Cansaço

877 Palavras
(Jade narrando) Chegar do trabalho sempre foi a melhor parte do meu dia. E a pior também. O ônibus veio lotado, como sempre. Gente espremida, calor grudando na pele, aquele cheiro de cansaço coletivo que parece não sair nunca. Eu fiquei em pé quase o trajeto inteiro, segurando no ferro, tentando não pensar em nada. Mas era impossível. Minha cabeça não desligava. E o pior… nem era por causa do trabalho. O mercado no centro do Rio de Janeiro é uma correria sem fim. Cliente reclamando, gerente em cima, caixa travando, fila que não anda… e eu ali, sorrindo quando precisava, engolindo resposta quando dava vontade de falar. Normal. Eu já estava acostumada. O problema era que hoje… não foi só isso que me deixou cansada. Foi ele. Suspirei, encostando a cabeça no vidro do ônibus por um segundo. Victor. VK. Só de lembrar, meu maxilar travou. Quem ele pensa que é? A resposta veio fácil demais. Ele é quem manda aqui. Mas isso não significava que mandava em mim. O ônibus finalmente subiu a ladeira do morro, sacolejando mais do que o normal. Eu desci no ponto de sempre, ajustando a bolsa no ombro e puxando o cabelo preso num coque já bagunçado. A noite já tinha tomado conta. Luz amarela nos postes, som distante de música, gente espalhada pelas vielas. Tudo como sempre. Mas eu não estava como sempre. Caminhei rápido, ignorando os olhares, cumprimentando só quem insistia. Meu corpo doía, meus pés ardiam e tudo que eu queria era um banho e a minha cama. Simples. Só isso. Virei a primeira viela. Depois a segunda. E então… Parei. Porque senti. Aquela sensação de novo. Como se alguém estivesse me olhando. Meu coração deu uma batida mais forte. Lenta. Pesada. Eu não virei de imediato. Respirei fundo. Se fosse ele… Eu não ia dar esse gosto. Continuei andando. Um passo. Dois. Três. — Trabalhando até tarde… A voz veio atrás de mim. Baixa. Calma. E irritantemente familiar. Fechei os olhos por um segundo. Claro. Claro que era ele. Virei devagar. — Isso é problema seu agora? Victor estava ali, como se fosse normal aparecer no meu caminho toda vez. Encostado na parede, braços cruzados, olhar fixo em mim. Sempre assim. Sempre esperando. — Depende — ele respondeu. — Você acha que é? Cruzei os braços, cansada demais pra ter paciência. — Eu acho que você tem coisa melhor pra fazer do que cuidar da minha vida. Ele soltou um riso baixo. Sem humor. — Eu cuido do que é meu. Meu estômago virou. De novo. — Eu não sou sua. Falei sem hesitar. Sem pensar. Do jeito que tinha que ser. O silêncio que veio depois foi diferente. Mais pesado. Mais carregado. Victor se afastou da parede e veio na minha direção. Devagar. Como sempre. Como se tivesse todo o tempo do mundo. — Ainda não. Meu coração acelerou. Raiva. Era só raiva. Tinha que ser. — Você escuta o que fala? — retruquei. — Parece que tá acostumado a mandar e todo mundo abaixar a cabeça. Ele parou na minha frente. Perto demais. De novo. — E você parece que gosta de esquecer onde mora. Aquilo bateu. Forte. Eu senti. Mas não dei o braço a torcer. — Eu não esqueço nada — falei, firme. — Só não me misturo. O olhar dele mudou. Não muito. Mas o suficiente pra eu perceber. — Tá se misturando agora. Engoli seco. Droga. Eu odiava quando ele fazia isso. Quando me colocava dentro do mundo dele sem pedir. — Eu só quero ir pra casa — disse, já perdendo a paciência. Ele inclinou a cabeça levemente. Observando. Pensando. Calculando. — Eu sei. — Então sai da minha frente. Victor não se mexeu. Ao invés disso, levantou a mão e passou o polegar de leve na minha bochecha. Um gesto simples. Mas que fez meu corpo travar. — Tá cansada. Meu coração acelerou de um jeito estranho. Errado. — Não encosta em mim. Afastei a mão dele rápido. Ele não recuou. Nem um pouco. — Você chega tarde — continuou, como se eu não tivesse falado. — Sozinha. Todo dia. Franzi a testa. — Tá me vigiando agora? Silêncio. Resposta suficiente. Meu sangue esquentou. — Você não tem esse direito. Victor deu um passo mais perto. A voz saiu baixa. Perigosa. — Eu tenho todos. Meu peito subiu e desceu mais rápido. Aquilo já estava passando dos limites. — Você é doente. Ele não se ofendeu. Nem um pouco. Pelo contrário. Os olhos dele escureceram daquele jeito que eu já estava começando a reconhecer. — Ainda não. Aquilo me deu um arrepio. Diferente. — Mas você tá me deixando perto disso. O ar pareceu ficar mais pesado. Eu não sabia se dava um passo pra trás… Ou se batia de frente. Acabei fazendo o que sempre fiz. — Problema seu. Empurrei o ombro dele de leve e passei. Dessa vez ele deixou. Mas eu sabia. Sabia mesmo sem olhar. Ele estava me vendo ir. De novo. E isso não era bom. Porque quanto mais eu tentava me afastar… Mais eu sentia. Que ele não ia parar. E o pior de tudo? Uma parte de mim já sabia. O VK não observa à toa. Ele espera. E depois toma.
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