminou de guardar suas roupas no armario, o seu celular tocou. Ela olhou no visor e era sua mãe.
- Oi mãe!
- Bom dia filha, o que está fazendo?
- Acabei de organizar minhas coisas nesse minuto, a cozinha está meio bagunçada ainda, mas logo eu e as meninas terminamos de arrumar tudo. E então, do que a senhora precisa?
- É o seguinte filha, Jeferson e Gardenia nos convidou para um almoço na piscina amanhã na casa deles e eu já disse sim. Disse inclusive que você iria com a Camila. A Monica já se mudou para São Paulo e também já aceitou.
- Ah mãe... – Clara começou.
No último mês, seus pais não perdiam uma oportunidade de arrastá-la para a casa da família Magalhães e ela sempre dava uma desculpa. Tudo bem que seus pais, Jeferson e Gardenia continuavam amigos, mas ela simplesmente não queria voltar a frequentar aquela casa.
- Eu não aceito um não como resposta. Não sei o que deu em você, sempre fomos mais como uma grande família, agora nossa empresa se tornou uma e você vive fugindo desses encontros. Combinei com Gardenia de chegar ao meio dia, leve biquíni e roupa de banho pois será um churrasco na beira da piscina. Um beijo e vejo você e a Camila amanhã.
Clara bufou enquanto jogava o celular em cima da cama, sua mãe conseguia ser bem persuasiva quando queria. Ela desceu as escadas a procura de Camila, que estava na cozinha guardando alguns pratos no armário.
- Cadê a Milena?
- Foi fazer umas compras, a geladeira está vazia e eu não aguento mais viver de fast food – a amiga respondeu com a cabeça enfiada no armário.
- Você pode viver de fast food né amiga, com esse corpinho, já eu, se comer McDonalds mais um dia não vou passar por aquela porta no dia da inauguração da empresa.
- Que cara é essa? – Camila saiu de dentro do armário olhando finalmente para a amiga.
Clara contou sobre intimação que recebera da mãe e que ela também estava convidada.
- Hummm adorei! Tomara que aquele gato do Daniel também esteja lá.
- Ah eu sabia! – Clara riu
– Já está de olho no advogado na empresa!
- Claro, olha pra ele! Só não estou entendendo essa carinha de raiva. Qual o problema em ir até a casa dos Magalhães, vocês não são como uma grande família?
- Somos, quer dizer, eles são né, eu parei de frequentar a casa desde que me mudei e eu não gostaria de voltar a fazer isso. Já não basta ter que aturar o Eduardo de segunda a sexta?
- Ah, então o problema é o Eduardo?
- Não me olha com essa cara! – Clara respondeu ao olhar insinuante da amiga
- Você sabe da história dele e de como me afetou.
- O que eu sei é que ele foi um adolescente babaca e prepotente e virou um homem, que por sinal é um gato – ela se abanou com a mão fazendo Clara rir
- Também babaca. Estamos aqui a pouco tempo e já sabemos da fama dele de comer e não repetir buc****. O que foi?! – ela disse diante o olhar chocado da amiga
– Sabemos que é exatamente assim que descreveram ele pra gente, mas a questão é que você não é mais aquela adolescente que se achava um lixo e não sabia se colocar diante das pessoas. Você é um mulherão! E não tem que ficar fugindo daquele pervertido.
- Obrigada amiga, você está certa! Que venha o almoço de domingo!
*****
Era domingo de manhã e Eduardo acordou sobressaltando com seu celular tocando insistentemente no criado. Ele tateou até encontrá-lo e atendeu sem olhar quem era.
- Alô! – respondeu, grogue de sono.
- Eduardo, não acredito que ainda está dormindo! – era sua avó
– Daqui a pouco o Marcos chega aqui com as filhas e a esposa e você está jogado na cama ainda. Levanta e vem pra cá logo e não se esqueça de trazer o Daniel.
- Como é que é vovó? O Marcos, as fil...
- Não se faça de esquecido que eu te avisei ontem sobre esse almoço – e desligou o telefone na cara dele.
Uma hora depois ele estava sentado na beira da piscina da casa do seu pai, usando óculos escuros, uma bermuda jeans e camisa polo branca. Bebia um copo de suco de laranja para tentar curar aquela ressaca da noite anterior quando Daniel, que estava ao seu lado na mesa situação, o cutucou.
- Eles chegaram.
Eduardo os viu. Marcos e a esposa estavam muito sorridentes e vestidos casualmente, logo em seguida veio Monica vestindo um short curto e uma camisa de banda de rock, Camila com um vestido florido e logo em seguida Clara. Com os cabelos amarrados em um r**o de cavalo, um short jeans apertado, uma camiseta vermelha e tênis brancos. “Que pernas, ele pensou”.
Se levantou para cumprimentar a família tentando não parecer muito ansioso, não podia deixar ninguém perceber como a presença de Clara mexia com ele. Na verdade, ele não queria admitir nem para si mesmo como a morena o deixava sem ar toda vez que a via. Ele tentou puxar papo com ela algumas vezes durante o almoço, mas esta o respondia sempre com frases curtas, não dando chance para prolongar a conversa.
- A quantos anos não a vejo nessa casa Clara!
- É verdade Eduaedo, mas você sabe né, morei alguns anos em Portugal e quando vinha passar algum feriado em casa era sempre muito rápido. Não dava tempo de fazer muitas visitas.
- Humm, mas se não estou enganada minha querida, – a avó de Eduardo entrou na conversa – você parou de frequentar essa casa muito antes.
- Sim, a última vez que vim aqui foi.. hã... – Clara começou a falar, mas logo parou, parecendo desconcertada.
- No funeral da minha querida nora – Gardenia completou
– Eu me lembro – ela lançou um olhar a Eduardo.
- Me desculpe – Clara disse e procurou mudar de assunto
-Então? A senhora vai na cerimônia de inauguração amanhã não vai?
Gardenia respondeu, mas Eduaedo não estava prestando atenção na conversa. Ele estava se lembrando do funeral de sua mãe e então lembrou do que havia feito com Clara naquele dia, ele a ignorou na frente de todos, ainda conseguia ver com clareza a expressão de vergonha e decepção no rosto dela aquele dia. Será que ela se lembrava daquele acontecimento?
*****
Já fazia algumas horas que estavam ali e Clarase perguntava se alguém se incomodaria se ela fosse embora, afinal, já havia feito sua parte, aceitou o convite, almoçou e conversou com todos. Então, a voz de sua amiga a interrompeu de seu devaneio. Ela já estava na piscina com Daniel, Monica e Eduardo, usando um biquíni pequeno que provavelmente havia sido aprovado por Daniel, a julgar pelos olhares que este lançava para a amiga.
- Ela é uma chata, a única que ainda não colocou o biquíni e caiu na água com a gente. – Camila gritou
- Não me diga que você esqueceu de trazer roupa de banho, irmã!
- Exatamente isso que aconteceu Monica, eu não trouxe – Clara rezou para que a amiga não a desmentisse. O que é claro, ela o fez em poucos segundos.
- Mentira! – Camila gritou
– A bolsa dela está lá no carro. Isso é desculpa para não dar um mergulho com a gente!
- Não acredito que a Clara certinha está contando mentiras! – Eduardo saiu da piscina e foi andando em direção à Clara
– Anda, vamos lá no carro pegar suas roupas senão te jogo na piscina desse jeito mesmo.
- O que? O que você pensa que está fazendo? – Clara disse tentando se desvencilhar de Eduardo
– E quem disse que sou certinha?
- Se você não for buscar suas coisas eu te jogo na piscina desse jeito mesmo!
- Não! Não faça isso, está bem, vocês venceram. Vou buscar minha bolsa.
- Eu te acompanho – Eduardo já estava calçando os chinelos e secando o cabelo com uma toalha. Ele a puxou pelo braço, deixando – a sem escolha.
- Eu podia muito bem ter vindo aqui sozinha – Clara disse minutos depois quando se aproximavam do seu carro.
- E que graça teria se eu a deixasse vir aqui sozinha? – Eduardo respondeu, com um sorrisinho
- Além do mais, parece ser a única forma de conversar com você. Você parece fugir de mim o tempo todo.
- Eu? Claro que não, impressão sua.
- Fala sério Clara, eu não sou e******o. O que aconteceu, éramos amigos quando éramos crianças. E agora você volta anos depois e parece estar com raiva de mim o tempo todo – ele se encostou no carro dela enquanto ela abria a porta e pegava sua bolsa. Clara o olhou por alguns segundos, pensando no quanto ele era atraente, ainda mais quando usava aquele tom de voz meio rouco. Logo em seguida se lembrou de como ele se tornara um verdadeiro i****a quando eles chegaram na adolescência.
- Eu não acredito que você me fez essa pergunta! – ela bateu a porta do carro com mais força do que era necessário e o encarou.
- Como assim?
Clara deu uma risada sarcástica.
- Deixa eu pensar – ela disse irônica
- Nós crescemos praticamente juntos, eu, Monica, você, seu primo Jorge. Sempre estávamos aqui na casa dos seus pais, ou na casa dos meus e aí, você quer saber o que aconteceu? Você aconteceu! Você sabe, sei lá por quê resolveu me ignorar! Quando chegamos à adolescência você resolveu virar o pegador da escola e esquecer o fato de que crescemos juntos e que éramos quase como irmãos!
- Então quer dizer que isso tudo é ciúme? – ele disse com um ar convencido. Isso foi a gota d’água para Clara.
- Você é i****a assim mesmo, ou fez curso pra isso? – ela começou a alterar o tom de voz
– Claro que não era ciúme, só me senti um lixo quando você começou a me esnobar só porque eu não era líder de torcida e não andava com meus p****s pulando pra fora do uniforme da escola! – a essas alturas ela já estava gritando
– Você não sabe, porque é claro, na nossa adolescência você resolveu que eu não era digna o bastante da sua amizade, mas eu tinha uma baixa autoestima tremenda, depois que fui pra Portugal fiz muitas sessões de terapia, quando você começou a me ignorar, o que você acha que aconteceu? Eu me senti pior do que já me sentia.
- E no funeral da minha mãe...
- Você me fez fazer um papel de palhaça na frente de todos – ela completou
- E você tem a coragem de me dizer que éramos amigos?
- Clara eu...quando éramos adolescentes, eu só queria saber de ter as meninas da escola aos meus pés.
- É, e parece que isso não mudou né Eduardo, sua fama o precede.
- Fama, que fama?
Clara o olhou com um olhar que dizia “Você quer mesmo que eu responda? ”
- Tudo bem, não precisa responder. Caramba, eu sempre fui bom com as mulheres, não vou negar que ainda sou, e queria conquistar todas, ser o pegador da escola! E como você era quase da família, eu simplesmente não a olhava assim, então eu... não a olhava mais porque eu... não queria saber de amizade com meninas, só queria saber de outras coisas – ele pareceu meio envergonhado.
- Ah claro, e eu não era bonita o suficiente para atingir o seu padrão não é? Então resolveu jogar os anos de amizade que construímos no lixo!
- Claro que não! Você sempre foi linda e agora então... digo, olha para você, você é um mulherão! E quando minha avó falou do funeral da minha mãe, eu me lembrei, eu fui realmente um i****a com você.
- Bom, pelo menos você falou uma coisa certa desde que começamos essa conversa. Você foi realmente um i****a – ela ficou um pouquinho mais calma com as palavras dele.
- Não sei se é tempo de pedir desculpas, não depois de tantos anos, mas me desculpa Clara– ele disse enquanto andavam de volta para a piscina.
- Tudo bem, já passou, acho que deveríamos tentar ser amigos de novo – ela suspirou –
- Pois afinal, vamos comandar uma empresa juntos.
- Amigos com vantagens? – ele lançou um olhar malicioso pra ela.
- Vai sonhando Eduardo! Sua fama de comedor o precede e eu não vou ser mais uma na sua lista! Imagina só as meninas da recepção falando: vocês souberam, a vice-presidente deu para o presidente! Agora ele vai dar um pé na b***a dela como deu na nossa!
- Nunca diga nunca Clara!
- Pra você eu digo Eduardo – ela deu uma gargalhada e andou na frente indo ao banheiro colocar seu biquíni.