Dário Santoro
Existe uma diferença muito grande entre comandar centenas de homens armados e tentar controlar uma única mulher.
Os homens, pelo menos, costumam obedecer.
Bianca Bellini, por outro lado, parece ter nascido com o único propósito de testar os limites da minha paciência.
E, considerando os acontecimentos de ontem, começo a acreditar que o inferno não é um lugar.
É uma garota de dezessete anos, com olhos desafiadores, língua afiada e uma capacidade impressionante de transformar qualquer ordem minha em uma discussão.
Estou sentado atrás da mesa do escritório há quase uma hora, analisando os relatórios que Matteo deixou sobre a movimentação das famílias rivais.
A situação está piorando.
Dois carregamentos interceptados, três homens mortos e uma ameaça direta ao meu território.
Os desgraçados estão ficando ousados.
O problema é que, quando uma guerra começa, não são apenas os homens envolvidos nos negócios que se tornam alvos.
Suas famílias também.
E Bianca, gostando ou não, agora faz parte da minha.
— Você está ouvindo alguma coisa do que estou dizendo?
Ergo os olhos para Matteo, sentado à minha frente.
— Infelizmente.
— Então pode me explicar por que está olhando para aquela porta há cinco minutos?
— Está querendo perder a língua?
Ele sorri.
Filho da p**a.
— Só estou tentando descobrir se você está preocupado com os russos ou com a pequena Bellini.
— Matteo.
— Dário.
— Continue falando e vou mandar arrancarem seus dentes.
— Está vendo? É exatamente disso que estou falando. Antes dela chegar, você era um homem muito mais agradável.
Encaro-o.
— Eu nunca fui agradável.
— Verdade. Mas agora está insuportável.
Ignoro o comentário.
— Quero dois homens na entrada principal, dois nos jardins e mais quatro fazendo a ronda externa. Ninguém entra nesta propriedade sem minha autorização.
Matteo deixa de sorrir.
— Acha que vão tentar alguma coisa aqui?
— Acho que homens desesperados fazem escolhas estúpidas.
— E a garota?
Apoio as costas na cadeira.
— O que tem ela?
— Vai continuar proibindo a menina de sair?
Solto um suspiro irritado.
Ontem, Bianca decidiu que seria uma excelente ideia discutir comigo sobre sua liberdade de ir e vir justamente quando estamos à beira de uma guerra.
Como se não bastasse, a maldita ainda conseguiu fazer parecer que eu era o vilão da história.
O que, considerando minha reputação, não chega a ser uma acusação completamente injusta.
— Ela quer fazer compras — respondo.
Matteo arqueia uma sobrancelha.
— E?
— E eu disse que não.
— Imagino que tenha aceitado tranquilamente.
Olho para ele.
O desgraçado começa a rir.
— Pelo amor de Deus, Dário. Você realmente achou que aquela garota aceitaria uma ordem sem discutir?
— Ela precisa entender que existem regras nesta casa.
— E você precisa entender que Bianca Bellini não é um dos seus soldados.
Fico em silêncio.
Não porque ele esteja completamente errado.
Mas porque odeio quando está certo.
— Pode sair — ordeno.
— Vai deixá-la ir?
— Matteo.
— Certo, certo. Já estou indo.
Ele se levanta, mas para diante da porta.
— Só uma sugestão, chefe.
— Não pedi nenhuma.
— Escolha bem suas batalhas. Porque, pelo que vi daquela garota, você vai perder algumas.
Pego a primeira pasta sobre a mesa.
Ele sai antes que eu tenha a oportunidade de arremessá-la em sua cabeça.
Encontro Bianca na sala de jantar.
Está sentada à mesa, usando uma das roupas que providenciei para ela depois que chegamos a Nápoles.
Uma calça clara, uma blusa branca e os cabelos castanhos presos de qualquer jeito no alto da cabeça.
Diante dela há um prato de frutas, uma xícara de café e uma expressão profundamente contrariada.
Normalmente, eu ignoraria.
Mas com Bianca aprendi que silêncio demais costuma significar problema.
— Bom dia.
Ela não levanta os olhos.
— Depende para quem.
Puxo uma cadeira.
— Dormiu bem?
— Maravilhosamente. Sonhei que estava em uma ilha paradisíaca, cercada de homens bonitos e sem nenhum mafioso autoritário por perto.
Sirvo café na minha xícara.
— Que pena ter acordado.
— Uma tragédia, realmente.
Observo-a levar um morango à boca.
— Precisamos conversar.
Ela finalmente me encara.
— Se for sobre ontem, já aviso que continuo achando você um ditador.
— Sua opinião sobre mim não é novidade.
— Que bom. Estava preocupada que você tivesse esquecido.
— Bianca.
— Dário.
Respiro fundo.
Essa garota vai me matar antes que qualquer inimigo consiga.
— Você poderá sair amanhã para fazer suas compras.
Ela paralisa.
Por um instante, parece genuinamente surpresa.
Então estreita os olhos.
— Quem é você?
Franzo a testa.
— Como?
— Quem é você e o que fez com o verdadeiro Dário Santoro?
— Não comece.
— Estou apenas preocupada. Meu futuro marido acabou de demonstrar sinais de humanidade. Isso pode ser contagioso?
— Sua saída terá condições.
A expressão dela muda imediatamente.
— Ah, pronto. Sabia que tinha alguma desgraça escondida nessa generosidade.
— Você irá acompanhada pelos meus homens.
— Quantos?
— Quatro.
Bianca larga o garfo.
— Quatro?!
— Está surda?
— Santoro, eu vou comprar roupas, não invadir a Rússia!
— Considerando a situação atual, talvez invadir a Rússia fosse menos perigoso.
Ela me observa por alguns segundos.
— Dois.
— Quatro.
— Três.
— Quatro, Bianca.
— Três e você paga tudo.
Ergo uma sobrancelha.
— Eu já iria pagar tudo.
Um sorriso perigoso aparece no rosto dela.
Deveria ter ficado calado.
— Então três e você não reclama do valor.
— Você está negociando comigo?
— Estou. E, considerando que ainda não mandei você para o inferno hoje, deveria aproveitar minha generosidade.
Passo a mão pelo rosto.
Já negociei com homens que tinham armas apontadas para minha cabeça.
Já sentei diante de chefes de organizações criminosas que matariam a própria mãe por alguns milhões de euros.
Mas nenhuma negociação foi tão desgastante quanto esta.
— Quatro seguranças — digo, encerrando a discussão. — E você não se afasta deles em hipótese alguma.
Ela cruza os braços.
— Três.
— Bianca.
— Dário.
— Quatro.
— Três e meio?
Encaro-a.
— Como diabos se contrata meio segurança?
Ela dá de ombros.
— Sei lá. Você é o mafioso. Resolva seus problemas administrativos.
Por um segundo, sinto vontade de rir.
Uma vontade completamente absurda.
Consigo contê-la.
— Quatro. Última palavra.
Bianca fica me observando.
Então estende a mão por cima da mesa.
— Fechado.
Olho para a mão dela.
— O que é isso?
— Um aperto de mãos, Santoro. Costuma acontecer quando duas pessoas civilizadas chegam a um acordo.
— Não somos duas pessoas civilizadas.
— Percebi. Mas estou tentando dar um bom exemplo.
Aperto sua mão.
Pequena.
Quente.
E surpreendentemente firme.
— Você vai seguir todas as orientações dos meus homens — aviso.
— Sim, papai.
Solto a mão dela imediatamente.
— Não me chame assim.
Bianca abre um sorriso satisfeito.
— Então pare de agir como se fosse meu pai.
Levanto-me.
Se continuar naquela mesa por mais cinco minutos, vou acabar cometendo um homicídio.
Ou rindo.
E, sinceramente, não sei qual das duas possibilidades seria mais preocupante.