Pré-visualização gratuita CAPITULO 1
Eu havia perdido tanto na vida, e mesmo que meus sentimentos pelo meu pai e por Marco estivessem longe de ser afetuosos, eu jamais desejaria aquele fim trágico para eles. Porém, o meu mundo ruiu de verdade, fragmentando-se em mil pedaços, no dia em que perdi a Helena.
Eu simplesmente não sabia explicar a sensação avassaladora que a morte dela me causou: um vazio intransponível, uma solidão sufocante e uma dor física tão intensa que m*l me deixava respirar. Helena era a única nesga de luz pura em nossa família; ela irradiava vida, era otimista, sempre disposta a estender a mão para quem precisasse e, acima de tudo, a minha menina era linda de tirar o fôlego. Quando descobri que meu pai e Marco haviam arquitetado a união dela com Armand, perdi o controle. Saí na porrada com o Marco, porque eu sabia perfeitamente que aquilo era fruto da crueldade dele. O Marco odiava a Helena — um ódio irracional cujos motivos eu nunca consegui desvendar —, mas entregar a própria irmã a um homem daquela laia foi, sem dúvida, a pior atrocidade que ele já cometeu.
Eu andava sem rumo, perdido em um labirinto sem saída, sabendo que não podia simplesmente abandonar aquela merda. Quem nasce na máfia, morre na máfia. Por alguns segundos de desespero absoluto, chegou a passar pela minha cabeça a ideia de dar um fim àquele sofrimento de uma vez por todas, mas eu nem tive tempo de ponderar essa possibilidade. Quando o Caio me ofereceu o cargo de capo regente, eu hesitei. Será que eu era realmente a pessoa mais qualificada para carregar aquele fardo? Será que dessa vez o Caio não estava cometendo um erro monumental? Não! Eu daria conta. Fui criado e moldado para ser um mafioso implacável, então eu assumiria o meu papel com honra!
Quando cheguei à Alemanha, encontrei um cenário de puro caos: o clima político estava extremamente instável, sem alianças sólidas e com uma facção que acumulava uma imensidão de inimigos e pouquíssimos aliados reais. Confesso que essa parte acabou se resolvendo quase sozinha. Assim que foi anunciado oficialmente que a máfia alemã passava a pertencer à esfera de influência da Itália, as alianças brotaram por si mesmas. O meu trabalho limitou-se a garantir que esses acordos fossem igualmente benéficos tanto para os nossos parceiros quanto para nós. Contudo, junto com a responsabilidade titânica de reerguer uma organização quase falida, veio o dever de criar o futuro capo alemão e, além disso, zelar pela proteção da mãe dele. Saymon era um garoto curioso, incrivelmente inteligente e dotado de uma facilidade invejável para se comunicar; a pessoa verdadeiramente difícil de decifrar era a Leila.
Eu tentava puxar assunto com ela, mas era como bater de frente com uma muralha. Ela era extremamente fechada, não interagia com os funcionários da casa, não tinha amigos, e a única familiar viva que lhe restava era a avó, que morava isolada no interior. No entanto, quando eu focava o meu olhar no fundo dos olhos da Leila, o que eu enxergava era uma paisagem de dor, sofrimento e um medo arraigado, reflexo de um trauma profundo que demoraria eras para cicatrizar. Quando a vi pela primeira vez, confesso que fiquei completamente hipnotizado. Ela era linda, e nem mesmo o fato de estar visivelmente debilitada e maltratada conseguiu ofuscar a sua beleza estonteante. Seus olhos eram claros e expressivos, emoldurados por longos fios dourados. Apesar de estar magra demais devido aos maus-tratos, exibia curvas delicadas. Leila era magnifica, e ao contemplá-la, mesmo sabendo por tudo o que havia passado, eu me impressionava com a força descomunal que ela demonstrava...
— E aí, Klaus, como é que estão as coisas por aí? — a voz do Caio ecoou pelo viva-voz do computador.
— Por aqui está tudo sob controle. Tive algumas reuniões cruciais com o conselho, e eles aprovaram o meu recrutamento. Admito que, no início, achei que não daria conta, cheguei a pensar seriamente em recusar o seu pedido.
— Não era um pedido, Klaus, foi uma ordem direta! — retrucou Caio com firmeza. — Eu não tenho absolutamente ninguém em quem confie o suficiente para um cargo de tamanha relevância estratégica. Ser aliado de uma máfia é uma coisa; ter uma facção unificada à sua é algo completamente diferente. Eu precisava de alguém em quem pudesse fechar os olhos e confiar cegamente, e só tinha você. Portanto, recusa alguma estava fora de cogitação.
Permaneci em vídeo chamada com o Caio por mais alguns minutos, tempo suficiente para que ele me informasse que eu precisaria viajar para a Itália em breve.
Acordei de madrugada em um salto, o corpo banhado em suor frio. Todas as noites eu vinha sendo assombrado pelo mesmo pesadelo recorrente envolvendo a Helena. Era sempre a mesma cena: eu, ela e o Marco. E a Helena me culpando amargamente pelo que lhe aconteceu, por eu não ter chegado a tempo de impedir a tragédia. Joguei uma quantidade generosa de água fria no rosto e decidi descer para beber um copo d'água.
Assim que cheguei à cozinha, notei que a porta que dava para a área externa estava entreaberta, o que me colocou imediatamente em estado de alerta máximo. A Dona Lia não era descuidada, e nenhum dos seguranças tinha autorização para circular pela cobertura durante a madrugada. Segui cautelosamente pela lateral do apartamento que dava acesso à piscina e, de longe, distingui a silhueta de Leila nadando. Ela nadava com uma técnica impecável. Desde o nosso breve encontro no escritório, eu não a havia visto novamente.
Fiquei observando-a em silêncio por alguns minutos, hipnotizado pelos seus movimentos ritmados de um lado para o outro. Até que, após mais algumas voltas, ela nadou até a borda, apoiou os braços e emergiu da água sem o menor esforço, virando-se para encarar a penumbra onde eu estava no exato momento em que sua voz cortou o silêncio:
— Precisa de alguma coisa, senhor? — perguntou ela, com um timbre que misturava sensualidade, calma e um magnetismo inexplicável. Perdi as palavras por um segundo, ficando ali apenas estático, analisando cada detalhe dela.
— Bem, já que não precisa de nada, vou subir. Tenha uma boa noite, senhor... — completou, enrolando-se rapidamente em uma toalha e fazendo menção de dar meia-volta.
— Klaus. Me chame de Klaus, Leila. Eu não sou o seu dono. — Ela congelou no lugar, ainda de costas para mim, com os ombros erguidos em uma postura impecável.
— Tudo bem, então... Precisa de alguma coisa, Klaus? — perguntou, virando-se lentamente. O rosto, antes oculto pelas sombras, foi banhado pela luz prateada da lua, concedendo-me a visão perfeita de seus deslumbrantes olhos verdes.
— Não, Leila, não preciso de nada. Apenas achei que alguém tivesse invadido a cobertura, por isso vim verificar.
— Não precisa se dar ao trabalho de se explicar, senho... Klaus, me desculpe. É que ainda preciso me adaptar a essa nova realidade. Bom, como não há nada em que eu possa ajudar, vou recolher-me. Tenha uma boa noite. — Por mais que minha mente mandasse deixá-la ir, meu íntimo implorava para que ela ficasse mais um pouco.
— Como sabia que eu estava aqui? Você não tinha me visto ainda, não é? — indaguei, observando um leve e irônico sorriso brotar em seus lábios perfeitos.
— Cresci imersa no submundo da máfia, Klaus. E, para piorar, passei cinco longos anos da minha vida convivendo debaixo do mesmo teto com um psicopata absoluto. Você realmente acha que eu conseguiria manter o Saymon são e salvo sem desenvolver um sexto sentido altamente apurado? Não é fácil, mas aprendi a antecipar o perigo milésimos de segundos antes de ter qualquer contato visual com ele.
— Eu sinto muito por tudo o que você foi forçada a suportar. Ninguém neste mundo merece ser tratado daquela maneira.
— Você tem razão, mas, infelizmente, o Otto era incapaz de oferecer qualquer coisa boa porque jamais aprendeu a ser bom. Sei que isso não anula o que aconteceu, mas de certa forma ajuda a explicar o comportamento dele...
— Para mim, não existe absolutamente nada neste mundo capaz de justificar um homem covarde agredir uma mulher. O fim que demos ao Otto foi até brando demais perto de tudo o que ele merecia.
— É... — murmurou ela, pensativa.
— Você sente pena dele?
— Sinto. Afinal de contas, até mesmo um monstro corrompido como o Otto merecia um pingo de compaixão em sua alma vazia. — Sem me dar tempo para formular uma resposta, ela virou as costas e caminhou em direção à saída, deixando-me completamente atônito. Será que ela nutria algum tipo de afeto por ele? Será que, de alguma forma distorcida, ela gostava de ser tratada daquela maneira? Não, aquilo era impossível!