02 Dean

1387 Palavras
Centros de cidades, tudo o que sempre procuro. Afinal, qual homem gosta de passar o dia inteiro mofando dentro de casa? Gosto da liberdade, da sensação de ser alguém livre para viver e conhecer a vida. Um garoto aos 19 anos, o que se espera dele? Eu ainda tenho um futuro? Que tipo de homem eu sou? Talvez eu esteja brisando de tanta verdinha que acabei de bolar. O que pode ser melhor do que isso? Ir a escola? — Por que diabos está vestido assim? — Jason questionou divertido. — Não é da sua conta. — Respondi soltando a fumaça de meus pulmões no ar vendo ela ir embora. — Está vestindo uniforme, está indo para a escola? — Jason insistiu. — Já falei que não é da sua conta. — Retruquei novamente. — Qual foi, Dean? — Qual foi o que? Quer que eu fale mais o que? — O encarei com raiva. — Você precisa fumar mais uns 3 baseados para ver se esse seu estresse vai embora. — Jason resmungou levantando da calçada e indo embora. Fiquei alí na calçada de um mercado qualquer enquanto esperava o relógio marcar 17h30m, essa tem sido minha rotina nos últimos dias. Deitado na calçada as garotinhas do fundamental passavam pela rua, todas que passavam me olhavam com um olhar curioso. Eu sorria e piscava para elas por pura diversão, era engraçado ver como elas coravam. Tem sido bem irritante se arrumar inteiro com o uniforme, mas mais irritante do que isso é a espera para poder voltar para casa novamente. As horas parecem nunca passar. 17h20m e eu coloco as mãos no rosto tentando manter a paciência, mas é claro que não ajuda. — Oi, menino. — Uma voz um pouco infantil ecoa ao meu lado. Viro para o lado vendo uma garotinha que aparentava ter mais ou menos uns 14 anos. Ela estava vindo conversar comigo, e hoje até estava demorando mais. Sempre nesse grupinho de pré-adolescentes pelo menos uma tem coragem de vir falar com a "presa" delas, o mais famoso "crush mais velho". Para quem está entediado isso é uma grande distração. Não respondo, apenas arqueio a sobrancelha para ela a encarando com minha expressão de indiferença. — Sua aula já acabou? O ensino médio geralmente demora mais que o fundamental, ou você ainda estuda no fundamental? — A garotinha me encara sorrindo radiante. A encaro novamente tentando fazê-la se tocar que não preciso de companhia. — Sou do ensino médio. — Respondi seco acendendo um cigarro normal. — Hum... — Ela ficou em silêncio por um instante, cheguei a acreditar que ficaria assim. — Você tem namorada? Dou uma longa tragada no cigarro e solto a fumaça no ar enquanto ouço sua pergunta, não respondi de imediato, mas depois de alguns instantes em silêncio lhe respondi. — Não estou interessado em ter uma. — Respondi seco. — E-eu... Não estava suger... — Vaza daqui. — Ordenei sem muita paciência. A garotinha assentiu, levantou e foi embora. Continuei sugando a fumaça de meu cigarro enquanto observava a garota pela visão periférica ir de encontro as amigas. Elas conversavam, claramente sobre o que acabou de acontecer. — Ele é um arrogante! — Uma voz feminina infantil demais comenta. — Não acredito que é só um rostinho bonito. — Outra diz. Travo o maxilar enquanto jogo o cigarro ao chão, piso em cima para apagar a chama. Então saio caminhando para longe enquanto me desfaço do restante da fumaça. Tive que ir embora para não perder a paciência com essas garotinhas do fundamental. O que elas queriam não era exatamente eu, o que elas queriam era um garoto mais velho, de preferência do ensino médio. E é claro que garotos do ensino médio querem essas garotas do fundamental, mas eu não faço parte disso. Não porquê eu tenha caráter, mas porque eu tenho amor próprio. Não preciso manipular criancinhas que acreditam ser maduras e não sabem o que fazem. E também porque tenho caráter, por mais que soe irônico. Caminho pelas ruas já escuras por conta da noite que se aproxima, o céu já está em um tom azul escuro misturado com roxo e a meia-lua já está aparente junto com as estrelas. Voltar para casa no final da tarde é agoniante, tudo exala solidão. Você passou a tarde inteira se "divertindo" e agora está voltando para casa com a expressão séria já imaginando a sensação de dormir o restante da noite. Limpo os pés no tapete, giro a maçaneta da porta e caminho para dentro de casa. Fui convencido de que passaria despercebido como um estudante que vai todos os dias para a escola, como tenho passado todos os outros dias. — Dean! — Ruty grita da sala. Tento correr para o quarto, mas não adianta. Ela me alcançou aparecendo na frente do meu quarto magicamente antes que eu entre. — Qual foi? — "Qual foi?" — Ruty repetiu com seu tom de indignação. — Não use esse tipo de linguagem comigo como se eu fosse um dos seus amigos, eu sou sua mãe, Dean! — Está bem, já entendi. Agora posso ir para o meu quarto? Acabei de chegar. — Hoje eu fui até a escola em que supostamente você estuda, falei com professores e seus colegas de turma que nem ao menos lembram de você. — Ela disse forçando calmaria. A encaro sério, fingindo plenitude e calma. Esse tem sido meu talento nos últimos dias, fingimento. — Você falou meu sobrenome? Tem outro Dean na minha turm... — Você não está mais indo para a escola a meses, Dean! — Ruty gritou me interrompendo. — Claro que estou indo, você me vê saindo de casa com o uniforme todos os dias! — Gritei de volta. — Não, você não está! O que quer fazer com a sua vida? O que acha que está fazendo? — Seja o que for, isso não é da sua conta! — Gritei com raiva e senti meu rosto arder logo em seguida. Olhei para ela, e a vi com a mão estendida me encarando de volta. — Você me bateu? Ruty ficou me encarando sem reação nenhuma, não esboçava nenhuma expressão. — Eu já tenho 19 anos, não preciso que fique se metendo na minha vida. — Falei em um tom mais instável. — Enquanto você morar embaixo do meu tet... — Então eu vou embora, já queria ter ido antes, mas você fez um drama e não me deixou ir. Então saia da minha frente e eu vou. — Ordenei a interrompendo. — Dean... — Saia da minha frente e eu vou embora agora mesmo! — Faltam apenas alguns meses para você concluir o ensino médio, por favor... É só isso que eu peço a você... Depois você faz o que quiser da sua vida. — Eu não quero mais ir para a escola, já falei! — Resmunguei. — Dean! Eu já estou cansada de você, quer ser um menino rebelde? Quer ser mais um ignorante nesse mundo? Tenho assistido você se acabar a meses e fingindo estar tudo bem. Você foge de casa todos os dias mentindo estar indo para a escola, mas só Deus sabe para onde você vai a tarde inteira. Eu não entendo você, por que? Por que você tem que ser assim? — Ruty gritou aparentemente com raiva. — O que você quer que eu faça, p***a!? — Gritei de volta. — Eu não criei você assim! Eu criei você para se tornar um bom homem, e eu não consigo assistir meu filho se desfazendo aos poucos e não saber nem mesmo o motivo ou sem poder fazer nada! Ruty caminhou para frente me fazendo recuar para trás até encostar na outra parede. — Antes de querer me tornar um bom homem, você deveria se certificar de que eu tenho vocação para ser um! — Você tem, Dean. Você só precisa que alguém te mostre isso. — Ruty forçou um sorriso. — E quem seria esse alguém? Você? — Ironizei. Ruty saiu andando demorando para me responder. — Eu não sei mais. — Sua voz vinha de longe já que ela estava em outro cômodo. — Você vai voltar para a escola amanhã, você querendo ou não. — Nem pensar. — Retruquei. — Você vai, Dean. Isso não foi um comunicado.
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