É domingo de manhã e Alfonso corre à beira — mar aproveitando a tranquilidade e a quietude das ondas. Seus olhos estão cansados porque ele não conseguiu dormir a noite toda e não queria mais ficar no quarto. Ele evitou ir cedo para a cozinha, pois não queria esbarrar em Lúcia e pensar novamente no que aconteceu ontem.
Porém, ele sabia que em algum momento todos teriam que descer para tomar café da manhã e com certeza ele a veria arrumando a mesa, então decidiu colocar seus pensamentos em ordem e agir como se nada estivesse acontecendo.
O café da manhã continuou como de costume, um grande banquete de frutas frescas, doces e outras coisas que foram encomendadas especificamente para todos em sua lista de preferências. Alfonso sempre evitou comer morangos e nozes porque seu corpo reagia com forte alergia a esses alimentos. Alondra não comia nada com açúcar, os amigos não comiam pastéis, Mateo e Felipe iniciam o café da manhã com suco verde e acompanham todas as refeições com água pura.
— Você deveria tentar o jejum intermitente, é ótimo para obter seu abdômen.
— Você fala isso porque seu pai já te operou, certo?
— ha ha somos super naturais
— Claro que seu nariz é prova disso.
— Alondra e você? o que você fez cirurgia?
— Operado? nada, mas acho que vou tentar jejuar
— Rápido? são loucas
— Alfonso, você fala isso porque tudo que você come desaparece, mas em vez disso respiramos e inchamos.
— ha ha ha Alfonso come alguma coisa e vai ao banheiro
— ha ha ha
— Como você é nojento, Felipe.
— É a verdade hahahaha
Lixohhh
— O que foi isso?
— Nem idéia
Ouviu — se um barulho alto na cozinha mas nenhum deles se levantou, continuaram a conversa e as risadas, quando terminaram de tomar o café da manhã apareceu Lucía que ficaria encarregada de tirar e limpar a mesa. Enquanto fazia suas coisas, Alfonso percebeu que a garota tinha um curativo na mão direita. Também pude ver que ele segurava as coisas com dificuldade, talvez o som de um momento atrás tivesse a ver com o ferimento em sua mão.
— Vamos para a praia Al, vamos pegar as motos.
Marco tirou — o de seus pensamentos e o seguiu até a praia onde as meninas já estavam passando protetor solar sob os guarda — chuvas e Felipe estava escolhendo a moto que iria usar. Assim a manhã passou calma e repleta de desportos náuticos onde os meninos aproveitaram a velocidade e as meninas aproveitaram os raios de sol. Como era de costume, Alfonso pegou seu livro e foi procurar sossego e sombra caminhando pela Ilha. Quando finalmente encontrou um lugar isolado, colocou os fones de ouvido, os óculos e abriu o livro que estava lendo pela quinta vez.
Graças à brisa do mar e à sombra da vegetação aliadas à música relaxante que ouvia, conseguiu fechar os olhos e adormecer. Só quando sentiu o deslizamento do livro abriu os olhos e ao se levantar do lugar onde estava deitado viu Lucía à beira — mar. Procurou não fazer barulho e sentou — se para observar o que a menina, que não sabia nadar, fazia diante daquele mar agitado. Ele a observou arregaçar as calças, tirar os sapatos, sentar — se e mergulhar os pés na água. Quando ele estava prestes a se levantar para voltar para casa e conversar com os amigos antes de se preparar para voltar à realidade, ele a viu pegar várias pedrinhas e colocá — las perto dela.
— SERVA — SE SUA MALDITA BRUXA DA ÁGUA
— SUCO VERDE FEDE COMO GRAMA MOLHADA
— DEIXE ELES OPERAREM NO SEU CÉREBRO, SEU MUDO
— DAMN, QUERO COMER MORANGO FRESCOAAAAASSSSSS AHHHHHH
Alfonso percebeu imediatamente que a menina estava liberando toda a sua raiva reprimida diante dele, atirando pedras no pobre mar. Falando sobre seus amigos e sobre si mesmo. Ele não sabia o que fazer, deveria ficar chateado e mandá — la embora da Ilha imediatamente por se comportar daquela maneira. Eu deveria ir e enfrentá — la. Ao contrário de tudo isso, ele apenas começou a rir. Ele se levantou, com muito cuidado para não fazer barulho, e seguiu pelo mesmo caminho que veio sem que ela percebesse.
Marco e Felipe foram os primeiros a sair, precisavam voltar aos treinos intensos já que estavam prestes a iniciar o campeonato e semanas de grande exigência os aguardavam. Alondra e as irmãs Hinojosa não voltariam com Alfonso no mesmo iate porque já haviam descansado bastante e perdido as festas e encontros mais divertidos a que estão acostumadas. Alfonso decidiu dormir mais uma noite na ilha antes de voltar para casa, contrariando o que havia combinado com o pai. Ele nem entendia o motivo mas sentia a estranha necessidade de ficar sozinho por pelo menos algumas horas.
Quando todos saíram, o silêncio ficou mais agradável. Deitou — se numa das redes da praia, abriu novamente o livro e adormeceu novamente. A brisa do mar embalou — o para dormir e os últimos raios de sol acariciaram — lhe o rosto quando ouviu uma voz a chamá — lo.
— Jovem Afonso
Eu não queria abrir os olhos.
— Jovem Alfonso, com licença.
Queria dormir um pouco mais, afastar — se de tudo por mais um segundo.
— Sr. Castelo.
Ele odiava ser chamado assim, o senhor Castelo era o pai dele, ele não era. Ele queria ser Alfonso, nada mais. Ele abriu os olhos e virou o rosto rapidamente para encontrar diretamente os olhos de Lúcia, que olhava tão de perto que seus narizes quase podiam colidir. Ele se assustou assim como ela e caiu da rede.