3- Miguel

1224 Palavras
Miguel (Rei) narrando Salve, meu nome é Miguel, mas pra quem é mais chegado pode me chamar de Rei. Tenho 29 anos e, na rua, já sou conhecido. Sou moreno, corpo tatuado e malhado, sempre na ativa. Sabe como é, né? A vida é pra ser aproveitada, e eu nunca fui de ficar preso a ninguém. Nunca arrumei uma fiel, não, meu rolê é outro: só curtir com as marmitas, chamar pra se divertir e depois mandar embora. Nada de compromisso, porque o lance é ser livre e curtir o que a vida tem pra oferecer, sem amarras. Quem me conhece sabe bem do que tô falando, e vou seguir assim, aproveitando cada momento sem ficar me prendendo a nada. Mano, eu era bem novão quando assumi o morro do dendê. A minha coroa queria que eu seguisse um caminho certinho, aquela de estudar e virar administrador. Ela sempre quis que eu tivesse uma vida diferente da dela, me empurrava pra faculdade e tudo mais. Eu até tentei, entrei na faculdade e tal, mas sinceramente, sempre achei esse lance de estudar meio sem graça. Não era pra mim. Sempre gostei mesmo de correr pela quebrada, viver o morro, e mais do que qualquer coisa, ajudar a galera da comunidade, colar nos bailes e fazer rolê acontecer. Quando o morro caiu nas minhas mãos, mano, era a chance de realmente fazer acontecer do jeito que eu queria. Comunicação, organização, fazer a festa e fortalecer a galera, tudo isso que é o real propósito de viver no morro. A gente se ajuda, se protege, faz o rolê crescer. Meu coroa, o velho, sempre foi meu espelho, mas ele partiu logo depois que eu assumi o morro, e aí, cê já sabe… fiquei bolado demais, perdi meu maior aliado, o cara que me ensinou tudo. Desde então, nunca mais deixei de buscar fazer justiça por tudo que aconteceu. Só que não foi fácil, não. A pressão aumentou, e os "cu azul", como eu chamo, vieram com tudo. Conseguiram se infiltrar no morro e pegar a área, parecia um jogo de xadrez, e no final das contas, me prenderam. O dia em que eles entraram foi tenso, mano. Passaram por cima de tudo e levaram geral, inclusive eu. Fui pro cadeião e não foi nada fácil, mas a mente nunca parou, sempre pensando em como fazer a parada virar, como botar as coisas no eixo, mesmo estando na pior. Ficou claro pra mim, mano, que a justiça que eu queria fazer, tinha que sair de dentro de mim mesmo, e nada e nem ninguém ia me parar. A vida do morro e da correria é difícil, mas o Rei não se abate, não. Tô aqui tentando de tudo pra sair da cadeia, mano. Já passei por tantas tentativas e nada de conseguir. Cada advogado que eu chamava, parecia que eles inventavam desculpa, davam aquele papo de que ia rolar e no fim das contas, nunca conseguiam me tirar daqui. Era sempre a mesma história. Foi um desgaste, porque não é fácil ver tanto esforço e grana indo embora, e o cansaço começava a bater forte. Até que um dia, minha coroa me vem com uma ideia que ela ouviu de uma moradora do morro. Ela me fala de uma mina advogada que tava conseguindo fazer um bom trampo lá fora e, segundo o que minha mãe falou, essa advogada já tinha ajudado a galera do morro em algumas paradas. Na hora, pensei: "Ah, já não aguento mais essa fita." Eu era meio cético, tipo "mais uma que vai me prometer o mundo e nada vai mudar", tá ligado? Mas a verdade é que ver minha mãe sempre correndo atrás me dava uma sensação r**m, eu não queria que ela sofresse mais por minha causa. Por isso, aceitei dar uma chance pra essa mina, apesar de não estar esperando muita coisa. Eu sei que pra ela, o negócio pode ser um trabalho qualquer, mas pra mim, essa chance significava minha liberdade, era a única carta que me restava. Eu queria muito que dessa vez fosse diferente, que ela fosse a chave pra me tirar desse lugar. Eu tava já no meu limite, mano, e vendo que minha coroa tava acreditando nessa mina, acabei concordando em mandar o processo pra ela. Se não fosse pra dar certo, que pelo menos minha coroa ficasse mais tranquila, né? Ela foi embora com aquela esperança nos olhos, dizendo que tava confiando na advogada, e eu, por um lado, até tentei me segurar, não queria desmotivar a mulher. Mas dentro de mim, eu tava cético. Achei que ia ser mais uma tentativa frustrada, e que a gente ia continuar na mesma. Quando ela saiu, eu voltei pra sela, sozinho com meus pensamentos. O tenso foi o silêncio, o pensamento girando na minha cabeça, pensando no que poderia fazer se a advogada não conseguisse me tirar de aqui, tipo, se essa mina não me der uma chance, já era, mano. Não ia mais ficar dependendo de promessas vazias de advogado que nem me conheciam direito. Se tudo desse errado, aí, irmão, eu já sabia o que tinha que fazer: ia começar a planejar minha fuga. E não ia ser qualquer fugazinha, ia ser no estilo, esperto, porque eu sabia que um rei nunca fica preso. Sentei ali na cama da cela, tentava pensar de maneira fria. Se o rolê da advogada não rolasse, é isso aí, ia ter que dar meu jeitinho. No fundo, o que eu mais queria era liberdade e justiça, e ia lutar por isso, nem que fosse com as próprias mãos. A noite foi pesada, não consegui tirar da cabeça aquele plano de fuga, mano. Eu passava as horas viajando, tentando bolar de todas as formas como ia sair daqui se nada rolasse com a advogada. Pensava nos caminhos, nas brechas, em quem podia me ajudar, como ia driblar o "azul" e sair ileso dessa cadeia. A cabeça não parava, o tempo passava devagar, parecia que a prisão ia me engolir se eu deixasse. Tava ali, vidrado nos pensamentos, e o tempo ia passando. A adrenalina foi tomando conta, mesmo eu sabendo que podia não dar certo. Se não desse pra sair legalmente, o plano era outro, mais difícil, mais arriscado, mas a última coisa que ia fazer era ficar aqui preso sem lutar. Foi nessa vibe que passei a noite inteira, com o sangue fervendo. De repente, já tava clareando o dia quando a voz dos "cu azul" cortou o silêncio. "Vai, bora, banho de sol, pessoal." Eles não iam com a cara de ninguém ali, mas essa era a oportunidade de dar uma respirada, pelo menos fora das grades. Levantei de imediato, sem hesitar. Sabia que qualquer oportunidade de sair daquela cela era mais um passo pra ver se o rolê do sol ia ser só rotina ou se tinha alguma chance de eu usar isso pra botar o plano em ação. Eu andava com os olhos bem atentos, como sempre, já pensando em tudo ao redor, vendo cada canto, qualquer brecha que surgisse pra colocar em prática o que estivesse no meu alcance. Se esse banho de sol fosse o tempo de eu dar o meu gás, ia aproveitar, mano. Porque, se o plano da advogada não rolasse, eu sabia que ia ser eu contra eles aqui dentro.
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