(Victor “VK” narrando)
— Tu tá com cara de quem não dorme faz dias.
A voz do Biel veio do outro lado da mesa, junto com o barulho do copo batendo na madeira.
Ignorei.
Continuei olhando lá pra fora.
O morro parecia normal.
Gente subindo, descendo, moto passando, som rolando ao longe.
Mas pra mim… nada tava normal.
— Tá me ouvindo, VK?
Passei a mão no rosto devagar, respirando fundo antes de finalmente olhar pra ele.
— Tô.
— Então fala.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
Pensando.
Ou tentando não pensar.
Difícil.
Ultimamente, tudo voltava pra mesma coisa.
Pra mesma pessoa.
Soltei um riso baixo, sem humor.
— Tô com um problema.
Biel arqueou a sobrancelha.
— Isso é novidade.
Ignorei de novo.
— Aquela novinha…
Ele se ajeitou na cadeira na mesma hora.
— Qual delas?
Balancei a cabeça, já sem paciência.
— A Jade.
O nome saiu mais pesado do que eu esperava.
E só isso já me irritou.
Biel soltou um “ah” arrastado, como se tivesse entendido na hora.
— A marrenta.
— Essa mesma.
Silêncio.
Eu encarei a mesa por um instante, passando o dedo devagar pela borda do copo.
— Tem alguma coisa errada comigo.
Ele riu.
Alto.
— Agora tu percebeu?
Levantei o olhar pra ele.
Frio.
— Fala direito.
Biel levantou as mãos, ainda sorrindo.
— Tá, foi m*l. Mas qual é?
Respirei fundo.
Pesado.
Aquilo não era fácil de dizer.
Nem pra mim.
— Eu não tiro ela da cabeça.
Silêncio.
Dessa vez foi ele que não respondeu de imediato.
— Tipo… vontade? — ele perguntou.
Neguei com a cabeça.
— Não é só isso.
Encostei na cadeira, passando a mão na nuca.
Tentando organizar o que nem eu entendia.
— Eu vejo ela indo e voltando do trabalho… — falei, devagar. — Sei a hora que sai, a hora que chega, por onde passa.
Biel franziu a testa.
— Tu mandou vigiar?
Dei um meio sorriso.
— Não precisei mandar.
Isso fez ele ficar quieto.
Porque ele entendeu.
Eu tava fazendo isso sozinho.
— E aí? — ele insistiu.
Olhei de novo pra fora.
Como se ela fosse aparecer ali.
Como se eu já não tivesse decorado cada passo dela.
— Eu fico olhando… — continuei. — E quanto mais ela me ignora, mais eu quero chegar perto.
Minha mandíbula travou.
— Quanto mais ela bate de frente… mais eu quero quebrar isso nela.
O silêncio ficou mais pesado.
Biel apoiou os cotovelos na mesa.
— Isso tá com cara de problema mesmo.
Soltei um riso curto.
— Eu sei.
Passei a mão no rosto de novo.
Cansado.
Irritado.
— Não é só querer pegar — falei, mais baixo. — Eu já tive mulher que eu quis. Já tive um monte.
Parei.
Porque aquilo não se comparava.
— Isso aqui é diferente.
Biel me olhava agora sem zoar.
Sério.
— Diferente como?
Demorei pra responder.
Porque a verdade…
A verdade era f**a.
— Eu não gosto de ver ela falando com ninguém.
Minha voz saiu mais dura.
— Não gosto de imaginar ninguém chegando perto.
Meu peito apertou de um jeito estranho.
Desconfortável.
— E o pior… — continuei — é que eu nem tenho ela.
Biel soltou um assobio baixo.
— Aí é f**a.
Ignorei.
Levantei, andando de um lado pro outro.
Aquilo tava me consumindo mais do que eu queria admitir.
— Ela não abaixa a cabeça pra mim — falei. — Não me trata diferente.
Parei.
Olhei pra ele.
— Tu tem noção do que é isso?
Biel deu de ombros.
— É uma mulher normal.
Balancei a cabeça na hora.
— Não.
Minha voz saiu firme.
Certa.
— Não é.
Porque não era.
Tinha alguma coisa nela.
Alguma coisa que puxava.
Que prendia.
Que irritava.
E ao mesmo tempo…
Não deixava eu largar.
Passei a língua pelos dentes, pensando.
— Eu chego perto e ela não recua — falei, mais baixo. — Mas também não cede.
Fechei o punho.
— Isso mexe comigo.
Silêncio.
Biel me analisava agora.
— Tu tá obcecado.
A palavra ficou no ar.
Pesada.
Eu não neguei.
Nem dava.
Soltei um riso seco.
— Eu sei.
Encostei na parede, cruzando os braços.
— E isso não é bom.
— Não mesmo — ele concordou.
— Porque eu não sou homem de insistir.
Olhei pra ele.
Frio.
— Eu sou de pegar.
O olhar dele ficou mais sério.
— E tu vai fazer o quê?
Fiquei em silêncio.
Por alguns segundos.
Pensando.
Ou aceitando.
No fundo… eu já sabia a resposta.
Desde o primeiro momento que olhei pra ela.
Soltei o ar devagar.
— Ainda não sei.
Mentira.
Eu sabia.
Só não tava pronto pra dizer em voz alta.
Porque quando eu decidisse…
Não tinha volta.
Biel levantou, pegando o boné.
— Só cuidado pra não misturar as coisas, VK.
Dei um meio sorriso.
Sem humor nenhum.
— Já misturei.
Olhei de novo pra rua.
Pro caminho que ela fazia todo dia.
Pro horário que ela chegava.
Pro jeito que andava.
E pela primeira vez em muito tempo…
Eu senti.
Não controle.
Não poder.
Mas vontade.
Daquelas que não passam.
Daquelas que crescem.
E eu odiava isso.
Porque no meu mundo…
Quem perde o controle, perde tudo.
Mas com a Jade…
Eu já tava passando do ponto.
E o pior?
Eu não queria parar.