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Império Roubado

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Sinopse

Quando seu irmão Marcos, o "Piloto", é condenado a 5 anos de prisão por uma armadilha do próprio crime, a vida de Maju desaba. Expulsa da Rocinha sob a acusação injusta de que seu irmão era um traidor, ela é jogada no asfalto apenas com as roupas do corpo e o pouco dinheiro que conseguiu resgatar.Para sobreviver e fugir do perigo, Maju se esconde em uma kitnet decadente na Zona Norte, sem saber que se mudou exatamente para o quintal do Complexo da Penha — o império dominado por RN, o homem que assumiu o poder na base da traição e do sangue.

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1 - MAJU
Maju narrando O cheiro de café queimando na caneca era a única coisa que me mantinha de pé às quatro da manhã. Olhei para o reflexo que o espelho rachado do banheiro devolvia: uma garota de dezoito anos, com o rosto cansado, a pele pálida - desnutrida, olhar pesado pela falta de sono e olheiras escuras. Soltei meu cabelo preto ondulado, que estava preso num nó amassado, e passei os dedos pelos fios cheios de frizz antes de prender tudo de novo num coque bem firme. Voltei para a mesa bamba e encarei o prato de plástico. Duas bolachas de água e sal. Era o meu café da manhã de hoje. Molhei a primeira no café preto sem açúcar para ver se ela amolecia e enganava a fome que já estava fazendo meu estômago arder. Olhei em volta, para as paredes descascadas da kitnet abafada que cheirava a mofo e fumava de cigarro que vinha do corredor. O dono do lugar alugava os outros quartos por hora para mulheres da noite. Era um prédinho que funcionava como um bordel bem fuleiro no subúrbio, e agora tinha virado a minha casa. Meu esconderijo. Fazia exatamente dez meses que a minha vida tinha acabado e virado de ponta cabeça. Dez meses que eu tinha feito dezoito anos. Naquela época, eu achava que o maior problema da vida era decidir o que fazer depois de terminar a escola. Eu era muito boba. Dez meses atrás, o barulho do martelo do juiz bateu tão forte que pareceu um tiro na minha cabeça. — ...condeno o réu Marcos dos Santos a cinco anos de prisão em regime fechado. — Não! Marcos, não! — eu gritei com toda a força do meu peito, a voz quebrando. Corri para a frente, segurando na madeira do tribunal. Eu chorei, gritei, mas deu para ver os policiais segurando os braços dele e trancando as algemas de aço. Meu irmão olhou para trás, a voz firme, mas o olhar fraquejou - o fato dele me deixar sozinha, acabou com ele. Ele tentou gritar no meio do meu choro enquanto era arrastado: — Maju, vai para casa! Não chora, eu vou dar um jeito! Aí a porta pesada fechou e sumiu com ele. Levaram o Marcos. O meu irmão, o cara que fazia de tudo para não deixar faltar nada para mim dentro da Rocinha, agora era só mais um preso. Eu desabei ali mesmo no chão, chorando até soluçar, com o meu cabelo preto grudando no rosto molhado. Eu estava completamente sozinha no mundo. Quando desci do mototáxi na entrada da Rocinha, no fim daquela tarde, minhas pernas ainda estavam tremendo. Eu só queria o meu quarto, a minha cama para enfiar a cabeça no travesseiro. Mas, antes de passar da primeira barreira, três vapores armados entraram na minha frente. No meio deles estava o Nanico. O cara que vivia sorrindo para o meu irmão na semana passada, o mesmo safado que armou para o Marcos rodar na pista da polícia e quem dizia ser o dono dali. — Daqui tu não passa, Maria Júlia — o Nanico falou, cuspindo no chão e ajeitando a pistola na bermuda. — Nanico, por favor... Me deixa ir para casa. Meu irmão acabou de ser condenado... — Teu irmão é um verme! — ele berrou, para todo mundo na rua ouvir. — O esquema de assalto caiu porque o Piloto entregou a rota para os policiais. X9 não se cria aqui não. Tu tá expulsa do morro. Se pisar aqui de novo, vai morrer e o corpo vai parar na vala. Meu coração disparou de medo, mas ainda mais de raiva. Era a maior mentira. O Marcos morria, mas não entregava ninguém, só que a palavra do Nanico ali dentro era a lei. Engoli o choro, juntei as mãos e apelei: — Por favor... Deixa eu só pegar minhas roupas. Só isso. O Nanico olhou para um dos garotos armados e fez um sinal com a cabeça. — Vai lá. Dez minutos. Se demorar, o bicho vai pegar. Subi o beco com o coração na boca. O vapor foi colado atrás de mim, com o fuzil batendo no peito. Entrei na casa onde eu morava com o meu irmão e me segurei para não chorar mais. Abri o guarda-roupa correndo, joguei minhas blusas, duas calças jeans e o que deu de roupa dentro de uma mala velha. Mas eu sabia que precisava de dinheiro para sumir dali. Lembrei do esconderijo do Marcos. Fingi que ia pegar uns sapatos no fundo do armário, puxei uma madeira solta do piso e peguei um bolo de notas preso com elástico. Era o dinheiro de emergência dele. Enfiei tudo por dentro de uma blusa e enfiei no fundo da mochila. Tudo estava desmoronando e não sabia o que fazer. Saí correndo dali sem olhar para trás. Quando cheguei no asfalto, lá embaixo, já estava escurecendo. Eu sabia que não podia ficar perto dali, porque a notícia no crime corre rápido e eles podiam me pegar. Entrei no primeiro ônibus que passou, sem nem olhar o letreiro, só queria ir para longe. Acabei descendo horas depois em um bairro bem humilde, bem longe da Zona Sul. Não era favela, era bairro de asfalto mesmo, com ruas tortas, escuras e casas coladas umas nas outras. Entrei em um buteco de esquina para comer um salgado e ouvi um senhor de idade falando com o balconista que tinha vagado um quarto na pensão dele ali perto. Me levantei na hora e pedi para ver o quarto. O homem me olhou de cima a baixo, viu a minha mala velha, meus olhos inchados e falou o preço. Para ele não desistir de mim, puxei as notas amassadas do Marcos e paguei logo quatro meses adiantados de aluguel. O quarto ficava no fundo de um corredor escuro que fedia a cigarro, desinfetante barato e sujeira. A kitnet era simples demais, o banheiro só tinha um chuveiro fraco, a parede estava cheia de mofo e o colchão parecia uma tábua, mas era o único teto que eu tinha. Naquela mesma noite, fui até o mercadinho do bairro. Meu coração doía a cada centavo que eu gastava. Comprei desinfetante, sabão em pó, um lençol azul, uma toalha de banho e um edredom fino. Tudo do mais barato e da marca mais fuleira que tinha na prateleira. Eu precisava economizar cada centavo daquele dinheiro. Dei a última mordida na bolacha de água e sal e limpei as migalhas da calça jeans desbotada. Dez meses se passaram desde aquele dia de terror. Dez meses sobrevivendo de b***s de faxina, lavando roupa para fora, cuidando de criança no bairro... o que aparecesse. Só que o dinheiro que o Marcos tinha guardado já tinha acabado. O aluguel estava atrasado, indo para o segundo mês, o velho atrás de mim. A comida, estava no final e não sabia o que fazer, quem procurar. Terminei de passar um batom claro no lábio, ajeitei a gola da minha blusa de frio e peguei a minha sacola de feira. Hoje era dia de visita no presídio. Olhei para os potes de plástico que eu ia levar para ele. A comida hoje estava bem pouca, mas peguei o resto de mistura boa para levar para o meu irmão — arroz com bife, feijão, purê de batatas, algumas frutas e um bolo simples de fubá —, nada a ver com as comidas gostosas que as outras mulheres de preso levavam na fila. Mas era o que dava para fazer. Era o meu máximo. Prendi a sacola de feira no braço, respirei fundo e abri a porta da kitnet. Eu tinha que parecer forte pelo meu irmão. Tranquei o cadeado da porta, desci a escada escura e pisei na calçada do bairro, pronta para caminhar até o ponto de ônibus e enfrentar mais uma fila de presídio.

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