17. Desejado e Rejeitado (PT.2)

1786 Palavras
Hotel acima, com o desespero corroendo minha alma, senti como se o peso do mundo fosse me fazer enlouquecer. Por entre os corredores idênticos, me senti num labirinto, feito Alice correndo atrás do coelho branco. Como eu a queria, como precisava dela, estava caminhando lado a lado de meus sentimentos, eram eles dignos de loucura. Bati incontáveis vezes na porta de seu quarto, ao ponto de querer estraçalhá-la. A porta se destrancou e abriu, lá estava ela, usando mais um de seus hobbys de seda, com es cabelos presos no alto da cabeça, sem maquiagem, fumando um cigarro com uma piteira longa. Pude encarar seus olhos, estavam desesperadamente tristes, quanto mais ela levantava o rosto, mais eu via que ali estava uma marca vermelha latejante. Ela me abraçou, antes que eu pudesse lhe dizer qualquer coisa, e chorou de soluçar agarrada ao meu peito. Usei meus braços para afagar seu corpo, ela estava destruída por dentro, já que não demorou muito tempo para eu sentir o tecido de minha camisa encharcado por suas lagrimas. Puxei seu queixo, queria ver seu rosto mais uma vez, queria ter certeza de que meu coração bateria freneticamente, e que minhas pupilas dilatariam, e foi o que de fato aconteceu. Será que ela se sentia segura em meus braços? Os buscava para chorar em paz? Ela se quebrou diante de mim, mostrando-me seu lado mais frágil, tão diferente da mulher poderosa que se apresentava nos palcos. Chorava feito uma criança, amargurada pela vida que o destino lhe dera, não havia resquícios de calma presentes em seu desespero, pelo contrário, duraria. — A última vez que vi uma mulher chorar daquela forma, fora quando meu pai tinha sido preso, quando os policiais invadiram nossa casa, quebraram as portas e janelas, apontaram os canos de suas armas para o rosto de minha mãe, que mesmo em desespero, para seus filhos tentava se mostrar forte. — Havia força em Amelia, em seu desespero, em suas palavras soluçantes e indecifráveis. Apenas uma mulher poderia expressar esse tipo de força. — O que aconteceu? — Afastou-se mim, encarou-me com os olhos inchados, ainda chorosa. — Feche a porta, não quero que me vejam assim. O fiz, Amelia correu para o armário de bebidas, das mais caras que alguém naquela cidade poderia ter. Encheu dois copos, tragando aos poucos o cigarro em sua piteira. Seu olhar era como se o mundo todo estivesse em desgraça, como se a felicidade ainda não tivesse nascido. Por quela me sondava com aquele olhar? Me odiava agora? Esquecera das súplicas que havia me feito? Pensei que talvez estivesse escolhendo as melhores palavras, as menos dolorosas, e temi que ela fosse terminar tudo o que tinha comigo naquela noite. — Pelo amor de Deus, mulher! Que diabos está acontecendo? Veio desfilando em minha direção, eu estava sentado em sua cama, sentindo a brisa da madrugada bater em minha nuca, como senti medo de suas palavras. Entregou-me ambos os copos e despiu-se em minha frente, mostrando-me uma marca roxa em suas costelas. Senti uma pressão em meu coração, primeiro o rosto e agora seu corpo. Eu sabia quem havia feito aquilo, o mataria com minhas mãos, a fúria que ver aquilo causou em meu coração fora tão grande, que poderia fazer com que o mundo se partisse ao meio. Mas sua mão, fria e pequena, veio em direção ao meu rosto, trazendo-me a sanidade, beijou meus lábios, trazendo o gosto salgado de suas lagrimas em seu beijo. — Não me deixe, por favor... — O que está falando? — Ela tomou seu copo de minha mão, virou-se de costas para mim, e em seguida voltou seus olhos heterocromáticos de volta aos meus. — Olhe para mim, Carter! Olhe meu corpo! Tenho quase quarenta anos! Tem ideia de quantos homens já estiveram dentro de mim? Tem ideia de que meu corpo velho não presta mais! Só presta para... para... — Engoliu as palavras com um gole de sua bebida. — Você sabe. — Gosto do seu corpo do jeito que ele é. — Levante-me para beijar sua face, tocar sua pele, mas ela se soltou dos meus braços, soluçando enquanto bebia de seu corpo, terminando-o em um único golpe e já indo enchê-lo novamente. — Não devia beber tanto! Ainda mais nesse estado. — Se soubesse o que está me acontecendo, diria que estou bebendo pouco! — A amargura que ressoava em suas palavras era dolorosamente irônica. Fui até ela, quase me ajoelhando aos seus pés, estendi uma e minhas mãos até a sua, puxando-a novamente para perto de mim. Como queria que aquela mulher fosse apenas minha. — Me conte. É me contar o que lhe aflige, não precisa levar isso sozinha. O rádio de seu quarto estava ligado, tocando uma valsa depressivamente triste. Consegui tirá-la de perto das bebidas, a trouxe para cama, sentei-me acariciando seus cabelos desgrenhados e presos, quase os libertando. — Não preciso lhe contar nada, Carter! Você sabe! Sabe que quem se deita nessa cama comigo é o Dantas! Sabe que tenho que dizer que o amo! Mas eu não amo! O odeio com todas as minhas forças! Por deus! O amaldiçoo. — Foi ele quem fez isso com você? — Apontei para a marca roxa, lembrando-me de ter visto outras incontáveis anteriormente. — A quanto tempo ele lhe faz isso? — Disse segurando a raiva em minha garganta. — Ele sempre fez isso! — Meus olhos se arregalaram, aquilo que meu pai havia dito era verdade, Amelia nunca havia deixado de estar com Dantas Montenegro. — Não me olhe assim! — Derramou mais algumas lagrimas, e em seguida veio para meu colo, derrubando-me no colchão, deitando-se ao meu lado em seguida. — Quando o Rubens estava vivo... vocês... Ela mordeu os lábios inferiores, soltando mais algumas lagrimas dolorosas. Assentiu lentamente. — Um sempre soube do outro! Eu fui enfiada entre os dois, e nunca me perguntaram nada! Minhas vontades nunca foram questionadas! Acho que nunca tive chance de amar alguém... — Respirou fundo, sequei suas lagrimas com meu polegar. — Até conhecer você de verdade. Meu peito disparou, meus ouvidos não podiam acreditar naquilo que ela havia dito, de uma forma tão simples, tão singela... ela não poderia ter escolhido momento melhor. — Isso... é isso mesmo o que eu ouvi? Ela assentiu, agora incontáveis lagrimas desciam de seus olhos. — Como poderia não sentir isso por você? Olhe jeito que me olha! É como se eu fosse um tesouro em suas mãos! Nenhum outro homem parou para ouvir o que sinto. Nenhum deles! Muito menos os que pagavam para estar comigo. E eu quero que isso dure! Por deus! Desejo do fundo de minha alma que isso dure! — Por que não duraria? — Acariciava seu rosto, tentando impedi-la de continuar chorando, seu rosto era belo demais para chorar, deveriam as lágrimas se sentirem insultadas ao descerem por uma face tão angelical. — Acho que amo você, Amelia. Amo tanto que sinto meu peito explodir quando estou com você... nunca senti isso por ninguém... essa coisa dói demais! — Eu não consigo acreditar nisso! Você é jovem! Pode ter o mundo inteiro aos seus pés... Calei suas palavras com beijo. — Você é o único mundo que posso desejar ter! Voltei a beijá-la, dessa vez estando e cima dela, olhando-a tão de perto, sentindo sua respiração quente e chorosa. Ela era tão bela, como se a encarnação da beleza tivesse nascido consigo. Ela era como o vento que enchia os meus pulmões, alegrava-me como a primavera, revigorava-me como o mais santo balsamo de vida. Deus! Eu a amava intensamente. Admirei seu corpo, seu rosto com as linhas que o tempo a havia dado, seus seiös fartos, levemente levados para baixo, os seiös que haviam alimentado alguém, os seiös que poderiam ter alimentado um filho meu. Fui descendo os olhos por toda a extensão de seu corpo, vendo o ventre que tinha gerado, ainda que por pouco tempo, algo que nós dois havíamos feitos. Ela era perfeita em seus detalhes inacabados, ela era, ou pelo menos deveria ser, totalmente minha. — Não consegue tirar isso da cabeça, não é? — Perguntou-me, quando notou que eu não conseguia tirar os olhos de sua barriga. — Assumo que me chocou um pouco. Talvez numa próxima eu esteja mais preparado. Ela sorriu, finalmente abriu um longo, belo e arqueado sorriso. Beijei seus lábios mais uma vez, desejando adentrar em si, e estar ali por uma longa e interminável noite. Querendo mão apenas fodê-lä, mas sim amá-la, da forma mais pura e sincera de amar uma mulher divina feito aquela. Queria fazer com que o mundo parasse, para que ela fosse minha, não apenas escondido por entre noites, mas sim em todas as manhas e tardes de minha vida. Deus do céu! Eu estava perdidamente apaixonado por Amelia Montenegro. Ainda estando num dos beijos mais intensos e tristes de minha vida, dentre um dos momentos em que eu acariciei seus cabelos, dessa vez os libertando, vi a mulher que conquistou meu coração, nua diante de meus olhos, era como o céu estivesse diante de mim, eu não poderia fazer outra coisa senão amá-la ali, com todas as minhas forças. Passei as mãos por seu tronco, descendo meus lábios em busca de beijar tudo que estivesse eu seu corpo. Queria fazê-la se sentir amada em cada átomo de sua extensão. Ela se abriu para mim, com as flores mais belas da primavera, esperando pelo momento em que eu adentraria em si. Porém, me levantei ao reconhecer o som que saia do rádio. Can´t Help Falling in Love, como essa música me passava uma sensação boa, me fazia lembrar de quando meu pai ainda morava em casa, e constantemente chamava minha mãe para dançar as músicas do rádio. A puxei da cama, fechando seu hobby, a fiz girar até o outro lado da sala, e a trouxe para mim em seguida, dançando lentamente, guiando-a com uma das mãos em volta de sua cintura. Senti o cheiro de seus cabelos, que de vez em quando eram soprados pela brisa da janela, ela era tão mais baixa do que eu, sua testa colava-se quase que perfeitamente em meu peito, e eu a agarrava como se jamais fosse soltar. — Você dança bem! — Disse ela quando dei mais um giro em seu corpo, trazendo-a para um beijo em seguida. — Bom, era meu trabalho, lembra? Ela sorriu, com meu polegar em seu queixo, levantei seu rosto para encarar aquele par de olhos tão enigmático. Já não chorava mais, o que era um alívio para mim. A beijei mais uma vez, sentindo não apenas seu corpo em minhas mãos, mas sim seu coração.
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