19 Ruby

1873 Palavras
Dois anos, quatro meses e duas semanas atrás... Garotas bonitas podem ser cruéis e desumanas com outras garotas, isso porque a vida já as fez más apenas por serem bonitas. As pessoas esbarram em mim todos os dias e ninguém nunca se dá ao trabalho de parar e saber qual a minha música favorita, ou minha comida preferida. Garotas feias e pobres tendem a ser assim, invisíveis. Pelos corredores perco o meu tempo olhando para aquelas garotas, rodeadas de amigos e amigas bonitos com um saldo bancário invejável. Quando olho para elas tudo o que eu consigo pensar é em como elas não tem nada de especial, são apenas garotas ricas e apenas isso. Criei uma teoria de que pelo fato delas serem garotas "inalcançáveis" as pessoas passam a endeusá-las, pensa comigo, será que se a Angelina Jolie fosse pobre e garçonete de alguma lanchonete barata alguém iria admirá-la ou reparar no quanto ela é linda? Será que conhecemos alguém com uma beleza incrível, mas por ela ser uma pessoa alcançável, não enxergamos nada de especial nela? Comparo minha aparência com a das garotas dessa escola, e percebo que temos tudo em comum. Altas, magras, cabelo castanho, pele parda... Não somos diferentes, mas eu sou invisível. Um mês de tortura, um mês de solidão. De repente, eu sinto um arrependimento por ter escolhido essa escola acreditando que eu ia me adaptar e que seria o melhor ano da minha vida. Estava errada. — A Gina é bem legal, você iria gostar dela. Ela me levou no recreio para andar com os amigos dela, eles são bem legais, quando chega alguém novo eles tentam enturmar a pessoa no grupinho. — Ouço Vick contar sobre seus novos amigos da sua turma, os quais ela fez na primeira semana de aula. Por mais que eu sinta um aperto doloroso no peito, tenho disfarçar e fingir satisfação ao ouvir o que ela diz. — Foi por isso que você não apareceu na minha sala, e quando eu fui procurar você na sua, não te encontrei lá. — Dei de ombros enquanto revirava os olhos fingindo não estar triste por ter ficado sozinha. — É, eu tinha saído para andar com os amigos dela. Fico em silêncio tentando procurar algo para dizer, mas não consigo. Tudo o que ela falava sobre a turma dela era legal, as pessoas eram legais e ela estava amando. O que eu diria sobre a minha? Que não troquei nenhuma palavra com ninguém ainda? Que ninguém nem sequer olha para mim? Que todos daquela sala já se conhecem e tem seu grupinho no qual eu não tenho coragem de tentar entrar? As vezes no meio da aula eu sinto vontade de começar a chorar, de pedir para ir ao banheiro e entrar de penetra na turma da Vick. De implorar e chorar de joelhos nos pés de alguém da direção para que me troquem de turma. — Eu poderia andar com vocês no recreio? — Peço depois de esperar que Vick ofereça e ela não oferecer. — Tudo bem, mas você tem que se enturmar. Não fica acanhada, calada na sua e conversa com as pessoas. — Vick diz de um jeito que não consigo identificar, me parece desdém, mas ela é uma boa amiga então deve ter sido impressão minha. Vick é uma garota como aquelas que me ofuscam, a diferença é que ela é minha amiga. Mas Vick também é rica, e muito bonita. Ela tem muitos amigos, conversa bem, é simpática e todos gostam dela. Tudo o que eu não sou. Há alguns anos atrás eu sentia inveja dela, mas hoje em dia só sinto admiração mesmo que no fundo tenha um pouco de inveja. — Está bem. — Concordo com o olhar baixo, brincando com o zíper do meu moletom. — Quais são as pessoas que estão na sua turma? — A pergunta dela saiu tão repentinamente que meu coração bateu mais rápido, ultimamente estou sensível a qualquer coisa que me magoa, um toque na ferida e eu já estou esperneando de dor. — Cam, Liz, Sinna... — Ah meu Deus... O Cam e essas duas? Eu não ia aguentar, só essas duas nessa sala já deve fazer parecer um inferno. — Vick me interrompe antes que eu diga o restante dos nomes. — É. — Abaixo a cabeça respirando fundo. — A Liz me incomoda mais. Esses três que eu citei são justamente as três pessoas populares do nosso antigo colégio que vieram com a gente para o ensino médio, e é óbvio que são pessoas que praticam bullying. — Também me incomodaria. Depois de tudo o que ela me fez no fundamental, não sei como que eu ainda consigo falar com ela. — Vick comenta apoiando a cabeça no banco e olhando para frente em algum ponto fixo. Viro o rosto em sua direção com as sobrancelhas franzidas. Como assim a Liz também já fez m*l a Vick? Tipo... A Vick é bonita e rica... Como? — Mas vocês não são amigas!? Pensei que gostasse dela. — Falo forçando um pouco na esperança de que ela conte alguma história que desminta essa idéia que eu tinha. — Quando eu pedi para mudar de turma e fui para a turma dela no fundamental, ela fingia ser minha amiga e ficava... Enfim. Uma vez ela escreveu na parte de trás do meu uniforme e ela com os amigos dela ficaram rindo de mim. — O jeito que Vick fala é notável o quanto Liz acabou com o psicológico dela. Meu corpo estremece e percebo agora, se Vick que é como elas sofre com esse tipo de coisa... Por que eu ridícula como sou não sofreria? Acho que eu deveria agradecer por não estar sofrendo um pouco mais, porque eu devo merecer bem mais. — A Sinna é melhor amiga da Liz, mas não acho ela tão má como a Liz. — Comento. — Ela é mais ou menos. Fecho os olhos relaxando enquanto escuto o motor do ônibus fazer barulho. — Oi. — Escuto uma voz masculina me fazendo abrir os olhos vendo um garoto sentado no colo da Vick. — Oi. — Ela cumprimentou de volta me fazendo encará-la. — A Gina falou com você sobre aquele negócio? — Falou. — Vick começou a mexer nas unhas como se estivesse tentando disfarçar. — E então? — O garoto ergueu as sobrancelhas. — Ah, eu não sei... — Você está confusa? — Ele sussurrou afastando o cabelo dela para trás da orelha e segurou seu rosto nas mãos enquanto aproximava o seu. E então comecei a ouvir sussurros, óbvio que me senti desconfortável. Virei o rosto para a janela e não virei mais por nada, sinto que eu estaria traumatizada se olhasse para o lado. — Segurar vela está sendo chato aí? — Ouvi outra voz masculina, bem mais grave e suave ao mesmo tempo. Olho para trás e vejo um garoto sorrir para mim, cabelo castanho lambido de gel, sobrancelhas despenteadas, bigode de Nescau, lábios finos, barba rala, dentes curtos e alinhados. Ele sorriu simpático e fez um gesto parecendo um telefone com seus dedos da mão, mindinho e dedão. Fico em choque, acho que por me sentir tão inferior às pessoas nas últimas semanas e ter tanto medo de me enturmar eu acabei que tendo medo de conversar com desconhecidos, mesmo que seja um adolescente da minha idade. Acho que passei a acreditar que não sou digna de ser amiga das pessoas, e nem de conversar com elas. Como um judeu se sente falando com um alemão. Virei para frente sentindo o corpo tremer, sentindo que eu poderia gritar a qualquer momento, sentindo raiva, mas de mim. Deixei alguém falando sozinho, como eu posso ser assim? Há alguns instantes eu estava reclamando de não ter amigos, e agora eu ignoro as pessoas que tentam ser meus amigos? — Senta aqui comigo, Ruby. O Kean quer ficar de casal aí. — O garoto disse me fazendo tremer ainda mais. Olho para Vick que assente, então levanto passando pelo garoto que levanta do colo dela e senta no meu lugar. Caminho até o banco de trás e sento ao lado do outro garoto. Ele fica em silêncio agora, e meu peito dói ainda mais por sentir culpa. Eu simplesmente o ignorei. Mas eu não fiz por m*l, eu só... Ah, esquece. Já passou. Mas eu ainda lembro. Fico imóvel olhando para baixo, observando meus pés enquanto ouço conversas baixas vindo do branco da frente. Meu joelho mexe mais que o normal, minha perna está tremendo. Quando que eu passei a ter tanto medo de pessoas? — Ruby. — O garoto chama meu nome como forma de brincadeira, ele chamou em um sussurro com um riso nasal. — Como sabe meu nome? — Minha voz saiu trêmula e de uma vez. Tentei ser simpática, mas pareceu que eu sou ainda mais antipática. — Não é você aquela garota que trocamos nossos números? Não é você? — Ele me olhou e eu me senti intimidada, não porque ache ele bonito, porque não acho. Mas sim porque eu tenho medo dele, parece loucura dizer que tenho medo das pessoas? — Como é? — Ergui uma sobrancelha confusa sem saber do que ele estava falando. — Tenho o número do seu telefone e você também tem o meu, conversamos por alguma rede social, não lembro qual. Trocamos nossos números de telefone. Pelo menos eu achei que fosse você. — Ele deu de ombros apoiando a cabeça no banco e olhando para a janela ficando em silêncio. Fico encarando as costas do banco da frente tentando processar o que ele falou, então depois de quase um minuto consegui entender. Tiro o celular do bolso e abro na aba "contatos". — Como é o seu nome? — Questiono envergonhada por ele lembrar do meu nome e eu não lembrar do dele. — Major. — Ele diz ainda olhando para a janela. Nome de velho em um adolescente? Engraçado. Nunca tinha conhecido nenhum Major com menos de 78 anos. Procuro seu nome na lupa e para a minha surpresa realmente aparece um contato com esse nome. Clico na foto de perfil e realmente é o garoto ao meu lado olhando para a janela. Então uma lembrança vem à minha memória, uma vez na qual trocamos mensagens pelo f*******: há alguns anos atrás e ele pediu meu número. Eu achava que ele era bem mais velho, porque ele realmente parece ser mais velho e por causa do nome, lembrei agora. Por isso a minha surpresa, nunca imaginei que fosse encontrá-lo no ônibus da escola, e se imaginasse, certamente seria com ele sendo o motorista. Ele deve ter visto alguma foto de perfil minha e me reconheceu. Então uma vergonha sobe pelo meu corpo, ele de alguma forma memorizou meu rosto e me reconheceu agora? Mas... Isso pode significar tantas coisas. Mas como sou eu, é óbvio que não significa nada. Coisas legais nunca acontecem comigo. Ficamos em silêncio o restante da viagem de volta para casa inteira, eu não sabia se ele estava chateado ou se só tinha forçado simpatia comigo e agora não precisava mais ser simpático. Ele deve estar pensando o pior de mim agora.
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