Para tentar amenizar o sangue que escorria do supercílio de Pedro Rodríguez, perguntei se ele tinha uma caixinha de socorro no carro. Sem me responder, abriu o automóvel para pegar no porta-luva, pedi para que se sentasse no banco do passageiro enquanto eu limpava o ferimento e tentava estancar o sangue com o esparadrapo.
— Onde você aprendeu a fazer isso? — queria saber, fazendo careta por arder ao jogar oxigenada no corte.
— Eu ralava muito o joelho — dei uma risada anasalada e senti seus braços em volta da minha cintura — Pedro, preciso terminar de limpar.
— É que seu cheiro é tão bom, me acalma. — seus olhos estavam brilhando e seus lábios curvados em um sorriso de tirar o fôlego. — E… — limpou a garganta antes de continuar — você não terá problemas com o Carlos?
— Aí, virgem santa… — bati minha mão livre na testa — fiquei tão preocupada com a machucado que me esqueci disso.
— Acredito que deveria ir atrás dele… — seu olhar baixou. — Não quero que entre em problemas por minha causa.
— Deixa eu terminar de limpar seu ferimento e vou atrás dele. — brandei.
— Eu me viro. — senti sua mão tocando sobre a minha — Amanhã a gente se encontra no lago? — perguntou se levantando, Pedro Rodríguez é bem mais alto que eu, seu dedo indicador ficou debaixo do meu queixo e fez com que eu levantasse a cabeça para olhar em seus olhos — Podemos nadar juntos e fazer um piquenique, o que acha? — seu nariz tocou no meu, para fazer beijo de esquimó, logo seus lábios macios encostaram nos meus com um beijo rápido.
— Estarei lá às nove horas.
— Fechado, minha doce menina. — mordi meu lábio inferior sentindo minhas maçãs esquentarem. — Sentirei sua falta até lá.
Meu coração parecia que iria entrar em erupção, explodir no meu peito de tanta felicidade que me anestesiava todo o meu ser.
Corri, me distanciando do carro do irmão dele, na mesma direção que Carlos foi. Para ser sincera, não sabia para onde ele ia ao sair do estacionamento. De longe vejo meus pais vindo em minha direção, quando me aproximo deles, meus olhos se chocaram com os de Carlos ao lado do meu pai. Sentindo um frio na espinha que se espalhou como um gelo pelo meu corpo, fiquei petrificada, sem conseguir me mexer. Meu melhor amigo não poderia ter feito isso comigo, poderia? Contar tudo o que eu estava fazendo com Pedro era demais, uma coisa era me proteger quando estivesse em perigo e não contar sobre minhas intimidades.
Cão de guarda e******o, pensei sentindo um gosto azedo na minha boca.
— Vamos para casa agora! — a voz firme do meu pai fez minha base toda tremer.
Carlos voltou conosco, o silêncio dentro do carro estava me deixando mais aflita ainda. O cão de guarda, que eu o considerava como irmão de coração, meu melhor amigo e companheiro, havia me dedurado, com cada detalhe ao lado de Pedro Rodriguez, meu estômago queimava, continuei sentindo o gosto azedo na boca. m*l olho para Carlos, ao contrário de meu pai que estava me encarando pelo retrovisor. Com os braços cruzado, engoli em seco, travando minha mandíbula, sentindo todas as raízes dos meus dentes doerem pela pressão que faço um contra o outro.
Minha vontade era quebrar a cara do cão de guarda e******o, meu peito subia e descia, com o cenho franzido encarava o meu pai de volta. Não sei quem estava com mais ódio mortal dentro daquele carro.
O suor escorria pela minha nuca, minha mandíbula já havia começado a doer, parecia que meus dentes iriam partir de tanta força que eu coloquei neles. Quando o carro parou na frente da mansão, abri a porta com tudo, tirando o cinto de segurança e saltando do carro. Mamãe veio atrás, segurou-me pelo braço fazendo que eu olhasse para trás.
— Você precisa ter calma agora. — sua voz doce incomodou, soava tão falsa, não consegui enxergar que aquilo era uma forma de proteção, ela estava do lado do meu pai, isso sim — Não abre a boca para retrucar ou as consequências serão muito maiores.
— O que eu fiz de tão errado para nem a senhora me defender desses dois? — ela não disse nada, apenas me soltou e deixou que eu fosse em direção da porta.
Meu pai se aproximou rápido, não deixou que eu fosse para o meu quarto, não quero ter uma conversa, pois dela não será nada civilizada.
— Onde pensa que vai, Fabiana Torres? — vociferou com veemência.
— Para o meu quarto, já sei que o senhor me mandará para lá, cedo ou tarde. — brandei.
— Precisamos conversar.
— O que? O seu cão de guarda já lhe contou tudo. — fechei minha mão de punho e procurei o olhar de Carlos.
Seus olhos estavam vermelhos, como se estivesse chorando por tanto tempo que as lágrimas queimaram seus olhos, seu peito subia e descia muito rápido e provavelmente estava com o coração descompassado.
— Você mesmo, seu e******o! — gritei, sentindo as palavras queimarem minha garganta — Sei muito bem que gostaria de estar no lugar dele, e como não foi, correu para contar para os meus pais.
— Já chega, Fabiana! — a voz de meu pai fez com que eu voltasse a olhar para ele
— O senhor acha que eu não sei que Carlos Almeida é secretamente apaixonado por mim? E que o senhor sabia, por isso o colocou na minha cola — olho para mamãe, pois foi da boca dela que escutei, ela estava comentando com a Paula na cozinha, havia acabado de acordar e estava indo pegar uma xícara de leite quando escutei a conversa — Para que eu pudesse cair nas graças dele, mas como não cai, ele estava se mordendo de ciúmes por eu ter conhecido o Rodríguez.
— Cala a boca! — Carlos vociferou, com os punhos fechados, foi aí que eu vi que seus dedos estavam vermelho por ter socado o rosto de Pedro e provavelmente socou algum muro antes de ir atrás dos meus pais — Você deveria se apaixonado por mim e não por aquele mauricinho de merda.
— Carlos, menos — meu pai o freiou e ele abaixou o olhar — O que passa nessa sua cabecinha de vento, Fabiana? — perguntou se direcionando para mim — O irmão de Pedro veio cedo aqui na fazenda, para tentar negociar a parte que comprei do pai dele. Você acha que isso não foi uma estratégia? Você se entregando de bandeja o seu corpo… que vergonha — Fabiano desviou o olhar, colocando a mão no peito — Minha filha, minha doce filha, se entregando tão facilmente para aqueles Rodríguez.
— Querido, se acalme. — mamãe foi até ele, alisando o seu rosto.
— Estou bem, Brina. — papai voltou olhar para mim — Que vergonha você trouxe para essa família, para mim, ao se entregar para o Rodríguez, ele deve estar comemorando por ter feito isso. — passou a mão na testa, limpando o suor que formou nela — Acreditando que fazendo isso eu darei sua mão a ele, pois o dia que eu morrer — mamãe bateu três vezes na porta de madeira quando papai disse isso —, tudo ficará para você e casada com ele, tudo que é seu será dele também.
Sou filha única, não por que eles queriam, foi difícil mamãe engravidar. Meus pais gastaram uma nota muito alta com tratamentos, até conseguirem fazer artificialmente, com várias vezes não dando certo. Depois desse terrível sofrimento, de ter vários abortos espontâneos, eles não queriam mais filhos. Um dos motivos para que meu nome seja igual ao meu pai. Sempre sonharam ter pelo menos cinco, mas desistiram quando sofreram muito até chegar os meus nove meses na barriga da minha mãe e nascer completamente saudável — coisa que os médicos juravam que não iria acontecer e não queriam tentar mais, pois sabiam que o sofrimento depois de mim seria maior.
— Que absurdo, Pedro é o oposto do que você pensa — as lembranças de como ele foi tão carinhoso e atencioso comigo não condiz com o que papai estava falando.
— Você não conhece a família Rodríguez, me arrependo até hoje de ter comprando aquelas terras e agora sinto remorso, poderia ter guardado o dinheiro e deixado para investir em seus estudos — ele andava de um lado para o outro, como se carregasse um peso nas costas muito maior do que deveria.
Lágrimas formaram em meus olhos, meu coração se apertou, não quero acreditar que tudo isso seja verdade. Que Pedro Rodríguez me usou para conseguir as terras de volta.
— E por que o senhor não vende para eles novamente? — minha voz sairão embaralhadas por conta do choro que se iniciou. — Era tão simples.
— Os pais deles não queria que eu vendesse as terras de volta, me fez jurar para que eu não fizesse isso — seus olhos negros encaravam os meus —, eu cumpri minhas palavras, não sou um homem fraco que joga sujo.
Meus lábios tremiam, as lágrimas escorriam por minha face sem que eu pudesse lutar contra elas. Sinto tanto ódio por Carlos, ele conseguiu acabar com minha noite, meu último sábado de férias. Segunda feira as aulas retornam, eu queria transformar meus últimos dias sem trabalho e exercícios escolares, serem os melhores. Uma lembrança gostosa de se lembrar, mas aquele cão de guarda e******o conseguiu arruinar o meu dia.
— Eu te odeio, Carlos Almeida! — vociferei, fechando minha mão em punho.
— Vá para o seu quarto agora e só saia de lá para comer e ir à escola na segunda-feira — ordenou.
Lembre do que mamãe comentou antes de entrar na mansão, eu sabia que isso iria acontecer. Não poderia ir ver bem o Fúria Branca, muito menos pisar fora do meu quarto, quem dera ir ao lago para encontrar com Pedro Rodrigues.
Fui para o meu quarto correndo, fechando a porta com força a ponto da parede tremer com a batida dela. Joguei-me na cama em soluços, sentindo uma dor enorme no meu peito. Jurando para mim mesma que minha amizade com Carlos Almeida havia se encerrado a partir do momento que socou o rosto de Pedro Rodrigues.
Não tem como fugir de Carlos, todos lugares que eu vá ele está em minha cola, como um bode expiatório. Não pensava que ele seria um cavalo de Tróia, me esfaqueando enquanto estava comemorando a minha vitória.
Sempre soube que ele era secretamente apaixonado por mim, mas nunca ouvi da boca dele, pois poderia ser um engano dos meus pais, qualquer ser humano se enganaria. Só que, as atitudes dele de hoje, desde de manhã, mostrou que meus pais estavam certos e Carlos faria qualquer coisa para eu não ficar com quem eu me apaixonaria, se não fosse por ele.
Como não enxerguei que ele era uma víbora desse tamanho? Me apunhalar pelas costas, só pelo fato de eu não ter me entregue a ele?