2 - PILOTO

1276 Palavras
Narradora narrando O cheiro de desinfetante com suor azedo no pavilhão de Bangu não dava trégua. Na cela 4, o espaço era pequeno, mas ali dentro não tinha essa de hierarquia da rua. A cadeia nivela todo mundo. Rodrigo, o DG, podia ser o dono do Complexo da Penha lá fora, e o Marcos, o Piloto, o cara da logística na Rocinha, mas ali, dividindo a mesma esteira e a mesma cela, os dois eram parceiros, lado a lado, sem essa de quem manda mais - apesar do vulgo, impor respeito ali dentro. Quatro dias foi a diferença da prisão dos dois. DG caiu primeiro numa operação pesada; quatro dias depois, o Piloto foi pego na armação que o Nanico fez para ele. Desde o primeiro dia de tranca, os dois fecharam juntos, dividindo o cigarro, a comida e os nós que davam na mente, além da segurança fisica deles. Marcos estava sentado na beira da beliche de concreto, batendo o calcanhar no chão num ritmo frenético. Aquela mania já estava irritando. — Aí, Piloto, na moral... controla essa ansiedade aí, parceiro — DG quebrou o silêncio, deitado na esteira no chão, com os braços atrás da cabeça. — Desse jeito vai cavar um buraco no concreto com o calcanhar. Segura a onda. Marcos parou o pé, soltando o ar com a cara amarrada. Passou a mão no rosto, sentindo a barba por fazer. — É f**a, DG. O bagulho tá doido na minha mente hoje, cara. O relógio dessa desgraça parece que não anda. Dez meses nessa mer.da a cabeça não para. DG deu uma risada curta, olhando pro teto cheio de infiltração e mofo. — Tu ainda tá no começo da tua condenação de cinco anos, parceiro. Se ficar nessa neurose de contar os dias, a mente pira. Tem que deixar o mundo correr lá fora e focar na realidade daqui. O que é nosso tá guardado. — Eu sei, pô. Mas hoje é o dia da visita, tu sabe como é — Marcos se inclinou, apoiando os cotovelos nos joelhos, de olho na grade. — Minha mente tá grudada na minha irmã, a Maju. Aquela garota é minha vida, irmão. Sempre fiz de tudo no asfalto pra não deixar faltar nada pra ela na Rocinha. Quando eu caí naquele golpe do Nanico, deixei a minha moleca sozinha. Tu sabe como é... sem ninguém por ela, sem um homem de responsabilidade em casa, os caras crescem o olho. Só quero ver o rosto dela hoje. Se ela ta bem na Rocinha. DG virou o pescoço devagar, olhando pro Piloto de igual para igual. Os dois sabiam o que era ser homem de palavra. Nenhum ali tinha aberto o bico para a polícia. — Mas vem cá... e a tua mulher? A Samara vem te ver? A cara do DG mudou na hora. O maxilar travou, a respiração ficou pesada. Samara era a esposa dele, a primeira-dama do Complexo, e a falta de notícias estava corroendo o cara por dentro. Ele voltou a encarar o teto e o silêncio na cela ficou pesado, cortado só pelos gritos dos outros presos no final do corredor. — Sei não, irmão — DG soltou, a voz seca, com um tom de pura frustração. — Nem consegui falar com a Samara. Os caras na pista estão incomunicáveis, o radinho não funcionou e ninguém me deu um retorno dela. Não faço a menor ideia se ela vem hoje ou se vai dar cano. Marcos deu um estalo com os dedos, achando aquela situação muito estranha. No mundo do crime, deixar o chefe no escuro total era sinal de perigo iminente. Não conseguiu? Que safadeza irmão... Mulher de bandido precisa fechar junto. To ligado que a vida é errada, mas por.ra. Tinha que dar recado, noticias. Teu irmão também pô, tinha que ta na responda dela contigo. Ele ta no trono lá, cuidado do teu morro, beleza... mas a Samara tinha que estar na fila desde o cantar do g**o com a tua sacola de comida. Isso aí é o que é o certo. DG deu um sorriso amargo, daqueles de quem já está farejando a traição de longe. Fidelidade na rua, é raro, Piloto, raro. A Samara colava junto com o DG de cordão de ouro, de moto e blindado, curtindo baile no camarote, bebida cara.. Tudo em dia. Silicone, cabelo, unhas, só bolo de maço. Esse aqui, de bermuda padrão do presídio, comendo comida r**m e dividindo cela, não serve pra ela não. u nasci nessa vida, parceiro. Sei bem como a engrenagem gira quando o dono cai. — Mas o Ruan é teu irmão, pô... Sangue do teu sangue — Marcos falou, mas a própria voz dele vacilou. No crime, a ambição cegava qualquer um. Família virava fumaça quando o assunto era o topo do morro. — Na hora do poder, não tem essa de irmão não, Marcos. Mas ta suave... — DG se sentou na marra, os olhos brilhando com uma frieza de assustar. — Logo, eu to na rua e vou botar ordem nessa por.ra. O Piloto engoliu seco, sentindo a energia pesada do parceiro. DG era o tipo de cara que não aceitava traição de jeito nenhum, e se ele estivesse certo sobre o irmão e a esposa, a Penha ia virar um mar de sangue quando ele ganhasse a liberdade. Antes que a conversa rendesse mais, o barulho das botas dos guardas começou a ecoar alto pelo corredor de concreto. O som do molho de chaves batendo nas grades de ferro fez a cela inteira ficar em alerta. Os outros presos que estavam deitados nas beliches se encolheram na hora. O policial parou bem na frente da grade da cela 4, segurando uma prancheta velha. Ele deu duas cacetadas fortes com o bastão na grade, fazendo um barulho irritante. — Marcos dos Santos! — o guarda berrou, lendo apenas um nome no papel. — Pé na linha. Bora, agiliza que a tua visita já passou pela revista e a fila tá andando. Marcos saltou da beliche, sentindo o coração bater forte no peito. A saudade, a vontade de ver a menor ali, a respiração presa, deu lugar a uma alegria enorme. Ele olhou de relance para o guarda, esperando ouvir o nome do companheiro de cela, mas o homem começou a destrancar a grade olhando fixo apenas para ele. Marcos se virou para o DG, sentindo um nó na garganta pelo parceiro. DG continuou sentado na esteira do chão, a expressão completamente travada, os olhos fixos na parede. O silêncio do chefe falava mais alto que qualquer grito. Ele realmente tinha sido esquecido pela mulher e pelo irmão. — Aí, irmão... — Marcos falou baixo, ajeitando a camisa branca pra ficar certinha, sem saber muito bem o que dizer. — Eu tenho visita, isso é bom... Mas pô, que f**a que não te chamaram. Força aí, parceiro. Mente firme. DG nem se mexeu. Apenas fez um aceno bem sutil com a cabeça, a mandíbula tão apertada que chegava a estalar. — Vai lá ver a tua irmã, Piloto — DG falou, com a voz assustadoramente calma e fria. — Garante que ela tá bem. Deixa que a minha conta eu resolvo depois. Marcos engoliu em seco, sentindo um calafrio com o tom do parceiro. Ele saiu da cela assim que a grade abriu, deixando para trás o homem mais perigoso da Penha alimentando uma fúria silenciosa no escuro daquela tranca. Marcos marchou pelo corredor em direção ao pátio ensolarado, ansioso para abraçar a Maju, sem fazer a menor ideia de que a vida da irmã dele também já tinha sido destruída pelas mesmas pessoas.
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