Entrei em meu quarto achando Vikram sobre minha cama com um bloquinho em mãos e um lápis fazendo alguma coisa e eu sorri tentando não demonstrar que estava quase explodindo em conflitos internos.
– Oi, Vicky.
Cumprimentei assim que tranquei a porta e ele olhou para mim e sorriu de volta receptivo.
– O que foi que aconteceu, hm?
Ele pergunta ainda rabiscando o que quer que fosse naquele bloco.
Um leve gelo me subiu pelo estômago não crendo que em segundos ele já havia percebido que tinha algo errado comigo.
– Sobre o que você está...-
Antes que eu pudesse perguntar sobre seu questionamento ele balançou a cabeça e trazendo o bloco até mim para que eu pudesse ver o que ele fazia alí.
– Já fazia muito tempo, muito tempo mesmo, que eu não desenhava nada.
Ele comentou enquanto eu observava aquele desenho calmamente em minhas mãos.
Era uma gaiola com dois passarinhos dentro.
Um mais escuro e um mais clarinho apenas diferenciados pela intensidade do grafite, já que não haviam lápis de cor em meu quarto.
– Bom, eu desenhei aquela casa lá na escola, mas aquilo não significa muita coisa.
Comentou ele meio conflitado, mas eu apenas me sentei na cama não ligando muito para postura, pois aquele dia já tinha sido estressante o suficiente.
– Você é bem talentoso. Já pensou em ser um profissional?
Perguntei desconversando totalmente de sua pergunta sobre o que havia acontecido, e vi ele sorrir brevemente e dar de ombros.
– Quem sabe...
Vikram deixou no ar pulando para cima do guarda roupas novamente e eu n**o rindo vendo que ele não tinha jeito mesmo.
Victor POV
Subo as escadas de dois em dois degraus já sentindo meu corpo reclamar um pouco, mas ignoro por hora e bato na porta do escritório de papai.
Assim que sou autorizado a entrar, o faço.
Ele me olha e não dá a mínima, como sempre.
– O que faz aqui? Não estava estudando com seu noivo?
Perguntou ele pouco interessado e eu revirei os olhos me servindo um pouco de whisky sabendo que ele provavelmente não iria querer me escutar assim como da outra vez.
– Papai, o senhor não vai fazer nada? Eu disse onde ele está e...-
Sou cortado por ele que jogou os papéis que outrora estavam em suas mãos na mesa e cruzou suas mãos na frente de seu rosto.
– Victor eu já lhe disse que não!
Autoritário ele se pôs de pé batendo as mãos na mesa e eu nem mesmo esbocei um traço de medo sequer.
Eu não tenho medo dele.
– Seu irmão morreu, não pense que vá se safar desse casamento e de herdar a empresa, pois você não vai!
Berrou ele com seu rosto já tomando a cor carmim, então engoli todo o líquido do copo batendo com o mesmo em sua mesa.
Até teoricamente morto Vikram era o preferido de papai, e isso era simplesmente repugnante.
Eu estava com raiva e sabia que meus olhos já estavam ficando vermelhos novamente, pois podia ver o terror nos de papai.
– Se você se n**a a acreditar, eu mesmo farei.
Sentindo espasmos atingirem meu rosto pela força da raiva que eu sentia, eu ralhei em sua direção e o vi recuar.
– E quanto a essas coisas que disse, eu as quero...
Fazendo pouco caso eu dei de ombros pouco interessado no que ele pensava.
– Terei tudo o que era dele e ele mesmo está ciente disto!
Disse cada palavra sibilando e apertando meus caninos contra meus lábios que sangravam pelo contato.
O pavor de meu pai era visível, mas eu não queria saber, eu queria que ele matasse Vikram de vez.
Mas ele não acreditava no fato de que ele estava vivo e dentro da casa dos Black.
Na verdade, ninguém dentro e fora daquela casa acreditavam em mim para coisa alguma.
Então eu mesmo teria que resolver essa situação.
Saí de seu escritório limpando minha boca com minhas mãos e lambendo o sangue das mesmas.
Ao entrar em meu quarto vejo meu empregado que estava alí de prontidão como sempre e, ao me ver sangrando, ele vem até mim me entregando um lenço.
Sequei brevemente as feridas de meus lábios com aquele lenço enquanto sentia a raiva borbulhar dentro de mim como um vulcão em erupção.
Isso apenas me fez sentir mais dor e, consequentemente, fraqueza.
Me vendo tontear levemente, meu empregado veio até mim me segurando pelos braços preocupado e me colocando sentado em minha escrivaninha.
– Traga meus remédios.
Ordenei áspero com minha voz atravessando o ambiente escuro e olhei para um espelho logo acima da escrivaninha olhando meu estado completamente decomposto e deturpado.
Grunhi levemente sentindo algumas pontadas e respirei fundo tentando fazer com que aquilo não me dominasse.
– Aqui estão, senhor...
Abaixou ele a bandeja que possuía os três potes de analgésicos diferentes e eu peguei uma pílula de cada um engolindo uma após a outra.
– Não as leve de volta.
Ditei enquanto tirava os frascos da bandeja colocando dentro da primeira gaveta de minha escrivaninha.
– Mas senhor, isso não é...-
Antes que ele pudesse dizer mais qualquer coisa eu virei meu rosto para ele transtornado.
– Eu mandei deixá-las aqui e acabou! Quer me ver sentindo dor?!
Perguntei de maxilar cerrado, coisa que fazia potencializar aquela dor, mas não me importava.
– Não senhor, o bem estar do senhor é minha prioridade!
Ele se curvou submisso e eu levantei meu queixo altivo sentindo mais uma vez aquela dor latejante quase me deixar louco.
– Droga!
Gemi deitando minha cabeça sobre a escrivaninha e escutei meu empregado estalar a língua nervoso e inseguro.
– O senhor quer que eu chame o Dr. Silver para o examinar?
Perguntou Sam e eu respirei fundo não aguentando mais sentir aquilo, mas sabendo que se o médico viria aqui eu teria que me preparar emocionalmente.
– Sim. Mas evite de que papai e Danny saibam.
Respondi vendo ele afirmar e sair do quarto obediente.
E após repensar sobre tudo, meus pensamentos por Vikram não mudaram.
Eu ia acabar com ele, nem que eu tenha que perder o resto da saúde que eu não tenho.
Armin POV
Enquanto a água do chuveiro caia sobre meu corpo eu repensava várias vezes sobre o que eu tinha visto naquele quarto e sobre o que eu tinha ouvido de Niki.
Minha mente não conseguia formular algo coerente suficiente para juntar aquelas duas informações.
Vikram era alguém importante e era alguém bem visado mas, de repente, em seu aniversário morreu tragicamente de um acidente de carro e ninguém conseguiu achar seu corpo.
Como isso era possível?
Apenas por ter o híbrido do lado de fora do banheiro cantando suavemente uma melodia qualquer com sua bela voz eu já posso descartar completamente a sua morte.
Então se a morte era um fato errado, o que mais nessa história também poderia ser?
Saí do banheiro ainda pensando naquela foto de Victor com seus irmãos e na maneira como ela estava posicionada.
Parecia haver certa harmonia entre os irmãos, como se eles não passassem apenas de uma família feliz.
Coisa que no momento eles estavam longe de ser.
E como Daniel também não era híbrido? Será que ele é bastardo?
Tudo é muito intrinsecamente embolado nessa história.
Estava prestes a me deitar quando Vikram começou a espraguejar baixinho sobre alguma coisa de maneira que começou a me incomodar.
– O que tanto te incomoda?
Indaguei afofando um de meus travesseiros observando ele fazer uma leve careta ainda deitado sobre o guarda roupas.
– Apenas o fato de eu ter que dormir aqui nesse local empoeirado enquanto você dorme aí quentinho...
Choramingou ele se sentando e eu vi suas pupilas se dilatarem de forma inumana. E entre seus choramingos eu jurei ter escutado um breve miado e isso me fez rir.
– Você está miando para me convencer a dormir aqui?
Apontei para a minha cama um pouco surpreso com aquilo e vi seu rosto enrubescer por completo.
– Eu não miei. Tenho uma conduta humana.
Disse ele sério como se eu tivesse acabado de ofender ele, então isso me fez soltar uma risada incontrolável.
Por um lado, isso era bom, já que me distraía dos problemas por alguns segundos. Mas por outro, ele não parecia estar se sentindo muito bem concernente ao seu óbvio miado.
– Sim, entendo, Sr. Humano.
Dei ênfase no "humano" vendo ele enfezar suas orelhas ainda ofendido.
– Vai me deixar dormir aí ou não?!
Perguntou ele cruzando os braços enquanto eu me enfiava embaixo do edredom não muito convencido daquilo.
– O engraçado é que foi você que saiu de sua linda caminha no chão para dormir aí!
Apontei para ele que semicerrou os olhos pouco receptivo a aquela crítica.
E diante de sua reação suspirei pensando melhor.
Aquele híbrido já estava na mais completa - desculpe-me a expressão - merda, e por isso eu estava sendo meio tirano de deixar ele dormindo daquela forma.
Sem contar que, se ele não me atacou até agora, não vai me atacar mais.
– Você pode dormir na cama hoje. Mas só hoje!
Cedi o alertando e vi ele mudar de pobre coitado revoltado para feliz, radiante e descompensado em questão de segundos.
Ele pulou de lá de cima e se jogou ao meu lado fazendo pobre minha cama velha ranger em protesto.
– Boa noite, vá dormir. E sem gracinhas!
O alertei e ele sorriu se enrolando para dormir cobrindo seu corpo até a altura de seus olhos, e seu corpo parecia ter uma temperatura bem mais alta que a minha, já que ele imediatamente esquentou a cama com sua presença.
De certa forma aquilo era maravilhoso para uma época do ano como aquela, já que estávamos no inverno.
E, por algum motivo, mantive meus olhos fechados, mas meus pensamentos me mantiveram acordado.
Pensava em Theodore, que deveria estar nesse momento estudando canto com Tyrone e o ensinando.
Sentia falta dele e de seus chiliques em nossas conversas noturnas pelo telefone.
Pensava em meu noivado que parecia um pesadelo, mas eu nada podia fazer por aquilo, já que meu pai e meu irmão agora uniram forças para me ver casado com aquele maluco.
Mas quando meus pensamentos iam vagar em outra direção, eu senti a cauda de Vikram passar por minha bochecha levemente.
Franzi o cenho meio sem saber o que ele estava fazendo, mas me mantive de olhos fechados pensando ser apenas alguma coisa involuntária dele.
– Me desculpa te fazer passar por isso tudo.
Aparentemente ele deve estar achando que eu já dormi, e por isso estava falando daquela forma murmurada achando que eu não estava o escutando.
Mesmo me sentindo meio m*l por estar escutando aquilo ainda acordado sem ele saber, eu me mantive quieto.
– Eu vou te retribuir por tudo. Eu prometo.
Sua cauda estava descansada em meu pescoço e eu escutei sua voz chegar mais perto assim como seu calor também.
Confesso que estava ficando mais difícil me manter calado, mas mesmo assim continuei.
– Prometo que sua mão voltará a ser minha.
Ele murmurou enquanto sua cauda agora descia por meu braço e, diante daquela revelação eu quis gritar.
Eu era noivo de Vikram?!
– Mesmo que você não me ame...
Comentou ele baixinho agora substituindo sua cauda por sua mão segurando a minha respeitosamente sem encostar em mais lugar nenhum.
– ...eu irei dar o meu máximo para isso.
Soprou ele completando sua frase e senti todo o meu corpo se arrepiar em protesto.