Renata narrando
Eu acordei cedo, mais cedo do que de costume, porque eu sabia que essa reunião era importante. Queria estar preparada para o que quer que viesse, então decidi chegar antes no escritório, ajustar tudo do meu jeito, preparar a sala, e garantir que o ambiente estivesse bem confortável, mas ainda com aquela energia profissional, sabe?
Feito isso, fui direto até a cozinha pegar o meu café de sempre — sem açúcar, com uma pitada de canela. Esse café forte sempre me dá o foco que preciso pra começar o dia. Não sou de comer nada de manhã, sei que não é o mais saudável, mas quando vou direto para o café, sinto que fico mais centrada, mais ligada na energia do meu trabalho.
Fiquei na minha, analisando os papéis, esperando a hora da reunião, e tentando me focar. A princípio, não esperava muita coisa nova da mãe do Miguel, mas precisava fazer essa conversa fluir da maneira certa. Passado um tempo, já estava começando a me concentrar demais nos meus pensamentos quando a Melissa entrou na sala, trazendo aquela energia alta dela.
— “Renata, a mãe do Miguel chegou,” ela disse com aquele olhar curioso de quem sabe que a reunião vai ser movimentada.
— "Pode mandar ela entrar," respondi, me ajeitando na cadeira, ajustando a postura. Sabia que esse encontro com a mãe do Miguel poderia trazer mais do que eu imaginava. Agora era hora de ouvir e observar. O trabalho de uma boa advogada também está nos detalhes que os outros não percebem. Eu estava preparada para pegar tudo o que ela tivesse para me dizer.
A porta se abriu, e a mulher que entrou na sala chamou minha atenção. A mãe do Miguel era, sem dúvida, bem bonita. Tinha aquele tipo de beleza madura que ficava mais intensa com o tempo, cabelos bem cuidados, uma postura elegante, mas ao mesmo tempo simpática, com um sorriso que exibia uma bondade genuína. Ela não parecia com a imagem de uma mãe de um bandido, pelo contrário, passava uma impressão de classe, de quem cuidou da vida da forma mais correta que pôde, apesar das circunstâncias.
Levantei para cumprimentá-la.
— “Bom dia, Senhora. Sente-se, por favor,” disse, apontando para a cadeira à minha frente.
Ela fez um gesto de aceitação, sentou-se calmamente e, antes de dizer qualquer coisa, sorriu novamente, como se tentasse quebrar qualquer tensão que por acaso pudesse existir.
— "Muito obrigada, Dra. Renata. Eu sei o quanto pode ser difícil, tanto pra mim quanto pro Miguel, esse tipo de situação."
Eu a observei, buscando entender suas reações enquanto falava. Sem dúvida, era uma mulher que parecia estar acostumada a controlar seu ambiente, mas com uma preocupação sincera em seus olhos. Era hora de entrar no jogo e entender, não só o caso, mas a pessoa por trás dele.
— “Vamos começar, então. Como você sabe, sou a responsável pela defesa do seu filho, Miguel. O que preciso mais de você agora é a sua visão sobre ele, o que acredita ser importante para essa defesa, algo que a gente possa trabalhar em conjunto,” falei, tentando criar uma conexão e deixar o ambiente mais confortável para ela, ao mesmo tempo que me preparava para cada palavra.
A mãe do Miguel começou a falar, e logo percebi que ela não estava escondendo nada. Ela falava sobre como ele foi uma criança boa, criada com amor, mas as influências do meio, a falta de opções e os erros do caminho o levaram a escolhas difíceis. Ela estava preocupada com o futuro dele, mas não de uma forma derrotista, mais como alguém que ainda acredita que ele tem salvação, se bem orientado. Falava com carinho, mas também com uma certa carga de frustração, porque sabia que o filho dela estava em uma enrascada grande, e sua vida, por mais que tivesse sido cheia de esforço, tinha sido afetada pelas escolhas dele.
Enquanto ela falava, eu fui anotando tudo na minha agenda, para não deixar nenhum detalhe escapar. Cada palavra dela tinha um peso, algo importante para a nossa estratégia de defesa, mas ao mesmo tempo, eu sabia que as coisas não seriam fáceis. A situação de Miguel era complexa demais para confiar apenas nas palavras da mãe. Era claro que ele ainda estava no meio de um jogo muito maior do que ela imaginava.
Quando ela parou de falar e me olhou, esperando uma reação minha, respirei fundo e coloquei a caneta na agenda.
— "O que você me disse é muito importante, Senhora. Agora precisamos ser mais práticas. Para esse caso dar certo, eu vou precisar me aprofundar na vida do seu filho, especialmente lá dentro, na prisão. Isso é fundamental. Podemos marcar uma visita com ele na cadeia, conversar de maneira mais séria, explicar exatamente o que ele precisa fazer para dar uma boa visão a quem vai decidir sobre seu futuro."
Ela ficou pensativa por um momento, mas logo concordou.
—"Claro, Dra. Renata, o que for preciso. Fico aliviada em saber que alguém como a senhora vai estar ao lado dele."
Eu assenti, já planejando os próximos passos na minha mente. Era hora de eu ir pra cadeia, conversar com o Miguel diretamente, e passar um sermão se fosse necessário. Ele tinha que entender que o tempo estava passando, e só com uma mudança de postura, com a direção certa, seria possível ter alguma chance no tribunal.
Depois que a mãe do Miguel saiu da minha sala, eu me sentei por um momento, refletindo sobre tudo o que ela me disse. Tinha uma leve sensação de que algumas coisas não estavam 100% claras, mas ao menos agora eu sabia por onde começar a trabalhar na defesa dele. A próxima etapa era essencial: eu precisava ir até ele, encarar de frente a realidade e orientá-lo sobre o que precisava fazer dentro da prisão. Não ia ser fácil, mas isso era um passo importante.
Então, peguei o telefone e liguei para a Melissa. Ela atendeu logo, como se já soubesse que teria mais algo a fazer.
— "Mel, preciso que você marque uma visita com o Miguel, e precisa ser ainda essa semana. Não tem mais tempo a perder." Falei, firme e direta, como quem sabe que o tempo é precioso em casos como esse.
Minha irmã, sempre tão pronta pra agir, respondeu imediatamente.
— "Pode deixar, Renata. Vou já organizar isso. Ele vai precisar entender a gravidade do que está acontecendo e o que é esperado dele."
Eu passei os detalhes de como queria que fosse a visita, a importância de mostrar a ele que essa conversa era um divisor de águas. Não queria mais enrolação, não dava pra brincar com o tempo quando o futuro de um cliente estava em jogo.
Melissa saiu da sala e, como sempre, estava animada com a tarefa. Isso era algo que ela adorava, me ajudar de qualquer forma que fosse possível. E, mesmo sendo nova na advocacia, tenho que admitir que a confiança dela em agir rápido me fazia sentir mais aliviada.
Agora, o único que restava fazer era aguardar. A visita estava marcada, e minha mente já estava ocupada com os próximos passos. Sabia que Miguel teria que demonstrar mais que arrependimento; teria que mudar de atitude, e rápido, para fazer valer a pena esse jogo de defesa.