Normal

896 Palavras
(Victor “VK” narrando) — Tu tá com cara de quem não dorme faz dias. A voz do Biel veio do outro lado da mesa, junto com o barulho do copo batendo na madeira. Ignorei. Continuei olhando lá pra fora. O morro parecia normal. Gente subindo, descendo, moto passando, som rolando ao longe. Mas pra mim… nada tava normal. — Tá me ouvindo, VK? Passei a mão no rosto devagar, respirando fundo antes de finalmente olhar pra ele. — Tô. — Então fala. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Pensando. Ou tentando não pensar. Difícil. Ultimamente, tudo voltava pra mesma coisa. Pra mesma pessoa. Soltei um riso baixo, sem humor. — Tô com um problema. Biel arqueou a sobrancelha. — Isso é novidade. Ignorei de novo. — Aquela novinha… Ele se ajeitou na cadeira na mesma hora. — Qual delas? Balancei a cabeça, já sem paciência. — A Jade. O nome saiu mais pesado do que eu esperava. E só isso já me irritou. Biel soltou um “ah” arrastado, como se tivesse entendido na hora. — A marrenta. — Essa mesma. Silêncio. Eu encarei a mesa por um instante, passando o dedo devagar pela borda do copo. — Tem alguma coisa errada comigo. Ele riu. Alto. — Agora tu percebeu? Levantei o olhar pra ele. Frio. — Fala direito. Biel levantou as mãos, ainda sorrindo. — Tá, foi m*l. Mas qual é? Respirei fundo. Pesado. Aquilo não era fácil de dizer. Nem pra mim. — Eu não tiro ela da cabeça. Silêncio. Dessa vez foi ele que não respondeu de imediato. — Tipo… vontade? — ele perguntou. Neguei com a cabeça. — Não é só isso. Encostei na cadeira, passando a mão na nuca. Tentando organizar o que nem eu entendia. — Eu vejo ela indo e voltando do trabalho… — falei, devagar. — Sei a hora que sai, a hora que chega, por onde passa. Biel franziu a testa. — Tu mandou vigiar? Dei um meio sorriso. — Não precisei mandar. Isso fez ele ficar quieto. Porque ele entendeu. Eu tava fazendo isso sozinho. — E aí? — ele insistiu. Olhei de novo pra fora. Como se ela fosse aparecer ali. Como se eu já não tivesse decorado cada passo dela. — Eu fico olhando… — continuei. — E quanto mais ela me ignora, mais eu quero chegar perto. Minha mandíbula travou. — Quanto mais ela bate de frente… mais eu quero quebrar isso nela. O silêncio ficou mais pesado. Biel apoiou os cotovelos na mesa. — Isso tá com cara de problema mesmo. Soltei um riso curto. — Eu sei. Passei a mão no rosto de novo. Cansado. Irritado. — Não é só querer pegar — falei, mais baixo. — Eu já tive mulher que eu quis. Já tive um monte. Parei. Porque aquilo não se comparava. — Isso aqui é diferente. Biel me olhava agora sem zoar. Sério. — Diferente como? Demorei pra responder. Porque a verdade… A verdade era f**a. — Eu não gosto de ver ela falando com ninguém. Minha voz saiu mais dura. — Não gosto de imaginar ninguém chegando perto. Meu peito apertou de um jeito estranho. Desconfortável. — E o pior… — continuei — é que eu nem tenho ela. Biel soltou um assobio baixo. — Aí é f**a. Ignorei. Levantei, andando de um lado pro outro. Aquilo tava me consumindo mais do que eu queria admitir. — Ela não abaixa a cabeça pra mim — falei. — Não me trata diferente. Parei. Olhei pra ele. — Tu tem noção do que é isso? Biel deu de ombros. — É uma mulher normal. Balancei a cabeça na hora. — Não. Minha voz saiu firme. Certa. — Não é. Porque não era. Tinha alguma coisa nela. Alguma coisa que puxava. Que prendia. Que irritava. E ao mesmo tempo… Não deixava eu largar. Passei a língua pelos dentes, pensando. — Eu chego perto e ela não recua — falei, mais baixo. — Mas também não cede. Fechei o punho. — Isso mexe comigo. Silêncio. Biel me analisava agora. — Tu tá obcecado. A palavra ficou no ar. Pesada. Eu não neguei. Nem dava. Soltei um riso seco. — Eu sei. Encostei na parede, cruzando os braços. — E isso não é bom. — Não mesmo — ele concordou. — Porque eu não sou homem de insistir. Olhei pra ele. Frio. — Eu sou de pegar. O olhar dele ficou mais sério. — E tu vai fazer o quê? Fiquei em silêncio. Por alguns segundos. Pensando. Ou aceitando. No fundo… eu já sabia a resposta. Desde o primeiro momento que olhei pra ela. Soltei o ar devagar. — Ainda não sei. Mentira. Eu sabia. Só não tava pronto pra dizer em voz alta. Porque quando eu decidisse… Não tinha volta. Biel levantou, pegando o boné. — Só cuidado pra não misturar as coisas, VK. Dei um meio sorriso. Sem humor nenhum. — Já misturei. Olhei de novo pra rua. Pro caminho que ela fazia todo dia. Pro horário que ela chegava. Pro jeito que andava. E pela primeira vez em muito tempo… Eu senti. Não controle. Não poder. Mas vontade. Daquelas que não passam. Daquelas que crescem. E eu odiava isso. Porque no meu mundo… Quem perde o controle, perde tudo. Mas com a Jade… Eu já tava passando do ponto. E o pior? Eu não queria parar.
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