Capítulo 1

1095 Palavras
A Aurora tingia o céu com sua paleta de tons suaves, amalgamando o rosa e o laranja em um espetáculo celestial, enquanto nuvens carregadas de um cinza escuro se erguiam nas distantes montanhas. Uma brisa gélida soprou sobre o barco, fazendo com que os passageiros se encolhessem em seus andrajos reemendados. O homem carrancudo, cuspiu na água e vociferou. _ ahh...maldita seja cinérea_ seus lábios ressecados tremendo de frio. Já não aguentava aquela sensação no seu corpo, como estivesse coberto por um manto gelado que penetrasse até seus ossos. Soprou com ar quente a mão. _ maldito seja os dedos de gelo que tocam minha carne. _pare de reclamar, estamos quase chegando_ o homem estava com tanto frio quanto seu amigo, estava sentado no recanto da embarcação com mais três pessoas. Seus ossos pareciam feitos de chumbo, sentia o corpo pesado como dores em todas as articulações, mas se mantinha ciente que reclamar não mudaria o curso do vento gélido de cinérea. _ o inverno, as tropas de guerras estão retornando, essa é nossa chance de ganhar dinheiro. Então guarde essa energia para o trabalho. O homem se calou, mas não ficaria calado, era um homem ansioso que gostava de beber e trepar até que desmaiasse nunca sabendo o que fizera por último. Sua língua coçou e ele falou. _e ela? Olharam para figura da mulher na dianteira da embarcação. _ como ela não sente frio? Na proa do barco, a garota permanecia solitária, seus dedos delicadamente tocando a superfície ondulante da água, enquanto contemplava o seu reflexo sinuoso, perdida em pensamentos. _ uma bruxa!!_ exclamou. os olhos da garota se fixaram no dos camponeses e eles rapidamente abaixaram a cabeça. O barco sulcava as águas serenas do rio, rumando silenciosamente em direção ao modesto vilarejo de cinérea. três dias de frio naquele rio traiçoeiro, haviam se passado, desde a partida de Valentia, uma jornada habitual naquelas paragens, porém, a a******a das minas era um sinal dos tempos sombrios que assolavam a região. Uma guerra se desenrolava a oeste de Nivedram, empurrando os homens para as entranhas da terra em busca de riquezas, embora o preço fosse pago em sangue e toxinas que manchavam suas mãos e enevoavam suas vistas com um azul funesto. Cinérea, ainda dava esperança para homens que não queriam ir para batalha morrer por uma causa que não era sua. Mas o lugar agora abençoada e amaldiçoada pelas minas, tornara-se um ímã para os desesperados em busca de fortuna fácil. Contudo, onde a riqueza jorra, o m*l também se infiltra, transformando a terra em berço para homens sem lei, cujos atos de violência e crueldade manchavam cada pedra e cada alma daquele vilarejo empobrecido, onde as rédeas do poder eram puxadas pela mão de ferro de nobres a favor de Nivedram. Os homens tremiam na polpa, suas vestes esburacadas, qual sombras traiçoeiras, abriam caminho para o álgido adentrar seus corpos já enfraquecidos. Uma mãe abraçava seu filho, seus dedos compridos e esqueléticos se perdiam nos cachos da criança, numa tentativa desesperada de manter o calor nas pontas dos dedos; um homem mantinha sua mão dentro do calção, seus lábios roxos, descascando uma camada de pele morta. Outros se aglomeravam em abraços apertados, buscando consolo mútuo e um pouco de calor. Os murmúrios sobre ela ecoavam entre eles, um sussurro de temor. Tinham medo de que fosse uma feiticeira de Arden; seu capuz n***o, suas botas, não eram de uma garota do vilarejo. O receio pairava; pessoas normais sentiam frio, mas aquela garota era estranha, não havia comido desde que subira no barco, permanecendo sentada ao longo dos três nasceres do sol. não abrira a boca, a não ser para murmura para si mesma, com seus olhos perdidos. Eles a evitavam, até olhar nos seus olhos azuis causava medo. O capuz sombrio escondia parte de seu rosto. deixando apenas vislumbres fugazes de sua expressão intrigante, seus olhos estavam distantes. _Eleanor...Eu sou agora Eleanor_ murmurou para o reflexo na água. O toque gelado da água fazia arrepios percorrerem sua pele, mas se sentia cativada pela sensação. Enquanto os tímidos raios do sol lutavam para se refletir na superfície, a garota mergulhava cada vez mais fundo na culpa. Poderia pedir, implorar para as madres. Inventara tantas histórias em sua cabeça que não sabia qual delas as fariam ser aceita de volta. não se reconhecia, o que estava fazendo. queria entrar na água e ficar submersa, perdida nas suas próprias mentiras. Estava feito. Enfrentara todas as altas madres, fugira quando poderia ter explicado, cometera um ato condenável, mas motivado por uma causa nobre; elas precisavam compreender que suas ações foram inevitáveis. Contudo, não havia mais retorno, agora estava consumado. Desde que embarcara naquela noite no barco pesqueiro, a garota que um dia fora estava agora morta, dando lugar a Eleanor, uma mulher sonhadora que buscava uma nova vida nas minas. Uma mecha deslizou por sua face, e ficou pendurada cobrindo parcialmente seus olhos, suas bochechas estavam rubras, uma geada lhe tocou o rosto, balançando levemente seus cabelos. ela sentiu frio penetrar suas vestes, mas aquilo não a atormentava tanto quanto, as palavras sussurradas em sua mente. “você agora está sozinha.” Se encolheu envolta em seu longo manto escuro, o tecido sedoso lhe abraçando a pele. _Eleanor..._ repetiu mais uma vez tirou os dedos da água e jogou a mecha atrevida para trás da orelha, retirou o capuz, deixando o dia vislumbra seu rosto. Delicado, exibia uma harmonia sutil, onde cada traço parecia cuidadosamente esculpido. Com uma boca pequena, mas expressiva, seus lábios formavam um arco suave, sugerindo uma constante aura de gentileza. Seus olhos, grandes e delineados, capturavam a luz ambiente, revelando um brilho inquisitivo e uma profundidade cativante. Sob o manto, usava um corpete justo, adornado com detalhes em metal n***o que reluziam à luz fraca da aurora. Suas botas de couro robustas, os braceletes que adornam seus pulsos tilintaram. E os passageiros na popa olharam para ela e abaixaram a cabeça quando a viram e toda aquela aura enigmática, uma bruxa de Arden poderia matar todos e tomar seus corpos como escravos. Eleanor notou quando a criança se encolheu nos braços da mãe, o rosto marcado pelo medo. A ideia de se aproximar só intensificava a sensação desconfortável dentro dela. Em Valentia, era conhecida como a parteira que cuidava com carinho dos nascimentos, e nunca uma criança a olhara com tal expressão de temor. Desviando o olhar para a água, questionou-se sobre o que mais poderia fazer ali. Sentia-se indesejada; não apenas temida, mas também desprezada por todos ao seu redor.
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