Sem perdão

1840 Palavras
Os primeiros raios de sol tocaram em meu rosto, secando as lágrimas que escorreram durante a madrugada, passei a noite rolando sobre a cama, bagunçando todo o lençol. Não me recordo se apaguei em algum momento ou apenas fechei os olhos e o sol nasceu em um instante. A dor no peito ainda é constante, não consigo me esquecer do que Carlos fez, nem poderia, não passou nem vinte e quatro horas, mas também não fazia questão de esquecer e muito menos perdoar. O que ele fez não tem perdão, já que não faz o menor sentido do que ele estava fazendo, eu não sou nada dele — não que antes de tudo isso eu não fosse sua amiga de infância, mas agora realmente nem isso o que dele —. Carlos foi egoísta, um instupido sem tamanho, só por eu nunca o desejar resolveu me amaldiçoar, contar tudo para o meu pai o que eu estava fazendo com Pedro Rodriguez. Não fiz nada de m4l e ele não fez o que eu não queria. Sentei-me na cama, tocando as pontas dos meus pés no chão gelado, percebi que ainda estava com o vestido da noite anterior. Nem havia escovado os dentes ou ao menos um banho para tirar o suor, antes de me deitar na cama. Saindo da cama, fui direto para o meu banheiro tirando meu vestido e por fim minha calcinha, antes de colocar no cesto de roupa suja, vi uma leve mancha de sangue, automaticamente coloquei minha mão entre minhas coxas. Senti um leve incômodo, como se tivesse tocando um joelho ralado só que mais sensível. Olhei para minha mão e estava limpa, deveria ser da hora que eu saí do carro e não de agora, joguei a calcinha no cesto e fui para a banheira, antes de enchê-la de água já havia entrado. Deixei que a água da torneira tocassem meus pés, estava morna, suficiente para tomar um banho relaxante antes de sair do meu quarto. Se bem que me lembro, eu não poderia fazer isso, estou de castigo por ter me entregado para o filho do vizinho. Quando, finalmente, a água havia enchido a banheira, fechei a torneira e me afundei na água prendendo a respiração. Para afogar os meus pensamentos e tentar pensar algo que me faça ir até o lago para me encontrar com o Pedro. Saí do banho escutando alguém bater na porta do meu quarto, peguei meu roupão para me vestir e fui para o quarto deixando pegadas de água de rastros até chegar na porta. — Bom dia, minha filha. — é mamãe, trouxe café de manhã para mim — Seu pai não quer que você saia do quarto, então vim trazer um suco de laranja e bolinho de fubá da Paula, ela fez hoje de manhã. — Bom dia, mamãe. — respondi pegando a bandeja e colocando sobre a cômoda. — Desculpa por não poder te defender, você sabe muito bem como é seu pai. — Mas ele não tem esse direito, tudo o que ele me disse… — dei um suspiro audível. — Carlos foi muito m*****o em contar cada detalhe — sua voz é baixa, mas é tudo o que eu havia imaginado — Eu acreditava que ele era um bom moço, que iria te proteger até de seu pai, mas não só decepcionou você como a mim também. — Carlos não contaria se eu tivesse feito com ele. — Receio que não mesmo — mamãe ainda estava parada no arco da porta —, eu preciso ir no centro levar seu pai para o aeroporto, voltará para São Paulo depois de fazer a cotação de vendas da lojinha da fazenda. Depois de me despedir da mamãe, fechei a porta do meu quarto e fui colocar uma roupa. Calça jeans e camiseta branca, meias e minhas botas, daria um jeito de sair desse quarto nem que fosse pela janela, Pedro Rodríguez deve estar me esperando no lago. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira, faltam dez minutos para o horário combinado. Praticamente engoli meu suco e o bolo de fubá, antes de sair do quarto de fininho, provavelmente meus pais já saíram da mansão. Fui em direção da cozinha para ver o que eu conseguia para levar, havíamos também combinado um piquenique ao lado do lago. — Mas menina… — Paula se assustou quando entrei na cozinha — Você não deveria estar fora de seu quarto — seus cabelos castanhos estão preso em um coque com redinha, sua pele branca cheia de sardinha está vermelha, provavelmente foi colher alguma erva para fazer o almoço de hoje —, seu pai pediu para que eu levasse seu almoço… — Ele não precisa saber que você sabe que saí — interrompi pegando um pote e colocando vários pedaços de bolo. — E onde a senhorita vai? — colocou as mãos na cintura e ficou né encarando com seus olhos negros — Posso saber, dona Fabiana Torres? — Vou para o lago. — Vai atrás daquele mocinho? — semicerrou os cílios — Saiba que isso não agrada o senhor Fabiano. — Ele nem vai estar aqui quando eu voltar. — Sabia que aqueles Rodríguez vieram aqui antes de seus pais saírem. — Para que? — franzi o cenho. Não quero acreditar que meu pai estava certo, que Pedro só se deitou comigo para conseguir as terras que meu pai havia comprado dos pais dele. Fabiano nunca iria dar as terras tão fácil, havia feito promessa para o ex dono, sabia muito bem que seus filhos iriam pedir de volta, que tentariam comprá-las e que não era para dar ou revender a eles. — Eu vou saber, garota? — jogou o guardanapo sobre o ombro e ajeitou o avental — Não sou fofoqueira, agora xispa daqui. Peguei uma toalha florida no armário e embrulhei o pote de bolo como se fosse uma trouxinha, com uma alça para que eu pudesse levar nas costas enquanto cavalo com o Fúria Branca. Corri para os estábulos, rezando em pensamentos para não encontrar com Carlos. Tenho certeza que ele irá contar para meu pai que sai do quarto, aquele maldito, e******o cão de guarda, traiçoeiro como uma cobra perçoenta. Para que inimigos se tenho Carlos como amigo? Por sorte ele não está aqui, deve estar de vigia debaixo da minha sacada. Acreditando que eu fugiria dali, como sempre fiz quando meu pai me deixava de castigo e não deixava sair para andar a cavalo com Carlos. Ele me ajudava a descer da sacada e corríamos alegremente até os estábulos. — Bom dia, Fúria Branca. — peguei uma cenoura para ele na cozinha antes de sair, mostrei para ele que veio todo contente pegar a cenoura e comer. — Como passou a noite, garoto? — beijei sua face antes de ir pegar minha cela. Após preparar meu cavalo, fui levando ele para fora do estábulo e logo montei nele para seguir meu caminho. Fiz que ele corresse o mais depressa possível para longe da mansão, não quero que ninguém me veja antes de encontrar com Pedro. O sol já está no alto, esquece de pegar o meu chapéu, meu couro cabeludo já está pedindo arrego. A cavalgada em Fúria Branca me causa incômodo na minha i********e, não imaginei que ficaria tão dolorido depois. Nos livros não contam esse tipo de coisa, se um dia eu conhecer algum escritor irei exigir que coloque essa verdade para não iludir nenhuma outra garota. Chegando no lago, desci do cavalo e amarrei a rédea na árvore perto da água para que Fúria Branca tomasse longos goles de água fresca. Tirei a trouxinha nas costas e estendi a toalha sobre o gramado, sentei nela e tirei minhas botas para refrescar meus pés. Apesar de estar de manhã, o sol está muito quente. Aproveitei para deitar sobre a toalha e observar as poucas nuvens no céu que estavam sendo tampadas pelas folhas verdes da árvore. Acabei dormindo com o som da água e os cantos dos pássaros, realmente não havia dormido nenhum pouco esta noite. Estava tão exausta mentalmente que não vi a hora passar enquanto dormia profundamente debaixo da árvore. — Fabiana, aí está você. — uma voz masculina me acordou, abri os olhos antes de me sentar na toalha — Graças a Deus, estávamos todos preocupados. A luz do sol havia abaixado, perdi totalmente a noção do tempo e não fazia ideia de quanto tempo estava ali dormindo. — Como assim? — queria saber meio atordoada após acabar de despertar — O que está fazendo aqui Carlos? — vociferei. — Estamos te procurando desde o meio dia, já são três e meia da tarde — ele estava me encarando preocupado, suado e exausto — Paula não a encontrou em seu quarto, seu pai até voltou para casa e começamos a te procurar em todos os lugares, como pude me esquecer do lago? — bateu a mão esquerda na testa. — Que horas são? — Três e meia… — franziu o cenho — O que estava fazendo aqui? Ah, não precisa me dizer, estava esperando aquele mauricinho? Ele foi embora, Fabiana. — Não, ele havia combinado comigo ontem e noite… — levantei depressa. — Ele foi embora assim que seu pai recusou vender as terras de volta para eles. — Não, não…. — Fabiana, ele só te usou. — Carlos se aproximou de mim colocando suas mãos sobre os meus ombros — Pedro Rodríguez só queria te usar para conseguir as terras de volta, está me ouvindo? Ele foi embora, já que não conseguiu o que queria. — Carlos me fez olhar nos olhos dele — Fabiana, você sabe muito bem que só eu que vou estar com você para o resto de nossas vidas. Afastando-me de Carlos, calcei minhas botas, refiz minha trouxinha. Sentindo-me uma verdadeira trouxa, meu pai estava certo. Ele só queria dar um jeitinho para ter as terras de volta, como fui tola. Achando que ele estava apaixonado por mim, acreditando que ele não me deixaria. Como pude ser enganada por aquele i*****l? — Fabiana, se acalme! — Carlos tentou me segurar mas fui mais rápida, desamarrando a rédea de Fúria Branca — Fabi, você está nervosa, deixa que eu a leve. — Eu não sou tua, Carlos. — fechei minha mão em punho, olhando em seus olhos, percebi que os meus estavam embaçados de lágrimas — Acredito que se você não tivesse abridor essa boca de cobra traiçoeira e soltando seus venenos para cima do meu pai, Pedro estaria aqui. — Tem certeza? — questionou dando um sorriso ladino — Pedro queria aproveitar de sua inocência, para conseguir o que queria, te f***r como uma c****a no cio no carro do irmão dele e ainda comprar as terras que um dia foi da família dele, aquela família falida e podre. Sem pensar duas vezes dei um tapa tão forte na face dele, deixando marcas dos meus dedos na bochecha, minha mão estava ardendo mas sei que sua pele estava muito mais que a minha.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR