19. Desejado e Rejeitado (PT.4)

1662 Palavras
Um pouco mais tarde, ainda naquela noite, escalei a parte de fora da janela de seu quarto, vestido com as melhores roupas que eu tinha até então. Usava uma camisa preta de botões, coberta por um sobretudo preto, roupas exageradas que Vivian havia escolhido. Bati na porta de entrada da casa, o mordomo abriu, fazendo uma reverencia ao me ver mais uma vez naquela noite. Parti para o salão de festas, estava lotado de pessoas que agora me conheciam. — Olha ele ai! — Ouvi a voz de Dantas vir do meio de um grupo abastado, eles bebiam o melhor champanhe da casa, uma das mulheres, que esbanjava um anel de noivado gigantesco, estendeu a mão para que eu a beijasse. — O colírio do momento. — É um prazer conhecê-lo pessoalmente. — Disse um dos velhos carecas que falavam com Dantas. — Feliz ano novo para vocês. — Sorri, beijando as costas da mão da moça. — Por que demorou tanto? Ouvi dizer que estava na casa, depois simplesmente desapareceu. Cocei a nuca. — Fui atras de fumo. — Ah! Pelo amor de Deus, Dantas! Onde está aquela caixa de charutos que lhe dei! Vai deixar sua mina de ouro sedento? — Dantas fez o sinal para que um dos garçons nos trouxesse a caixa de charutos e whisky. Um jornalista que estava ali no meio veio até nós para tirar uma foto, foi naquele momento que eu notei, que o velho era o prefeito da cidade. — Você deveria dar a ele os melhores tragos e as melhores mulheres, Dantas. — Sinto muito, mas a melhor mulher da noite é a minha! — Disse Dantas entusiasmado. Eu sorri, não por concordar com ele, mas por saber que a mulher que se referia era Amelia, e eu havia a acabado de fazê-la ter um dos mais intensos prazeres. — Com certeza! — Afirmei pegando um dos corpos de cima da bandeja e o bebericando. O grupo sorriu com minha afirmação. — Capara nós, Carter, você estava com a tal “garota misteriosa”, não é? — Perguntou Dantas, ao ver que o assunto dali em frente seria mulheres, a moça que estava conosco se afastou, ficando apenas eu de jovem no meio de tantos cabeças caras. — Garota misteriosa? — Peguei um dos charutos quando a caixa veio na direção de minhas mãos. já estavam com a ponta cortada, prontos para serem acesos e tragado. — Ah! Vamos! Eu sou quase seu padrinho também! Quem você acha que está investindo em você? — E também tendo muito lucro! — Disse um dos outros velhos. — É... Digamos que talvez... — Dantas bateu em meu ombro, empolgado demais com minha confissão. — Te achei! — A voz de Vivian veio até nós. Ela estava deslumbrante naquela noite, dentro de um vestido branco de seda, com as costas nuas, carregando em seu pescoço um colar de pérolas. — Acho melhor que eu o apresente a alta sociedade, Dantas. — Ah, me desculpe, Vivian, mas só um homem para fazer este serviço. Ela estendeu o dedo do meio para Dantas, com um sorriso terrível nos lábios. — Eu sou a empresária dele, se lembra? Pois então agora o garotão aqui é meu! — Essa garotinha é empresária dele? — Disse o prefeito, fazendo com que Vivian tomasse a frente para ouvir o que ele diria. — Com todo o respeito, Dantas, mas só um homem conseguiria empresariar bem... se é que me entende. — Com todo o respeito, senhor prefeito, mas só um i****a diria isso! Se juntasse todos os homens nesta sala, não dariam um terço dos meus culhões! — O fuzilava com o olhar, avançava com um dos dedos apontado para seu peito. — O senhor gosta de julgar os outros, não é mesmo? Aposto que se passasse mais tempo por entre as pernas de sua mulher, não haveria de compensá-la com joias gigantescas. Ou está faltando algo em você? — Vivian... — Dantas a repreendeu. — Me perdoe, Dantas, mas o único que conseguia me repreender era seu Irmão, Rubens. E coitado está a sete palmos debaixo da terra! Então guarde as suas repreensões a quem deve ouvi-las. —Virou-se para o prefeito. — E o senhor, Prefeito, agrade melhor sua mulher na cama, senão outro vai fazê-lo. E eu estou falando de um dos mauricinho próximo a mesa de frutas! — Tomou o charuto da mão do velho, e arrastou-me pela gola da camisa para longe daquele grupo. Arrastou-me até a varanda, ajeitando minha roupa com uma das mãos. — Demorou demais! E ainda voltou com esse cabelo molhado! Você é um i****a mesmo, nem consegue disfarçar! Pode me agradecer depois, mas antes eu quero enfiar um pouco de juízo na sua cabeça! — Notei que Eduardo e Isabela vinham em nossa direção. — E então, cara, estava com a tal “garota misteriosa”? Com o cabelo desse jeito, julgo dizer que estava! — Eduardo bebia numa taça de martini, brincava com a azeitona enfiada em palito de dente. — Achei que fosse trazê-la para festa. — Ele acha que está cedo demais para isso. — Vivian respondeu em meu lugar. — Eu só fui atras de cigarros! — Protestei. — Num baile de ano novo? Até tio Dantas percebeu que você foi atrás de uma mulher. — Vivian continuava ajeitando meu cabelo, que agora começava a formar cachos soprados pela brisa. — Mas esquece isso, não beba muito, ainda vai tocar no palco antes da virada do ano. — Começou a ajetar minha roupa, já que eu não havia vestido do jeito que ela queria. Levantou a blusa preta por baixo do sobretudo e percebendo o revólver que eu guardava em minha cintura. Assustou-se, afastando a mão rapidamente. — Mas que merdä é essa? — Achei que soubesse que ando armado. Se já era paranoico por causa do meu pai, agora que fui ameaçado por um militar... — Esconde essa merda! — Disse abaixando a camisa. — Agora vamos, tenho que exibir você para essa gente branca e rica. Eram tantas pessoas dentro daquele salão. Todas esbanjando roupas caras, joias e excentricidades estranhas. Todos queriam me servir algum tipo de bebida, como se eu estivesse lhes agradado de alguma forma. Recebi convites inesperados naquela noite, desde um passe livre para um clube de tiro, até uma orgia organizada numa casa de praia. Tive que andar por todo o salão uma série de vezes, sendo exposto como um material de um museu, e elogiado feito uma virgem. Falaram dos meus cabelos, como pareciam chamas encaracoladas, juntamente com as sardas em meu rosto. Que qualquer garota ficaria aos meus pés, se eu desejasse. Mas eu não queria qualquer garota, eu queria uma mulher, a mulher mais pendurada nas paredes dos jovens dos anos 50. E quando ela adentrou no salão, fez com que todos os suspiros se voltassem para ela. Era uma deusa no meio dos homens. Estava em mais um vestido vermelho, cujo a calda se assemelhava com um mar de sangue, havia pequenas pedras preciosas espalhadas pelo tecido, seus ombros nus eram acolhidos por plumas brancas. Seu pescoço era rodeado por uma gargantilha, que faziam o entorno da pele como se fossem galhos de arvore, a joia era toda em ouro e esmeraldas. — Ela não é pro teu bico. — A voz de minha irmã surgiu ao meu lado, sussurrando aos meus ouvidos. — Sabe disso. — Está falando igual ao papai. — Talvez seja porque aquele velho miserável acerta mesmo quando quer errar! — E acho que vocês dois estão errados. — Olhe para ela! Ela é o centro disso tudo, um troféu a ser levantado. E é assim que Dantas vai tratá-la. Ele disse mostra Amelia como sendo algo dele. Você é uma distração! Uma crise de meia idade. E sabe que ela gosta de estar contigo porque a faz se sentir jovem. — Os olhos dela foram na direção de Eduardo, que estava mais próximo da entrada do salão. — O que acha que ele vai sentir quando souber de vocês dois? Beberiquei um pouco do drink que estava em meu copo, o líquido desceu rasgando minha garganta, não por conta do álcool, mas sim por que encarar a verdade costumava ser dolorosa. — Ele vai me odiar. Mas depois vai entender que amo a mãe dele. Isabella soltou um rio pelas narinas, levou as mãos até o bolso da calça e virou o corpo para mim. — A ama? — Sim. Ao ponto de sentir minha mente flertando com a loucura. — Então enlouquecerá! Ela pode sentir algo por você, mas vai preferir continuar com a vida que tem, em meio ao luxo. E você, um mero colírio para os olhos cansados dela, não passara de um amante. Mais tarde naquela noite, antes dos relógios fazerem a contagem regressiva para o novo ano, Amelia Montenegro anunciou que se casaria com Dantas na primavera. Partiu meu coração com suas palavras amargas. De fato, em seus lábios havia amargura, maquiadas com um sorriso falsamente esculpido. Ela atravessou os olhos pelo salão, buscando a mim, fitando-me como se implorasse por perdão. Ela podia mentir para todos, dizendo que estava nadando em felicidade, mas eu sabia que ela boiava num mar de solidão, escondendo as marcas que Dantas deixava nela. Senti vontade de matá-lo. Ele não a merecia, ela não tinha sentimentos por ele. A prova disso era que quando ela falava sobre o amor que sentia, seus olhos viravam-se até mim. Porém, eu sendo homem, em desespero por ver a mulher que eu amava noiva de outro, entreguei minha amargura a bandeja de bebidas do garçom. Nem me lembro quando subi ao palco para cantar, tudo que tenho daquela noite eram fleches de memória, vindos em minha mente na manhã seguinte. Juntamente com uma forte enxaqueca, olhando para o corpo de Vivian nu ao meu lado. Aquela noite de descontrole marcou minha vida.
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