06 Ruby

1274 Palavras
Má influência. Conheço Killer desde criança, não éramos próximos mas somos grandes amigos agora. Estudamos na mesma turma desde o começo do ano, e já está quase nas férias do meio do ano. Nunca o vi pular muros ou ficar chapado como ficou ontem. Ele estava praticamente dormindo no banco do ônibus revirando os olhos a viagem inteira, chamei ele algumas vezes e tudo o que ele respondia era "hum?" e não falava mais nada independente do que se perguntava. Abby e Línea não repararam no que ele tinha, não conhecem. Eu reparei, eu percebi. Seria muita coincidência exatamente no mesmo dia que um garoto que fugia da escola vem para o colégio, um garoto que nunca deu problemas pula um muro junto com ele, e pior, usa drogas sem nunca ter usado antes. Dean é uma péssima influencia e um péssimo amigo e já posso notar como ele vai acabar com a vida do Killer. Não que eu me importe demais com o Killer, mas ele é meu amigo, e eu sei bem como é se perder em um oceano de "liberdade". Sentada na carteira esperando o professor chegar em silêncio junto com Abby e Línea. Encaro a porta e vejo Killer entrar junto com Dean, meu sangue ferve. Eles caminham até o fundão, deixam as mochilas lá fazendo um barulho alto ecoar pela sala por causa da violência. Caminham até a porta se batendo nas mesas como dois hipopótamos e saíram. Killer nem ao menos nos deu boa tarde hoje, posso estar exagerando ou imaginando coisas, mas não estou gostando disso e sei que não está certo. Abaixo a cabeça e reflito por um tempo até que a aula comece. Ainda é cedo, estamos sem energia para conversar. Abby permanece em silêncio e Línea não inicia uma conversa se ninguém iniciar primeiro. Está tudo parado novamente, e aquela sensação de não estar vivendo nada volta. Estou sentindo uma enorme vontade de sair correndo, mas não é certo, não sou mais assim. — Boa tarde! — A voz da diretora ecoa pela sala me tirando da distração dos meus pensamentos. — Boa tarde. — Alguns alunos respondem de volta. — Como prometido, e já que muitos reclamaram de como sempre só há eventos pela manhã e o turno da tarde é sempre tão excluído das coisas. Hoje teremos um evento alí na nossa quadra esportiva, uma palestra com a psicóloga Rousse sobre a importância da educação s****l. — Reviro os olhos como se eles pudessem dar a volta para trás. — Quero que todos estejam lá prestando atenção. As meninas que sentam na frente se encararam desacreditadas por pela primeira vez sermos privilegiados com um evento e o evento ser esse. Educação s****l, não é nada desinteressante mas também não é nada interessante. Tanto as meninas quanto a diretora olham na direção da porta, direciono meu olhar para ela também vendo Killer e Dean entrando na sala. Atrasados, é claro. — O sinal bateu há 5 minutos. — A mulher diz olhando as horas no relógio de pulso e direcionando o olhar repreendedor para eles que obviamente não ligam e caminham até às suas carteiras. Ela os encara com uma expressão indignada, provavelmente porque eles estão a ignorando. — Eu preciso mesmo falar com vocês dois, acabei de lembrar. — Ih, fodeu! — Algum dos meninos sussurraram rindo de Killer e Dean. — Ontem, senhor Killer e senhor Dean entraram para assistir aula no horário normal como todos os outros, mas não saíram no horário de término. Conferi a lista da chamada das duas últimas aulas, e ambos não estavam, e eu não recebi nenhuma informação de que vocês precisaram sair, nem mesmo o vigia abriu o portão para vocês. O que me dizem? — Ironizou. Todos os alunos olharam para trás sorrindo tentando segurar a risada e olhamos para eles que riam também. Eu não conseguia rir, não estava achando engraçado. Killer nunca havia feito isso, e ele fez por influencia desse i****a que acabou de chegar. — O que me deixa mais indignada, é que ontem era o primeiro dia de aula do Dean, não é, Dean? Depois de tanta luta e insistência para que você voltasse, então no primeiro dia você já apronta essa? — Estudar é chato, tia. — Dean brincou. — É, mas é o estudo que faz vocês serem alguma coisa boa no futuro. Vamos, venham assinar uma ocorrência alí na diretoria. — A diretora gesticula com a mão os chamando, então em questão de alguns instantes os dois caminham um atrás do outro a seguindo. Todos então começam a rir e zombar, normal. Amigos se zoam, mas não é algo que eu consiga no momento. Olho para Abby e ela está rindo também, olho para Línea e ela se mantém neutra, mas sua expressão demonstra que quer rir também. — Então não tinha como as pessoas saberem como realmente eram os campos de concentração, porque as informações que elas tinham eram os jornais, rádio, programas... E tudo isso era a favor do governo, então não diziam realmente o que acontecia dentro dos campos de concentração, o que as pessoas sabiam era que fosse um lugar onde as pessoas trabalhavam... Alguém bate na porta interrompendo a professora de história, ela olha para o relógio de pulso. — Podem ir. — Ordena e então todos levantam seguindo em direção à porta. Acompanho Abby e Línea seguindo até à quadra esportiva. — Vou ao banheiro, daqui a pouco encontro vocês na palestra. — Anuncio e elas assentem. Caminho devagar até o banheiro. Dizer que vou ao banheiro é a forma que encontrei de anunciar que não estou bem, geralmente vou até lá apenas para ficar parada um pouco fingindo estar tudo bem, ou para andar um pouco pelos corredores e espairecer. Vejo Killer caminhando devagar mais a frente, dou uma corridinha até ele para acompanhá-lo. — Oi. — Cumprimento. — Eai. — Ele responde. — Ela vai chamar sua mãe aqui? Ou só te fez assinar uma ocorrência? — Questiono me referindo ao "castigo" que ele acabou de ganhar da direção. — Só assinei, é a minha primeira. Não ligo mesmo, se chamassem minha mãe eu nem avisava a ela. — Deu de ombros. — Você nunca assinou ocorrência, Killer. Como que você dá esse mole!? — Questiono indignada sem esperar por uma resposta, mas acabei tendo. — E o que você tem haver com a minha vida!? — Ele respondeu sendo rude, mas seu tom de voz não demonstrava a intenção de ser rude, parecia mais com alguém que estava tentando ser engraçado ou alguém que está convivendo com novos tipos de humor. O encarei desacreditada, pois ele nunca me tratou dessa forma. — O que? — Continuo o encarando desacreditada com minhas expressões faciais em choque e indignação. — Está surda agora? Perguntei o que você tem haver com a minha vida. — Ele repetiu. Fiquei olhando para ele tentando processar esses 30 segundos de conversa, e então apenas balancei a cabeça e voltei de onde eu vinha. Caminhei até a quadra na intenção de realmente ouvir a palestra, mas não tive a coragem de me aproximar, apenas me escorei nas arquibancadas longe do centro cheio de cadeiras e fiquei alí ouvindo. — Uma coisa que todo adolescente deveria saber é, "por que a educação s****l é importante?". Para começar, alguém aqui sabe exatamente para quê uma camisinha serve? Não é exatamente apenas para previnir gravidez. Vocês são o público alvo, porque vocês devem saber sobre isso já que vocês são a geração atual... Reviro os olhos e dou as costas voltando para a sala de aula.
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