Retorno à segunda-feira. Quem gosta?
Ninguém gosta, principalmente quando você é obrigado a retornar para um lugar que não gosta.
Por que estudos seria importante? Não vai me levar para onde quero chegar, até porque não quero chegar a lugar algum. Só quero fugir daqui, fingir que não existo.
Parece ser uma frase bem burra, mas é mais inteligente do que parece. Eu não preciso de escola, já sei ler e escrever, é o suficiente. Não quero ir a lua e não vou usar meus estudos para nada mesmo.
Confesso que apesar de odiar esse lugar, é bem legal passar a tarde inteira sem fazer nada, apenas conversando e rindo com os caras.
Apesar de que é entediante, nada de extraordinário, nada de animalesco além de um funcionário do me parando no corredor para perguntar o porquê de eu ter chegado atrasado.
Eu costumava ser mais rebelde, todo esses meses eu fui. Agora eu sou obrigado a ser um garoto focado. Minha vida costumava ser mais movimentada.
— Rapaz, Deanzinho está de volta. — Bill, o professor de matemática fala alto com um sorriso quando a Magda, diretora sai pela porta.
— É o jeito, fazer o que, Bill. — Dou de ombros e ele ri.
Bill é meu professor desde o primeiro ano, gente boa demais.
— Agora que ele é pai, m*l tem tempo de vir a escola. — Killer zomba.
— E já é pai, Dean? Nem sabia que você tinha namorada. — Bill questiona acreditando.
— Não! É zoeira desse i****a. Vai se fuder, Killer! — Esbravejo.
Killer gargalhou tanto que ficou com o rosto inteiramente vermelho como um tomate. i*****l.
Estudei com maioria dessas pessoas desde criança, chega a ser um pouco assustador perceber como o tempo passa sem nem notarmos.
Conheço maioria aqui, com excessão de duas garotas e alguns garotos que parecem também terem entrado esse ano. Não são do tipo que eu faria amizade, tem cara de que só sabem estudar e que são virgens, não temos muita coisa ou praticamente nada em comum.
— Que horas são, Línea? — Uma garota de longos cabelos negros questionou para a amiga. Línea, lembro dela. Ela era da minha turma ano passado, não lembro bem, mas lembro.
Ela fala alto, isso irrita. Não sei se é apenas porque está um pouco próxima de mim, mas ela parece falar gritando. Estou cansado de ouvir a risada dela desde que cheguei, e esse é só o meu primeiro dia.
Ouço a conversa delas de cabeça baixa encarando meus pés enquanto Killer fala algo, mas não presto atenção no que ele fala. Na verdade, não consigo prestar atenção.
— 15:20. — A Línea responde baixinho, essa fala mais baixo. Equilíbrio, uma fala gritando e a outra em inaudível.
— Aleluia, faltam 10 minutos. Não aguento mais essas três aulas de exatas seguidas. — A morena respondeu batendo levemente a palma das mãos animada.
Encaro suas costas, vejo só um pouco do seu rosto de perfil. Posso estar julgando, mas ela é chata demais.
— Essas meninas não calam a boca. — Resmunguei baixinho.
A mesa de Killer está ao meu lado, colada na minha. Ele me olha com uma sobrancelha arqueada.
— São só garotas conversando, deixa elas. Não estão fazendo nada com a gente. — Ele diz dando de ombros.
De certa forma ele tem razão, mas meu corpo não para de sentir repulsa, raiva da risada delas. Acho que desacostumei a ouvir conversas de garotas.
— Tem razão, é só a primeira impressão. Não conheço aquelas outras duas, acho que é normal.
— Olha... Aquela alí mais baixinha é a Abby e a alta de cabelo liso é a Ruby. — Killer explicou.
Ruby. A outra é a Abby.
— Elas são mais na delas, não conversam muito com os outros mas conversam bastante entre elas, porém são bem legais. — Killer continuou.
— Entendi. — Respondo concentrado olhando suas costas, mas viro o rosto quando a Abby virou em minha direção. Não quis que ela percebesse que eu estava olhando para elas.
Ouvi sobre a longa lista de profissões de mulheres que Killer queria f***r antes de morrer até que o sinal batesse, e foram os 10 minutos mais longos, talvez porque eu estivesse desacostumado com isso.
Levantei da carteira junto com Killer e saímos caminhando até a porta para fora.
Os corredores são sempre cheios, as pessoas saem enfrentando filas enormes atrás de lanche, e as pessoas também querem sair das salas para tomar ar quente, já que o ar-condicionado das salas congelam os alunos ainda vivos.
Em minha volta estão pessoas, todas elas com sua própria vida. Cada pessoa pensando em alguma coisa e sonhando com algo, mas eu não faço a menor idéia, mesmo convivendo com todas elas todos os dias. Quer dizer, a semana inteira a partir de hoje.
— Ah, c*****o! — Resmungo esfregando o rosto e apoiando a cabeça na arquibancada de trás.
Na quadra da escola sempre não tem muita gente, só algumas pessoas as vezes, mas não muitas. Quer dizer, fica algumas pessoas distantes, espalhadas por cada parte... Acho que já estou ficando maluco.
— Está tudo bem, Dean? — Mack questiona enquanto os outros conversam.
— Está, é só que... — Olho em volta me sentindo agitado, com vontade de sair correndo dalí. A sensação é de que tem um ímã te puxando para alguma direção, e você não sabe qual é, mas ele te puxa e você se incomoda sem saber para onde vai.
— "Está"? — Killer repetiu me encarando com um meio sorriso. — Cara... O que você te...
— Vamos fugir daqui. — Falo rápido interrompendo Killer.
— Você está querendo pular o muro? — Mack me encara com uma sobrancelha arqueada.
— É, cara. Tenho um amigo que desenrola um negócio para a gente rapidão, vamos? — Mack e Killer se encaram por meio segundo quando falo. — Estou ficando atordoado aqui.
Existem vários tipos de amizades, e nossas mães sempre acreditam que tem uma que leva o filho para o m*l caminho. A minha acredita nisso, mas não, comigo isso não acontece. Ninguém me leva para o m*l caminho, geralmente sou eu quem levo.
Amizades não te levam para o m*l caminho, se você for é porque você quer ir. Pensa em uma comida que você odeia, e se algum amigo te oferecesse ela, você iria aceitar? Eu não aceitaria. Mas agora pensa em uma comida normal, você não odeia mas também não gosta, e então todos os seus amigos comem ela enquanto vocês estão juntos, aí oferecem a você, você aceitaria com o passar do tempo ou até mesmo em outro momento.
Você só se deixa influenciar quando tem nem que seja 1% de vontade de fazer o que estão te influenciando. Ninguém leva ninguém para o m*l caminho.
— Vamos. — Killer responde.
— Eu não vou, se quiserem ir podem ir. Não vou entregar, só não vou. — Mack diz sentando na arquibancada de cima.
— Está bem, nos vemos amanhã. — Aceito a sua recusa. Eu quero ser essa pessoa, que não influencia os outros. Se estou na merda não preciso puxar ninguém junto comigo.
— Até. — Mack se despediu.
Killer e eu caminhamos de fininho até estarmos entre a sala de aula e o muro. Ele jogou nossas mochilas pela janela e pulou em seguida.
Ele me deu pezinho e quando estava em cima do muro segurei sua mão o puxando para cima.
Pulamos do outro lado caindo em cima de um monte de folhas secas e então saímos correndo, e foi assim que ficamos chapados o restante da tarde.
Não dá para mudar quem você é da noite para o dia.