03 Ruby

1324 Palavras
Desço do ônibus revirando os olhos vendo o motorista me encarar pelo retrovisor, saio pisando fundo em direção a pracinha. Línea e Abby vem logo atrás. — Onde está a Lina? — Abby questiona praticamente em um grito girando o corpo até notar Línea ao seu lado. — Ah, ela está aqu! — Gargalha algo me fazendo gargalhar também enquanto Línea a olha com desdém pela primeira vez no dia. Passado, o que realmente significa? Para mim quer dizer sobre uma época em que uma versão de você fez algo que a você de agora não faria mais. Mas me pergunto se realmente é isso, já que as vezes mesmo quebrando a cara com o passado, no presente cometemos os mesmos erros. Acredito que, nem sempre aprendemos com nosso erro. Dizem que depois de apanhar tanto por causa de um erro, aprendemos uma lição e não cometemos mais o mesmo erro, e se cometemos é porque não aprendemos. Isso não é verdade, não é? Quem nunca cometeu o mesmo erro diversas vezes. Eu cometi muitas vezes, e agora sinto como se não tivesse aprendido com eles, porque sei que poderia cometê-los novamente se fosse atiçada um pouquinho mais, a carne humana é fraca demais. Observo a pracinha pela milésima vez só esse ano, já estou tão entendiada de tudo nesse ano. Sinto como se tudo aqui exalasse tédio, não consigo encontrar animação em nada aqui. É tudo tão tedioso, tudo tão parado. — Que silêncio é esse? — Abby quebrou o silêncio. Já faz exatamente uns 10 minutos que chegamos, e estamos em silêncio desde que descemos do ônibus. As vezes ficamos assim, todas em silêncio. Geralmente quem o quebra e puxa conversa sou eu e Abby. A falta de adrenalina no sangue de alguém é perceptível, Abby já viveu aventuras, não como eu, mas já viveu aventuras familiares. Eu já vivi aventuras rebeldes, e familiares. Somos como alguém maduro diria, "mais para frente". Garotas que zoam, brincam, não sentem vergonha com tanta facilidade, gargalham, conversam em voz alta, tudo isso naturalmente. Línea não consegue, não sente a adrenalina nas veias. — Sim, que silêncio constrangedor. — Ironizei. — Vocês não tem nada para contar? Nenhuma fofoca? — Abby questionou brincalhona. Olhei para Línea que apenas nos entreolhou e continuou em silêncio. Ela nunca começa uma conversa e nem nunca fala absolutamente nada que venha diretamente dela. Apenas ri ou entra na conversa quando insistimos. Não tem problema, nunca nos importamos com isso, só é meio r**m quando está apenas eu e Línea, ou apenas Abby e Línea, acredito eu. É estranho dizer isso mas é perceptível como eu tenho uma parcela de importância nessa amizade. — A Línea nunca tem nada a falar. — Brinquei. — Eu também não tenho. Abby gargalhou olhando para Línea que a olhou com desdém por estar rindo dela. — Eu ouvi aquelas meninas que sentam lá na frente, estavam falando sobre um menino. Parece que a mãe o matriculou, e ele estava mentindo todo esse tempo dizendo que estava indo para a escola, mas estava indo para outro lugar para fazer coisas erradas, vocês entenderam, não é? — Abby disse gesticulando segurar um cigarro nos próprios lábios. Assenti. Vi Línea arregalar os olhos e em seguida começar a falar, me surpreenderia mas ela sempre conversa quando o assunto é algo que ela entenda do assunto. Não que eu esteja querendo dizer que ela fume baseado, mas sim que ela provavelmente estudava na mesma turma que esse garoto ano passado. Eu vim de outra escola do turno da manhã, e Abby do turno da manhã dessa escola mesmo. — Ano passado ele estudava na mesma turma que eu! Sei quem é! — Línea apontou. — Ele vinha para a escola somente para não fazer nada com os parceiros dele. — Ironizou. Eu ouvia, mas não me interessava muito na conversa. Sabe quando você está tão desinteressado em algo mas finge estar interessado somente para se manter presente na conversa? Então. Tenho certeza de que daqui a pouco quando esse assunto morrer já não lembrarei nem mesmo de que se tratava de um garoto da minha turma. — Dizem que ele ficou assim depois que o pai foi preso por bater na mãe dele. — Línea prosseguiu. — Nossa! Que pesado. Já vi alguns casos parecidos em que realmente o garoto ficou meio rebelde mesmo. — Abby comentou. — Eu nunca tinha reparado que chamavam o nome dele na chamada. — Comentei deitando por completo no banco da pracinha e observando o céu agora. — Até porque os professores já vêem ele como desistente, talvez nem mesmo chamam o nome dele, só colocam infrequência. Ele não veio nenhuma vez esse ano, e já está quase no segundo bimestre. — Abby falou. Viro a cabeça para o lado vendo Línea voltar a mexer no celular do outro lado do banco. — Como ele era, Línea? — Questiono tentando trazê-la de volta para a conversa. — E eu vou saber, não ficava reparando nele. — Línea retruca rude. Burra. — Estou me referindo a personalidade dele, seu asno. Ele era chato, respondia os funcionários com ignorância, dormia a aula inteira, era brincalhão com todos, era na dele, fumava escondido no banheiro, vinha de ressaca para a escola, era cheio de tatuagens e piercings, como ele era!? — Esbravejei perdendo a paciência em menos de um milésimo de segundo. — Sei lá. — Deu de ombros. — Ele era amigo daqueles meninos do fundão. Amei a explicação, achei bem descritiva e super atendeu ao meu questionamento. Nesses casos prefiro ficar calada ao ter que responder Línea, não quero deixar minha falta de paciência com ela transparecer e ferir os sentimentos dela. — Arrasou, estou conseguindo visualizar ele na minha imaginação agora. — Abby ironizou fazendo gestos na própria testa me fazendo rir. Sempre acho as ironias dela engraçadas, não sei o porquê. Línea lança um olhar de desdém para Abby novamente me fazendo rir um pouco mais. Ela olha o relógio de pulso e então levanta, fazendo com que nós entendemos que já é hora de ir. Então quase nos arrastando começamos a caminhar. — As meninas que sentam na frente estavam falando que provavelmente ele vá voltar, porque a mãe dele veio conversar com a direção e fez um escândalo. Disseram que ela voltou para casa pisando fundo parecia que afundaria o chão, estava soltando fumaça pelo nariz. — Abby falou. — Um macho alfa, o mais perigoso e é mandado pela mãe. Chega a ser irônico, não que eu seja contra isso, mas é que baseado na descrição que vocês fizeram dele, aparentemente ele tem jeitão de "perigoso" "temido"... — Falei minha opinião mas fui interrompida por Abby. — Sim! — Abby deu ênfase com bastante intensidade no "sim". — Esses meninos que dão uma de bichões são todos uns franguinhos. Olha! — Apontou para os meninos que sentam no fundão caminhando juntos na nossa frente bem mais distante de nós, indo em direção à escola. — São muito viris, as pernas das mulheres ficam até bambas. — Ironizou me fazendo gargalhar alto ao ponto de um deles olhar para trás. Finjo pegar algo no chão para disfarçar, já que Abby não dá a mínima e nem mesmo repara se eles perceberem que estamos caçoando deles. Lerda. — Mas será que esse garoto volta mesmo? — Abby volta ao assunto. — Se voltar espero que não seja barulhento e inquieto como aqueles alfas alí. — Gesticulou para os garotas com o queixo. — Se voltar, não mudando nada na minha vida está ótimo. — Falei impaciente. — Faço das tuas palavras as minhas. — Línea comentou ao meu lado me fazendo lembrar que ela estava com a gente esse tempo inteiro. — Eu pensei que a Lina estava desse lado. — Abby gritou em meio a uma risada e Línea a olhou com desdém pela milésima vez no mesmo dia.
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