04 Ruby

1276 Palavras
Segunda-feira, mais conhecida como o pior dia da semana. Na segunda-feira é o dia que começa as obrigações da semana, então o preconceito não é com a segunda-feira, mas sim com o começo das obrigações. Se o primeiro dia da semana fosse terça-feira, todos odiariam a terça do mesmo jeito que odeiam a segunda. Porque o que as pessoas odeiam de verdade é ter que voltar com as obrigações, e não importa se segunda-feira também fosse um final de semana, pois haveria um primeiro dia da semana da mesma forma. Caminhamos pelo corredor do colégio indo em direção à nossa turma, vendo os outros alunos alí nos encarando com desdém como sempre. Isso é tão irritante, eu não sei explicar, é irritante ver alguém claramente em um nível mais baixo que o meu me olhando com desdém como se fosse superior. Eu não me achava superior antes, eu mudei muito. As marcas do passado ficam para sempre, e nesse caso eu agradeço muito. O dia estava completamente normal, apenas um dia comum. Nada de extraordinário, e nem nada suficiente para me animar. Tudo alí exalava escuridão, desânimo profundo. Normal de uma segunda-feira. Passo pela porta como todos os outros dias, nada de extraordinário. Nada de animalesco como um professor perguntando meu nome porque eu cheguei atrasada, ou porque fiz algum ato de rebeldia. Nada de extraordinário. Sento na quarta cadeira da quinta fileira como todos os outros dias, então abaixo a cabeça sobre a mesa. Línea e Abby sentam nas suas cadeiras em silêncio, mas ouço conversarem sobre algo. Talvez Abby esteja pedindo ajuda com algum trabalho escolar. O sinal toca, ouço os alunos entraram na sala e alguns se baterem nas cadeiras ao entrar. Garotas gritando para chamar atenção, e homens reclamando de algo. Tudo normal como todos os dias. Levanto a cabeça olhando para a janela, vejo como o céu está assustadoramente nublado. O tempo completamente fechado como se fosse cair uma tempestade como nunca havia caído antes, chegava até mesmo a assustar. Não era comum que meio-dia parecesse com o anoitecer de 18:00, estava errado. — Boa tarde, turma! — O professor chato de matemática entra, pesando ainda mais o ambiente. A primeira aula de uma segunda-feira sendo de matemática. — Boa tarde! — Alguns responderam. — Passarei alguns exercícios relacionado ao nosso conteúdo mensal, então preciso que todos participem para que eu consiga identificar as dificuldades de cada um. — Ele já começa indo direto ao ponto. Alunos reclamam e bufam. Discutem, mas não dou atenção. Minha atenção está direcionada a esse céu tenebroso, que me assusta e parece me sugar. O frio que se instala não parece normal, vai aumentando cada vez mais. Olho para meu braço e vejo meus pelos completamente arrepiados, minhas unhas roxas, e meu queixo treme. Merda! Não trouxe casaco. Mas olho em volta e vejo os outros normalmente, não que não estejam sentindo frio. Mas parecem sentir um frio normalmente, não como se estivessem nus dentro de uma casa feita de gelo na antártica como eu. Esfrego os braços com as palmas das mãos, tenho a impressão de que quando respiro pela boca sai aquela fumacinha como nos filmes. — Ruby? — Abby me chama me fazendo a encarar. — Está tudo bem? — Ela questiona quando fico vários segundos em silêncio. — Eu... — Começo a falar, mas sou interrompida pelo barulho da porta. Viro meu corpo ligeiramente para a porta, prendendo toda a minha atenção alí. Tudo passa em câmera lenta, a diretora na qual eu não via desde o primeiro dia de aula em que estava no portão entregando mini papéis com "Seja bem-vindo" impressos nele, estava entrando pela porta devagar. Pelo menos ao meu ver. Aos poucos a silhueta de alguém, um garoto, um garoto com fisionomia bem mais de homem feito aparece na porta. Ele vai entrando devagar, olhando para o chão com o maxilar travado como se estivesse odiando estar alí. É bem alto, curtos cabelos perfeitamente lisos e caídos sobre o rosto, fios amendoados que batem em seus olhos. Quando ele mantém sua postura perfeitamente ereta ao lado da diretora que se posicionou em frente ao quadro, ele finalmente gira o olhar pela sala. Seus olhos são intensos, neutros, não esboçam emoções, não esboçam sentimentos, não esboçam nada, só esboçam intensidade. Isso tem demais. Intensidade. Não demora muito para que ele encontre meus olhos, já que olhou nos olhos de todos daquela sala. Mas não sei se ao meu ver está tudo em câmera lenta, mas tenho a sensação de que ele está me olhando bem mais do olhou para os outros. Ele está sim me encarando, pois sem conseguir desviar meus olhos dos dele vi pela visão periférica alguém arremessar uma bola de papel na lixeira, e ela vôou em velocidade normal. Este garoto me encara com seu olhar neutro, e por algum motivo não consigo desviar. Quando se olha para alguém, você consegue criar uma opinião sobre ela. Você consegue decifrar algo nessa pessoa. Ele não. Tudo nele exala mistério. Não consigo entender o que está pensando, não sei se me encara por raiva, por curiosidade, ou porquê estou o encarando de volta, mas nada é claro. Porque seu rosto é neutro. Desvio meu olhar rapidamente para o céu lá fora, vendo gotas grossas de chuva caírem. Só então percebo que está chovendo muito forte, e eu nem mesmo notei. Volto a olhar para o garoto, e ele estava encarando o chão entre as fileiras a sua frente. — Olá, turma. — A diretora começa. — Vim aqui somente trazer nosso aluno, e colega de vocês novamente para a sala. Todos aqui devem conhecê-lo, já que ele estudou aqui junto com vocês. Deixe-me ver... — A diretora gira seu olhar pela classe até chegar em Abby. — Você era do turno da manhã, certo? — Sim. — Abby respondeu. A diretora me olhou. Então apontou para mim. — Você é nova aqui, não é? — Questionou, eu apenas assenti. — Então, para vocês duas. Este é Dean, se ausentou por um tempo, mas irá retornar novamente. Dean, espero que não aja mais problemas, você voltou para ficar dessa vez. Se precisar de algo pode me consultar, ok? — A diretora alisou as costas dele. — Tem alguma carteira vaga, pessoal? A mulher girou o olhar pela turma, e então parou na carteira ao meu lado. — Tem uma alí ao lado da Ruby, Dean. Vá, seja bem-vindo, viu? — A diretora disse enquanto brincava com os cabelos dele e saía. Ele deu um meio sorriso para ela antes dela ir. Ele não parece ser tão i****a como pensei que seria. Dean encarou a cadeira que a diretora sugeriu, seu olhar ficou neutro novamente. Ele então caminhou para outra direção, sentou em outra no fundão da sala, bem longe da cadeira sugerida. Franzi o cenho encarando o teto. Ele sentou lá atrás para ficar perto dos amigos, Ruby. — Aé, Dean. Está de volta! — Pude ouvir seus amigos gritaram animados enquanto ouvi sons de palmas se baterem, provavelmente fizeram um aperto de mãos. Olho para Abby que está com o rosto direcionado para o fundão da sala, sua expressão é de julgamento. Provavelmente, conhecendo bem como a conheço, deve estar julgando o garoto "novo". Abby sempre firma esse olhar nas pessoas, um olhar que julga até a alma do indivíduo. Não sou assim, não gosto de pessoas que agem assim, mas gosto dela porque é do bem. — Estou, mesmo não querendo. — Dean riu irônico. Ele riu. Ele ri. Te olhou como um psicopata mas foi apenas impressão sua, é o jeitinho dele, ele é legal.
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