Yoongi respirou fundo o ar puro do litoral, já fazia muito tempo que não parava para comtemplar a beleza do mar, era tão bom estar ali, se sentia leve como uma pluma. Jeongguk havia revirado demais a sua vida, e isso em apenas poucos dias, e estranhamente Yoongi não sabia dizer se isso era bom ou não. Não se lembrava mais de como era o sentimento de solidão que existia antes do Jeon entrar em sua vida, e não sabia dizer como as coisas ficariam depois que ele fosse embora.
Jeongguk vai embora.
— Yoongi, está me ouvindo? — havia se desligado demais, nem notara o rapaz o chamando diversas vezes — Vou comprar algo pra beber, você quer?
O Min apenas balançou a cabeça afirmando, se olhasse para ele, Jeongguk veria que Yoongi estava a ponto de chorar, mesmo sem saber o motivo.
Algo estava errado, algo estava muito errado, o simples fato de se dar conta de que o dia de Jeongguk ir embora estava chegando o deixava desesperado. Não queria que ele fosse. Queria que ele ficasse, ficasse por mais alguns dias, semanas, meses talvez. Por que ele precisava ir? Yoongi poderia lhe oferecer a vida que quisesse, o conforto que precisasse. Por que Jeongguk precisava ir?
— Pode passar protetor nas minhas costas?
Era uma mulher. O Min franziu o cenho, não conhecia ela, mas a forma indiscreta que ela olhava para seus dedos procurando qualquer indicio de aliança deixava claro as intenções da mesma. Ela estava dando em cima dele. Ela era bonita, muito bonita, seu corpo tinha belas curvas, mas nenhuma daquelas curvas parecia o interessar, Yoongi olhava para aquela mulher.
Mas era quase como se ela não estivesse ali.
— Desculpe, mas meu namorado pode não gostar. — o Min sorriu simples, e não se sentiu culpado por se referir ao Jeon dessa maneira, aquilo era bom.
Errado e bom.
— Ah, tenho certeza de que ela não vai ligar.. — a mulher parou de falar, parecia finalmente ter entendido o que Yoongi havia dito — Espera, você disse namorado?
— Sim, ele disse namorado.
Yoongi subiu os olhos, a mulher também se virou buscando o dono daquela voz, Jeongguk estava parado bem atrás dela, segurava as bebidas que havia ido comprar. Era naquelas curvas que os olhos do Min se perdiam, naquela camisa aberta e naquela pele bronzeada, naqueles olhos negros, naquele rosto de menino, e principalmente na curva daquele sorriso.
Era a curva mais bonita de Jeongguk.
— Desculpe, eu não sabia que você era assim. — a mulher encarou Yoongi pela última vez, e o Min conseguia ver a decepção em seus olhos e o nojo em sua voz sendo disfarçados naquele sorriso cínico — Já estou indo.
Yoongi a observou ir embora, e viu quando ela parou em frente à outro homem, era mesmo uma descara à procura de alguém que caísse na sua lábia. Mas o pior de tudo foi olhar para Jeongguk e ver uma expressão preocupada em seus olhos, nunca havia o visto daquele jeito, alguma coisa estava o deixando temeroso, e no fundo Yoongi sabia que essa preocupação tinha a ver com ele.
— Quer fazer um castelo de areia?
O Min demorou até entender que Jeongguk estava falando sério, ele olhava fixamente para dois irmãos que brincavam perto da água, era aquele mesmo olhar infantil que ele costumava ter.
— Não acha que dois adultos brincando na areia não iria chamar muita atenção?
— Isso importa agora?
— Vamos comprar os baldes e as pás.
Á alguns dias atrás, Yoongi jamais imaginaria que estaria em uma lojinha de conveniência comprando baldes para fazer um castelo de areia, e muito menos que estaria imensamente feliz em fazer isso ao lado de um homem. Não se importou quando as senhoras de chapéus exagerados olharam torto para eles, e nem quando uma criança perguntou ao seu pai porque aqueles dois homens estavam de mãos dadas e o pai disse para não ficar olhando pra eles.
Yoongi queria ter essa mesma liberdade em todos os lugares, e não somente sob os olhos de desconhecidos. Como se sentiria se ali estivesse os seus amigos e família? Seria a mesma coisa?
— Yoongi. — Jeongguk puxou sua mão para irem ao caixa, já fazia muito tempo que o Min encarava uma prateleira cheia de pás coloridas — Você está bem?
O menor sorriu pequeno e concordou com a cabeça.
— Estou, querido.
Esse era o ponto em que Jeongguk mais se preocupara, as palavras carinhosas de Yoongi se tornavam cada vez mais reais e verdadeiras, quase como se aquilo não fosse mais um teatrinho, e passasse a ser real, mas real ao ponto de fazer o Min esquecer que estava pagando para ter aquele tipo de afeto.
Real ao ponto de Yoongi esquecer que o amor de Jeongguk tinha um preço.
— Já compramos tudo, agora vamos fazer nosso castelo.
O mais velho parecia animado enquanto saiam da lojinha, mais animado do que normalmente ficava em qualquer situação. E isso não era bom.
Ao escolherem o local onde o castelo ficaria, Yoongi foi o primeiro a começar a cavar, animado como se fosse uma criança de 8 anos, Jeongguk não parava de observa-lo, e a forma desengonçada como tentava erguer algo bonito — que ficava feio — mostrava a verdade: era a primeira vez que ele fazia algo do tipo.
Seria muito intromissão da parte do Jeon perguntar à Yoongi que tipo de infância ele havia tido, além de que nunca quis se intrometer na vida pessoal de seus clientes. Mas a cada dia que se passava Yoongi se tornava cada vez mais fácil de ler, suas atitudes carentes e sua busca incessante por carinho escancaravam as capas do livro de sua vida, Min Yoongi era solitário desde que se entendia por gente.
E agora tentava suprir essa solidão, a preenchendo com uma presença que não podia reclamar de nada e nem o julgar por seus atos. E esse era o ponto, essa era a chave que trancava Min Yoongi, o seu medo de ser julgado por assim da maneira que era, e isso não se aplicava apenas ao fato de ser homossexual, e sim à tudo, ao seu modo de agir, à sua maneira de falar e de se comportar.
Yoongi estava trancado dentro de uma jaula feita por ele mesmo, apenas para parecer mais forte.
Esse era o problema, Yoongi se sentia fraco.
— Você pode ficar me olhando mais tarde, agora vem me ajudar, Kookie!
Talvez ele tenha ficado constrangido pelo fato de ter ficado tanto tempo o encarando, e se o Jeon tivesse parado para analisar as coisas naquele momento, teria notado que não era só Yoongi que estava começando a confundir as coisas, ele também estava gostando daquele teatrinho.
— Você é mesmo muito r**m nisso! — o mais novo riu do que o Min estava fazendo, castelos de areia não eram o seu forte nem de longe — Isso está mais para um morrinho de areia.
Yoongi parecia uma criança quando se irritava.
— Faz melhor, então!
Jeongguk não queria fazer melhor, ele queria mostrar para Yoongi que aquilo que não aparenta ser bonito pode se transformar em algo agradável aos olhos. E Yoongi não conseguiu evitar o frio repentino em sua barriga ao sentir as mãos do Jeon se unirem com as suas o ensinar a moldar a areia molhada.
Mesmo sendo grandes, as mãos de Jeongguk eram delicadas, e forma calma como ele o ensinava a fazer um simples castelo de areia parecia encantadora aos olhos do Min. Jeongguk era encantador, em todos os seus detalhes, como uma grande caixa cheia de tudo aquilo que o deixava feliz.
Era fato, Jeongguk o deixava mais feliz do que qualquer outra coisa, e qualquer ato simples ao lado dele se tornava grandioso. E se Yoongi tivesse percebido naquele momento o que seu coração estava fazendo, teria se afastado naquele exato segundo, e fugido para o mais longe possível sem olhar para trás. Aquele sentimento que crescia em seu peito o afogaria na hora mais errada.
Aquele sentimento era errado.
— Parece que seu castelo está ficando muito bonito. — Jeongguk conseguia destacar o tom de inveja e decepção na voz do Min, e isso era fofo.
— O nosso castelo, estamos fazendo juntos. — o corrigiu com a intenção de anima-lo, Yoongi conseguia ser infantil e mimado nas horas mais erradas.
Jeongguk achava isso encantador, mesmo próximo aos 40, Yoongi ainda guardava um restinho de infância dentro de si, uma criança que tentava a todo custo sair.
— Eu só estou com as minhas mãos por baixo das suas, não estou fazendo nada além de deixar você fazer o que quer com elas.
E não era só com suas mãos que isso acontecia, Jeongguk estava moldando sua vida inteira, e de uma forma tão abrupta e ao mesmo tempo sutil que chegava a ser assustadora. Talvez Yoongi nem notasse, e talvez só notasse quando fosse tarde demais.
— Veja, o nosso castelo ficou pronto! — o maior disse assim que terminou e moldar um murinho em redor, havia mesmo ficado muito bonito, o tipo de castelo que Yoongi nunca conseguiria fazer sozinho — Agora só precisamos de pessoas para morarem dentro dele.
— Eu vi você pegando uns bonequinhos na loja. — o menor comentou — Tem que colocar o rei e a rainha desse castelo.
O Jeon sorriu pequeno, tirando da sacolinha de compras os bonequinhos que haviam comprado, os enfiou calmamente no alto da torre mais alta, e o que deixou Yoongi mais intrigado era que ele não havia colocado um rei e uma rainha ali.
— Dois reis? — o Min o indagou, intrigado.
— Dois reis não podem ficar juntos?
Yoongi demorou, mas conseguiu entender o que Jeongguk estava querendo dizer. Isso sempre o encantava, o Jeon não escondia mais o fato de estar tentando a ajudar a se aceitar, e o que mais adorava nisso era a forma sussurrada e simples que ele fazia isso, de forma lenta, quase como se tivesse medo que ele fosse sair correndo.
— Sim, Jeongguk, dois reis podem ficar juntos.
[...]
Adorava quando Jeongguk o abraçava pelas costas e descansava o queixo sobre sua cabeça, ficava evidente o quanto o mais novo era maior, maior e mais forte, o que de certa forma fazia o Min se sentir protegido estando ao lado dele, como se nada no mundo fosse o ferir apenas por estar naqueles braços, como um grande escudo. Adorava a forma como o Jeon parecia se encaixar ali com ele, quase como se ambos fossem um grande quebra-cabeças unindo suas peças.
— O que quer pedir para o jantar, meu amor? — o menor perguntou levantando sua cabeça para tentar olhar para o rapaz em suas costas.
— Yoongi, nós precisamos conversar. — o tom de Jeongguk era doce, com uma pitada de medo na voz, ele não queria ter que começar aquela conversa, mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que dizer algo sobre o que estava acontecendo.
Mas Yoongi não entendeu.
— Podemos falar sobre o que quiser, meu querido.
Jeongguk o soltou, e de maneira brusca o virou em sua direção, Yoongi se sentiu confuso, nunca havia visto Jeongguk o encarar daquela maneira antes. E por dois segundos, ficou assustado, aquela não era a figura doce que tanto gostava de ter. O que estava acontecendo?
— Não. — Yoongi não sabia o que aquele não significava — Sr. Min, nós precisamos conversar.
Era estranho, ao ser chamado de Sr. Min, Yoongi sentiu seu coração doer, quase como se aquilo fosse uma ofensa grave ou um xingamento, ele não se reconhecia mais dessa maneira, ele não era o Sr. Min para Jeongguk. Segurou-se nas grades da varanda, aquilo mexeu com suas forças.
— O senhor se lembra de que estou sendo pago para estar aqui, se lembra? — esperou alguns segundos até ver Yoongi assentir de forma lenta com a cabeça, os olhos do menor nem piscavam, e ele aparentava não saber que reação ter diante daquela frase — Se lembra de que em três dias eu irei embora, não lembra?
Yoongi finalmente teve alguma reação, mas isso se resumia em baixar a cabeça e encarar o chão, mas o pior de tudo era aquela vontade de chorar que o agonizava. Por que aquilo estava o deixando tão triste? Yoongi não via sentido nisso, admitia para si que não queria se afastar do rapaz, mas não entendia o motivo de ter que fazer isso o deixar tão m*l.
Por que não queria deixa-lo? Sabia desde o começo que as coisas acabariam assim, era egoísmo demais de seu coração querer o prender em algo que sabia não ser eterno.
— Eu sei de tudo isso. — quando o mais velho levantou seus olhos, não fez questão nenhuma de esconder que não havia conseguido segurar as lágrimas — E vai parecer uma atitude masoquista o que vou te dizer, mas mesmo que eu fira o meu coração por completo, eu quero aproveitar essa mentira até o fim.
O Jeon conseguia ver a dor em seus olhos, e seria ainda mais egoísta, pois ficaria e alimentaria essa ilusão.
— Minta para mim, Mr.Rabbit, minta quantas vezes for preciso, porque é só essa mentira que me deixa feliz.