4- Renata

1416 Palavras
Renata narrando Acordei cedo, como de costume, sem perder tempo. Fui direto pra academia, precisava liberar a cabeça, ainda mais depois do dia intenso no escritório. Terminei meu treino suada, mas com aquele sentimento bom de dever cumprido. Já sabia o que me aguardava quando voltasse pra casa. Tomei aquele banho gelado, me revigorei e me vesti com a confiança de quem sabe que seu trabalho é sério e vai fazer a diferença. Afinal, não estou aqui pra perder tempo e nem para dar ouvidos a quem duvida de mim. Cheguei no escritório, joguei as chaves na mesa, e a primeira coisa que fiz foi pegar um café, aquele forte, que dá aquela energia extra. Eu realmente precisava. Respirei fundo e dei o primeiro passo na minha jornada de mais um dia no mundo das leis. Entrei na sala, joguei minha bolsa na cadeira e fui direto pro arquivo do meu novo cliente. Ele é dono de um morro e está preso numa penitenciária de segurança máxima. Li as primeiras páginas e, sinceramente, fiquei pensando: esse cara deve ser realmente perigoso. Estava claro no processo que ele tinha influência em várias áreas, e a prisão em um lugar tão fechado só confirmava o tamanho da sua ligação com o tráfico, possivelmente até com outros elementos mais fortes. A forma como ele foi preso e a razão pela qual ainda estava no sistema de segurança máxima me fazia imaginar o tipo de pessoa que ele poderia ser. Não tenho muito receio de enfrentar esse tipo de caso, mas o que me impressionava era o quanto ele parece estar no controle, até de dentro de uma cadeia. Pensando bem, aquele processo não seria fácil, mas era exatamente o que eu estava procurando. A adrenalina de lidar com esse tipo de cliente me dava uma sensação boa, e já sabia que ia ser um desafio à altura. Mesmo sem saber detalhes, eu sentia que ali tinha uma rede de interesses, e de algum jeito, eu tinha que desvendá-la, tirar o peso dessa prisão. O que era certo é que aquele cliente ia precisar de uma advogada forte e que soubesse jogar o jogo, e com todo respeito, essa pessoa era eu. Eu tava ali, no meio do meu trabalho, quando minha irmã, Melissa, entrou na sala sem bater na porta, como sempre. Ela tava com aquele brilho nos olhos, e eu já sabia: vinha conversa pesada. Ela foi direto ao ponto, me jogando um olhar curioso, o suficiente pra me fazer parar e me concentrar nela. — “Renata, sei que você está ocupada, mas cê vai me ouvir... O processo do dono do morro do dendê, esse caso complicado, vai ser bem maior do que você imagina. Precisa de alguém com uma visão mais ampla, alguém que tenha o jogo de cintura. Sei que não vai querer admitir, mas vai precisar de mim." Eu arqueei a sobrancelha e parei o que estava fazendo, sentindo o peso daquelas palavras. — “Melissa, o negócio é que eu já estou lidando com o caso sozinha. Tenho tudo sob controle, você sabe. Eu sou advogada criminal, sei o que estou fazendo." Ela cruzou os braços e balançou a cabeça, quase rindo de mim. — “Certeza? Só você, sem a minha ajuda, numa situação dessas? Eu sei que você acha que consegue, mas o poder desse cara no morro... Isso vai te apertar, Renata. Não vai ser só uma defesa. Ele vai precisar de muito mais, alguém com conexões e inteligência na rua. E acredite, cê sabe que tem horas que o conhecimento de quem vive o jogo é necessário.” Fui engolindo as palavras e analisando o que ela estava dizendo. Sabia que ela tava certa, em algum nível, mas sempre tentei não misturar as coisas. — “Melissa, você sabe o que tá pedindo. Esse cara não é qualquer um, ele tem influência no morro. Minha primeira opção é sempre ser profissional, independente das conexões, e você não faz parte disso!” Ela não estava mais se segurando, se aproximando da minha mesa e olhando nos meus olhos. — “Eu não estou pedindo, Renata. Eu estou dizendo. Você não tem escolha. Esse tipo de cliente, esse tipo de jogo, precisa de mais de uma mente afiada. Eu estou mais que dentro do jogo, você me conhece." Suspirei profundamente, cansada de tanta insistência. A Melissa não sabe perder. E ela não pararia até eu concordar. — “Tá, ok. Você vai me ajudar, mas deixa claro aqui: eu sou quem vai tomar as decisões. Vai ser só um suporte, e depois eu te pago um jantar, porque você vai me deixar maluca nesse processo.” Ela sorriu como quem sabe que tinha ganho. — "Combinado. Vou te ajudar no que for preciso, e depois você vai ver. Esse caso vai dar o que falar, Renata." Eu tentei me focar, mas uma parte de mim sabia que com a ajuda dela, o processo ia ser bem mais interessante. Eu sabia que, se eu não aceitasse a ajuda da Melissa, ela não ia sossegar. Minha irmã é um furacão, sempre empurrando suas ideias até me fazer aceitar, então, pra evitar mais dor de cabeça, acabei concordando. Mas, se tem uma coisa que eu sabia, é que eu não queria que ela se envolvesse de verdade nesse processo. A minha cabeça tava mais focada em proteger ela, do que qualquer outra coisa. A Melissa só tem um ano de advocacia, e ela ainda tá começando a se firmar no ramo. Pode até ser boa no que faz, mas os casos mais pesados, como esse do dono do morro do dendê, são complicados, e sei que a pressão vai ser enorme. Não quero vê-la se arriscando demais, principalmente em casos perigosos como esse. Eu mesma já passei por muita situação difícil, sei do que um nome como o desse cliente pode envolver, e se ele tem o tipo de poder que dizem ter, minha irmã pode acabar entrando numa roda de complicação que, sinceramente, ela não tá pronta pra lidar. Mesmo assim, não consegui bloquear a ideia dela de ajudar, porque sei como ela é. Então, disse o que ela queria ouvir: — "Tá bom, você vai me ajudar, mas lembra de uma coisa: você só vai me dar suporte, sem se envolver demais, entendeu?" Eu precisava que ela entendesse os limites. — "Eu sei, Renata. Fica tranquila, não vou me meter onde não devo. Só quero ver esse caso andar e te ajudar com o que puder", ela disse, mas com aquele sorriso de quem sabe que vai acabar querendo mais do que está dizendo. Eu assenti, ainda um pouco receosa, mas deixei pra lá. Agora, o que mais me preocupava era fazer a coisa andar sem arriscar demais, porque o jogo da justiça nem sempre é justo, e o morro, esse, sempre cobra. Depois de toda essa conversa com a Melissa, decidi que era hora de começar a agir de forma mais estratégica. Eu precisava conhecer mais sobre o cliente e sua história, entender o contexto em que ele vivia, antes de entrar de cabeça no processo. Já que minha irmã iria me ajudar com esse suporte, pensei que seria bom começar pelo caminho mais seguro: ir atrás da mãe dele, tentar descobrir algo que pudesse fazer a diferença no caso. — “Melissa, marca uma reunião com a mãe do Miguel para amanhã de manhã, por favor. Eu preciso dessa conversa para entender mais sobre ele, sobre como ele se comporta, o que espera desse processo, tudo. Quero fazer isso direito.” Ela me olhou um pouco surpresa, mas logo assentiu. — “Claro, vou tentar agendar. Vai ser importante ouvir o lado dela, Renata. Até porque você sabe, qualquer informação de quem conhece a pessoa de verdade pode virar um diferencial no tribunal.” Eu concordei, batendo a mão na mesa com um sorriso meio forçado. A conversa com a mãe do Miguel seria chave para minha estratégia. Precisava saber o quanto ele realmente valia naquele cenário, ou se tava só se aproveitando da imagem do "Rei" do morro. Mas tinha que ser cautelosa, comedido, sem se deixar levar pelo papo de um "grande chefe". Melissa saiu, e eu voltei a me concentrar no processo. O amanhã, com essa reunião, estava logo ali, e eu tinha que estar pronta para qualquer coisa que surgisse. O que eu mais precisava era entrar nesse jogo com as cartas certas na mão.
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