Dois anos, quatro meses e uma semana atrás...
Qualquer situação para mim agora era perigoso, porque qualquer situação virava paranóias e sofrimento por horas.
Eu estava ficando louca. Estava triste, e aquela turma estava me enlouquecendo.
— Ele te reconheceu e sabia o seu nome? — Vick me encara com uma sobrancelha arqueada e um meio sorriso.
— É, mas... Eu não sei. — Olhei para os meus pés enquanto caminhava pela estrada.
— Ruby, um garoto memorizou o seu nome e o seu rosto por algum motivo. — Vick falou um pouco mais alto e devagar como se quisesse pôr isso na minha cabeça a todo custo.
A encarei tentando colocar isso na minha cabeça também, mas também fiquei sem palavras.
Não o vejo mais desde aquele dia, será que hoje finalmente ele vai aparecer na escola?
— Você acha que ele está interessado em mim? — Perguntei sabendo a resposta, mas eu queria acreditar naquilo e a Vick falando em voz alta poderia ajudar.
— Pode ser, ou talvez ele só esteja querendo fazer amizade com você. Mas das duas formas ele gostou de você. — Ela deu de ombros.
— É. — Concordei me sentindo um pouco cabisbaixa, mas não sei porque. Talvez seja porque não foi exatamente a resposta que eu queria ouvir.
Encaro o ponto de ônibus se aproximando e continuamos caminhando até ele, uma parte de mim acredita que Major realmente gostou de mim e outra acredita que ele jamais olharia para mim.
Sou chata, insuportável e ridícula. Por que um garoto estudante daquela escola olharia para mim?
Um pontinho azul aparece lá longe e vem se aproximando, todos nos levantamos. Nos reunimos ficando em grupinho, fico um pouco nervosa sentindo Liz perto de mim, e como sempre a vejo olhar para mim, depois para Sienna e fazer cara de nojo. Sempre vejo pela visão periférica, isso sempre me deixa tão abalada que sinto raiva de mim mesma.
A porta se abre e então todos subimos em fila, olho para o fundo do ônibus e meu coração se aperta mais uma vez. Major pela milésima vez não veio para a escola. Eu queria falar com ele novamente, para que ele saiba que eu sou uma garota legal e que esse é só o meu jeito.
Olho para a porta e vejo que todos já estão em suas carteiras assistindo aula, então meu interior se revira por saber que já vou ter que entrar e assistir junto com eles.
Vick se despede e encaro suas costas enquanto ela caminha até a porta ao lado da minha sala, a abre e entra.
Não sei porquê, mas essa sala me traz más sensações. É como se eu não fosse bem-vinda, não me encaixo nela.
Quando caminho até a porta o professor fica de pé em minha frente me barrando, ele olha para algo atrás de mim e quando também olho vejo duas amigas chegando atrasadas também.
— Calma aí, não entrem ainda. Você, como é seu nome? — Ele questiona para mim com um bloco de notas na mão e uma caneta.
Eu tinha duas opções nesse momento, ou me importava ou ligava o f**a-se. Eu liguei o f**a-se, nunca levei esporro de professor e essa seria a primeira e a única vez, então não tinha problema.
— Ruby. — Respondo.
— Ruby de quê?
— Ruby Martín. — Quando respondo ele anota no papel e questiona para as duas atrás de mim e me dá espaço para entrar.
Todos dentro da sala me olham, ninguém diz nada. Não faço a mínima idéia do que ele vai fazer, mas eu não poderia inventar que foi por causa do ônibus porque eu estaria mentindo. Pelo menor umas 7 pessoas dessa sala também são do mesmo ônibus que eu, e todas já estão nas suas carteiras há horas.
Confesso que fiquei mesmo enrolando no corredor, mas é porque eu odeio ficar nessa sala. É uma tortura sem derramamento de sangue.
As duas garotas caminham até às suas cadeiras, e por algum motivo eu nunca tinha reparado especificamente nelas nem notado que sentavam na minha frente. Eu até já havia reparado nelas, mas não havia reparado bem. As duas são bonitas e populares como Liz e Sienna.
A mais baixinha de cabelo escorrido e escuro se acomodou na cadeira em minha frente, e a mais alta loira se acomodou na cadeira à frente da amiga.
— Tem como você afastar um pouquinho para trás? — Tiro os olhos da mesa e olho para ela percebendo que estava falando comigo.
É a primeira vez que alguém dessa turma fala comigo, alguém está notando a minha existência e eu fico paralisada.
Faz tanto tempo que não converso com meninas da minha idade que não seja a Vick, que eu fico tentando desesperadamente ser simpática.
— Ah, claro. Eu posso afastar sim! — Forço um sorriso puxando tanto a cadeira para trás ao ponto de ficar presa, m*l consigo respirar direito e isso não está nada confortável. — Pronto, está bom? Precisa de mais espaço?
— Está bom assim, obrigada. — A garota agradece se virando para frente.
Fico paralisada, parece até meio i****a porque simplesmente estou nervosa por uma garota falar comigo. Eu existo, as pessoas me vêem e acabei de descobrir isso.
— Como é o seu nome? — Percebo que ela está falando comigo quando levanto o olhar e a vejo com o tronco virado para trás.
— Ah... Ruby! Me chamo Ruby. — Tento ao máximo falar mais, para parecer simpática. Eu poderia apenas falar meu nome, mas dei um jeito de aumentar as palavras. — E você? Como se chama?
— Hera. — Ela diz, e não consigo desviar o olhar do seu rosto. Ela é linda, mas tem um nariz largo. Normal, é uma característica n***a. Hera transmite uma sensação de aconchego, de bem-estar e simpatia. — Você é daqui mesmo?
— Não! Sou da Zona Rural.
— Eu nunca tinha visto você, você não vem muito aqui, não é? — Sua pergunta me dá uma leve alfinetada.
Eu só saio com minha mãe e com meu padrasto, e odeio me encontrar com pessoas da minha idade nos lugares. Enquanto todos eles estão vivendo suas adolescências, eu fico mofando dentro de casa e só saio com minha mãe. Me sinto ridícula, eu sou uma i****a.
— Venho, mas não ando muito em festas. — Respondo tentando não demonstrar que fiquei cabisbaixa.
— Entendi. A professora passou um trabalho em equipe, quer entrar na minha equipe comigo e com a Lauren?
— Ah... Eu... Claro! — Eu quis sorrir, mas precisava agir naturalmente. Você não pode demonstrar que está esperneando de alegria, é só mais um dia normal, não é?
— Está bem, depois você me passa seu número de telefone?
Se nossos sentimentos fossem visíveis, nesse exato momento as pessoas estariam todas olhando para mim e se assustando ou contagiadas com a minha alegria.
Depois de um tempinho, como uma pessoa normal eu anotei meu telefone em uma folha e entreguei para ela.
Naquele dia eu voltei radiante para casa, nada me abalava. Contei para Vick que agora eu tinha uma equipe para fazer trabalho, e não uma amiga, mas pelo menos alguém com quem eu posso puxar conversa de vez em quando.
Chequei as redes sociais de Major, contei há quanto tempo ele esteve online pela última vez e se havia publicado alguma coisa. Mas parecia que nada me satisfazia, eu estava desesperada por um pouco de atenção.
Chorei algumas vezes enquanto falava comigo mesma em inaudível "por que você tem que ser tão intensa assim?".
Até que surtei, mandei mensagem.
(✓"Oi, e aí?"
✓"Percebi que você faltou na escola a semana inteira, está tudo bem?")
Era desesperada demais, muito direta ao ponto. Mas eu precisava tentar convencê-lo de que eu sou legal e que não sou antipática.
("Segunda tive que ir resolver uma coisa na cidade vizinha, terça estava com uma dor de garganta horrível porque segunda estava muito quente na cidade vizinha, então eu adoeci. Fora que tiveram feriados essa semana.")
(✓"Entendi, melhoras para você. Achei que tivesse acontecido algo grave.")
É sério, Ruby? Que vergonha alheia e ele apenas visualizou. Você quis tentar soar como simpática e agora soou como maluca.