Renata narrando
Quando voltei para o escritório, estava cheia de energia e pronta para enfrentar todos os desafios. O tempo que passei longe me ajudou a recarregar as baterias e a focar nas minhas prioridades. Havia muitos processos acumulados, mas eu me senti preparada para solucioná-los, para retomar o controle das minhas funções e continuar conquistando ainda mais respeito e sucesso na minha carreira.
Meu dia estava sendo perfeito. O ritmo do trabalho fluía como eu queria, e tudo parecia estar no seu devido lugar. Mas, de repente, algo inesperado aconteceu. Eu estava no meu escritório, revisando alguns documentos, quando a porta se abriu. Era o Amauri. E ao lado dele, uma mulher. Ela estava em silêncio, olhando para mim, como se fosse parte da cena, mas não fizesse parte de minha vida.
A surpresa foi enorme. Meu ex-marido ali, depois de tanto tempo, e com aquela mulher ao seu lado, era a última coisa que eu imaginava no meu primeiro dia de volta ao trabalho. Não bastasse a surpresa, o que ele queria? O que ele tinha de tão importante para me dizer depois de tudo o que aconteceu entre nós?
Fiquei alguns segundos parada, apenas observando-os. A mulher ao lado dele parecia deslocada, mas com um olhar meio desafiador, como se estivesse lá para me provocar. Amauri, por sua vez, estava um pouco nervoso, mas com uma expressão que indicava que algo o incomodava. Então ele falou:
— "Renata, preciso conversar com você. É importante."
Eu respirei fundo, tentando manter a calma. O que ele queria agora? Já não bastava o sofrimento que ele me causou, agora ele aparece querendo algo? Eu me preparei para ouvi-lo, mas estava decidida a não me deixar ser envolvida novamente em sua teia de manipulação. Eu havia superado aquela fase. E agora, não importa o que ele fosse dizer, eu não voltaria atrás.
Fui firme, controlada, mas com uma sensação estranha dentro de mim. Por que ele tinha que aparecer de novo?
Amauri me olhou com um ar de arrependimento, tentando talvez encontrar algum vestígio de compreensão ou compaixão em mim. Ele respirou fundo antes de começar:
— “Renata, eu sei que a gente passou por muita coisa, e talvez eu tenha errado mais do que deveria, mas... eu sinto sua falta. Eu… ainda gosto de você.”
Eu apenas olhei para ele, sem palavras, sentindo a raiva começar a ferver em meu peito. Não podia acreditar no que estava ouvindo. Como ele ousava dizer isso depois de tudo o que me fez passar? Não houve nenhum arrependimento no seu coração durante os anos de indiferença, de me fazer sentir inferior e tão pequena. Ele não tinha direito de pedir nada de mim.
— "Você sente minha falta, Amauri? E onde estava essa ‘falta’ quando me tratava como se eu fosse nada? Onde estava esse sentimento quando me fazia questionar o quanto eu valia? Agora você aparece aqui, depois de meses, com outra mulher do seu lado, e quer que eu acredite em suas palavras?"
A mulher ao lado dele parecia desconfortável, sem saber exatamente como reagir, mas isso me fez ficar ainda mais irritada. Não era só ele quem estava me desrespeitando, mas ela também estava ali, sem nenhum respeito pela situação.
Amauri começou a falar mais rápido, como se tentasse me convencer a qualquer custo:
— “Eu sei que errei, Renata, eu sei. Mas é só que... a gente sempre teve algo especial. E essa mulher aqui,” ele apontou para ela, “ela não é o que você pensa. Eu… eu queria te mostrar que eu mudei.”
— “‘Eu mudei’,” eu repetia em tom sarcástico. “Sério, Amauri? Não, você não mudou. Não da maneira que eu mereço, pelo menos. E nem a mulher aqui, coitada, precisa ficar sendo parte de sua falácia.”
As palavras saíram mais duras do que eu planejei. A raiva estava tomando conta de mim, e eu não queria mais disfarçar. Eu me sentia furiosa por ele achar que podia vir com esse papo, achando que eu ainda era a mulher vulnerável de antes.
Ele já estava visivelmente irritado, e a tensão na sala aumentou. Ele levantou a voz, um pouco mais agressivo:
—"Você está sendo extremamente insensível! Eu fiz o que podia, e você não me dá nem uma chance de mostrar que estou arrependido!"
Foi nesse momento que perdi completamente a paciência. Meu tom foi firme e decisivo:
— "Arrependido? Você não me deixou escolha! Fui eu quem tive que me reconstruir, fui eu quem tive que aprender a não depender de um homem como você para ser feliz. Você destruiu nosso casamento e agora quer pedir desculpas para me manipular de novo. Pois saiba, Amauri, você não vai conseguir. Eu não sou mais a mesma."
Ele me encarou, mais furioso do que nunca, mas ao perceber que meu olhar não vacilava, ele se deu por vencido. Estava claro que minha resistência o abalava.
Eu respirei fundo e dei um passo para trás. Estava exausta da conversa, mas antes que ele pudesse responder algo, cortei:
— “Agora, se você não se importa, tenho trabalho a fazer. E se você continuar insistindo em me desrespeitar dessa forma, será melhor que saia daqui. Não sou mais a mesma mulher que você conheceu."
Amauri ficou em silêncio por um momento, sua expressão era uma mistura de raiva e confusão. Sem dizer mais nada, ele virou-se abruptamente e saiu, a mulher o acompanhando rapidamente, sem olhar para trás.
Eu fiquei ali, no meu escritório, com o coração ainda acelerado pela discussão, mas uma sensação de alívio também me tomou. Não me deixei vencer por ele, não fui manipulada. Estava firme nas minhas decisões, mais do que nunca. Eu havia seguido em frente, e ele ficou no passado.
Depois que Amauri saiu da minha sala, meu corpo ainda estava em alerta, como se a tensão da conversa tivesse deixado marcas visíveis. Eu precisava de um respiro. Fui até a copa pegar um café e, ao caminhar pelo corredor, tentei processar tudo o que havia acontecido. Tudo estava voltando ao normal, ou pelo menos era isso que eu tentava acreditar.
Foi então que encontrei minha irmã. Ela estava eufórica, como sempre quando algo a deixa animada, e carregava uma pilha de papéis nas mãos. Eu já sabia que ela estava trabalhando na minha ausência, mas o jeito como ela estava me esperando, com um sorriso enorme no rosto e uma energia contagiante, chamou minha atenção.
— "Renata, você não vai acreditar nos novos processos que chegou!" Ela começou a falar quase sem fôlego. "Essa aqui, você tem que ver, é um traficante perigoso querendo te contratar, e... Aqui!" Ela apontou para uma pilha de papéis, ansiosa para que eu olhasse.
Eu tentei me concentrar, mas ainda sentia a pressão de tudo que tinha acontecido com Amauri.
— "Espera, calma, Melissa, eu... precisei de um tempo para processar algumas coisas. Pode me explicar tudo isso depois do café? Só um segundo…"
Minha irmã notou minha expressão cansada e logo deixou de lado sua empolgação para se aproximar de mim com uma postura mais tranquila.
— "Claro, claro, desculpa. Eu entendo. Mas preciso que você veja tudo isso agora, é coisa importante."
Ela me acompanhou até minha sala, ainda com aquele olhar vibrante. Sentamo-nos, e ela espalhou os papéis pela mesa, explicando as novas demandas que surgiram enquanto eu estava fora. Ela falava com tanto entusiasmo que, pouco a pouco, fui deixando de pensar no drama com Amauri para me concentrar no trabalho.
“O processo do primeiro traficante, Renata, é urgente. Ele quer que a gente se envolva no processo que ele quer ser solto o mais rápido possível. Precisamos ser rápidos, já que ele deu um prazo apertado. Esse aqui,” ela disse, destacando um outro caso, “é algo que veio diretamente do tribunal, parece complicado, mas tem muito potencial. Você vai adorar!”
À medida que ela falava, consegui me concentrar melhor. O peso emocional que eu havia sentido ainda estava ali, mas agora minha mente começava a se ocupar com coisas mais práticas. Melissa sabia exatamente como acalmar minha mente agitada, me lembrando do propósito que eu tinha, da mulher forte que sou. Eu poderia ser muito mais do que a Renata que sofreu com um casamento desmoronando. Eu era uma advogada de sucesso, com muito a oferecer.
Ela continuou me explicando os detalhes de cada processo, e a empolgação em sua voz começou a contagiar-me. Aos poucos, comecei a me sentir mais focada, me conectando com a energia do trabalho, o que me deu um novo impulso.
— "Eu sabia que você iria ficar animada com esses," ela disse, com um sorriso convencido. "Agora, temos tudo para arrasar, você vai ver."
Eu sorri para ela, sentindo uma leveza diferente. “Isso vai ser o que eu preciso. Vamos mostrar que podemos ir ainda mais longe, Melissa.”