Capítulo 8

1181 Palavras
Dário Santoro ​Existe uma diferença muito grande entre comandar centenas de homens armados e tentar controlar uma única mulher. Os homens, pelo menos, costumam obedecer. Bianca Bellini, por outro lado, parece ter nascido com o único propósito de testar os limites da minha paciência. E, considerando os acontecimentos de ontem, começo a acreditar que o inferno não é um lugar. É uma garota de dezessete anos, com olhos desafiadores, língua afiada e uma capacidade impressionante de transformar qualquer ordem minha em uma discussão. Estou sentado atrás da mesa do escritório há quase uma hora, analisando os relatórios que Matteo deixou sobre a movimentação das famílias rivais. A situação está piorando. Dois carregamentos interceptados, três homens mortos e uma ameaça direta ao meu território. Os desgraçados estão ficando ousados. O problema é que, quando uma guerra começa, não são apenas os homens envolvidos nos negócios que se tornam alvos. Suas famílias também. E Bianca, gostando ou não, agora faz parte da minha. — Você está ouvindo alguma coisa do que estou dizendo? Ergo os olhos para Matteo, sentado à minha frente. — Infelizmente. — Então pode me explicar por que está olhando para aquela porta há cinco minutos? — Está querendo perder a língua? Ele sorri. Filho da p**a. — Só estou tentando descobrir se você está preocupado com os russos ou com a pequena Bellini. — Matteo. — Dário. — Continue falando e vou mandar arrancarem seus dentes. — Está vendo? É exatamente disso que estou falando. Antes dela chegar, você era um homem muito mais agradável. Encaro-o. — Eu nunca fui agradável. — Verdade. Mas agora está insuportável. Ignoro o comentário. — Quero dois homens na entrada principal, dois nos jardins e mais quatro fazendo a ronda externa. Ninguém entra nesta propriedade sem minha autorização. Matteo deixa de sorrir. — Acha que vão tentar alguma coisa aqui? — Acho que homens desesperados fazem escolhas estúpidas. — E a garota? Apoio as costas na cadeira. — O que tem ela? — Vai continuar proibindo a menina de sair? Solto um suspiro irritado. Ontem, Bianca decidiu que seria uma excelente ideia discutir comigo sobre sua liberdade de ir e vir justamente quando estamos à beira de uma guerra. Como se não bastasse, a maldita ainda conseguiu fazer parecer que eu era o vilão da história. O que, considerando minha reputação, não chega a ser uma acusação completamente injusta. — Ela quer fazer compras — respondo. Matteo arqueia uma sobrancelha. — E? — E eu disse que não. — Imagino que tenha aceitado tranquilamente. Olho para ele. O desgraçado começa a rir. — Pelo amor de Deus, Dário. Você realmente achou que aquela garota aceitaria uma ordem sem discutir? — Ela precisa entender que existem regras nesta casa. — E você precisa entender que Bianca Bellini não é um dos seus soldados. Fico em silêncio. Não porque ele esteja completamente errado. Mas porque odeio quando está certo. — Pode sair — ordeno. — Vai deixá-la ir? — Matteo. — Certo, certo. Já estou indo. Ele se levanta, mas para diante da porta. — Só uma sugestão, chefe. — Não pedi nenhuma. — Escolha bem suas batalhas. Porque, pelo que vi daquela garota, você vai perder algumas. Pego a primeira pasta sobre a mesa. Ele sai antes que eu tenha a oportunidade de arremessá-la em sua cabeça. ​Encontro Bianca na sala de jantar. Está sentada à mesa, usando uma das roupas que providenciei para ela depois que chegamos a Nápoles. Uma calça clara, uma blusa branca e os cabelos castanhos presos de qualquer jeito no alto da cabeça. Diante dela há um prato de frutas, uma xícara de café e uma expressão profundamente contrariada. Normalmente, eu ignoraria. Mas com Bianca aprendi que silêncio demais costuma significar problema. — Bom dia. Ela não levanta os olhos. — Depende para quem. Puxo uma cadeira. — Dormiu bem? — Maravilhosamente. Sonhei que estava em uma ilha paradisíaca, cercada de homens bonitos e sem nenhum mafioso autoritário por perto. Sirvo café na minha xícara. — Que pena ter acordado. — Uma tragédia, realmente. Observo-a levar um morango à boca. — Precisamos conversar. Ela finalmente me encara. — Se for sobre ontem, já aviso que continuo achando você um ditador. — Sua opinião sobre mim não é novidade. — Que bom. Estava preocupada que você tivesse esquecido. — Bianca. — Dário. Respiro fundo. Essa garota vai me matar antes que qualquer inimigo consiga. — Você poderá sair amanhã para fazer suas compras. Ela paralisa. Por um instante, parece genuinamente surpresa. Então estreita os olhos. — Quem é você? Franzo a testa. — Como? — Quem é você e o que fez com o verdadeiro Dário Santoro? — Não comece. — Estou apenas preocupada. Meu futuro marido acabou de demonstrar sinais de humanidade. Isso pode ser contagioso? — Sua saída terá condições. A expressão dela muda imediatamente. — Ah, pronto. Sabia que tinha alguma desgraça escondida nessa generosidade. — Você irá acompanhada pelos meus homens. — Quantos? — Quatro. Bianca larga o garfo. — Quatro?! — Está surda? — Santoro, eu vou comprar roupas, não invadir a Rússia! — Considerando a situação atual, talvez invadir a Rússia fosse menos perigoso. Ela me observa por alguns segundos. — Dois. — Quatro. — Três. — Quatro, Bianca. — Três e você paga tudo. Ergo uma sobrancelha. — Eu já iria pagar tudo. Um sorriso perigoso aparece no rosto dela. Deveria ter ficado calado. — Então três e você não reclama do valor. — Você está negociando comigo? — Estou. E, considerando que ainda não mandei você para o inferno hoje, deveria aproveitar minha generosidade. Passo a mão pelo rosto. Já negociei com homens que tinham armas apontadas para minha cabeça. Já sentei diante de chefes de organizações criminosas que matariam a própria mãe por alguns milhões de euros. Mas nenhuma negociação foi tão desgastante quanto esta. — Quatro seguranças — digo, encerrando a discussão. — E você não se afasta deles em hipótese alguma. Ela cruza os braços. — Três. — Bianca. — Dário. — Quatro. — Três e meio? Encaro-a. — Como diabos se contrata meio segurança? Ela dá de ombros. — Sei lá. Você é o mafioso. Resolva seus problemas administrativos. Por um segundo, sinto vontade de rir. Uma vontade completamente absurda. Consigo contê-la. — Quatro. Última palavra. Bianca fica me observando. Então estende a mão por cima da mesa. — Fechado. Olho para a mão dela. — O que é isso? — Um aperto de mãos, Santoro. Costuma acontecer quando duas pessoas civilizadas chegam a um acordo. — Não somos duas pessoas civilizadas. — Percebi. Mas estou tentando dar um bom exemplo. Aperto sua mão. Pequena. Quente. E surpreendentemente firme. — Você vai seguir todas as orientações dos meus homens — aviso. — Sim, papai. Solto a mão dela imediatamente. — Não me chame assim. Bianca abre um sorriso satisfeito. — Então pare de agir como se fosse meu pai. Levanto-me. Se continuar naquela mesa por mais cinco minutos, vou acabar cometendo um homicídio. Ou rindo. E, sinceramente, não sei qual das duas possibilidades seria mais preocupante.
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