12. Respire as tristezas do final da primavera (PT.2)

1213 Palavras
Senti a dor no peito voltar, havia raiva, noites não dormidas, o sentimento de abandono exalando de dentro de mim. — O que faz aqui? Havia um buquê de lavanda em suas mãos, as flores que Isa mais gostava. Ela saiu do quarto no mesmo momento em que eu abri a porta, pude ver o desapontamento em sua face. Mesmo assim veio até ele, recolheu as flores, soltou um leve sorriso, papai estendeu uma das mãos para tocar sua face, mas se conteve, não sabia até onde deveria ir. — Ele pode entrar, Isa? — Deixei a decisão em sua mão, e ela assentiu. Bento, meu pai, caminhou até o sofá, analisando a casa, era a primeira vez em que ele tinha estado ali. Eu fui até o armário da cozinha a procura de um pote de vidro para por as flores, as deixei em cima da mesa da cozinha, chequei pela janela ao lado da mesa o carro que estava parado do lado de fora, pude ver Tito ali, recostado sob a porta, ele também me viu. Minha cabeça estava a mil. — Seja lá o que veio fazer aqui, pai — Isa disse com os braços cruzados, sem olhar nos olhos dele. — seja rápido. — Virou-se em direção a porta de seu quarto, em seguida trancou-se lá dentro. Voltei da cozinha com duas listras de cerveja, as mais geladas, papai olhou para o saco de tabaco que eu carregava e estranhou. Levantou uma das sobrancelhas, como a tempos eu não via fazer tomou para si o objeto e analisou seus mínimos detalhes. — Achei que gostasse da praticidade de cigarros feitos. Respirei fundo elevando os olhos para os céus, me lamentando pela mentira longa demais que eu havia contado. — Essa sua onda de artista sem mexido demais com seus pensamentos... — o velho apalpou o bolso, tirando de dentro outro charuto, tendo em vista que o que estava entre os seus lábios já estava perto de acabar. — Acende para mim. — Que diabos você quer pai? — Você sabe... Ver se está tudo bem, se não tem colocado seu couro em risco... — Cortou a ponta do charuto, levou o que estava em sua boca até o cinzeiro, me passou o fósforo para que eu pudesse acender o outro. — ter certeza de que não vieram aqui quebrar tua cara! Franzi as sobrancelhas, a princípio não compreendi o que ele queria me dizer como aquilo. É claro que eu devia uma grana ao Tito, e pior, tinha uma dívida de vida por ele ter mantido minha família fora de risco. Mas isso não significava que alguém entraria em minha casa e me espancaria. — Por que o Tito quebraria minha cara? O velho se levantou, estapeou minha nuca, era sua forma de afirmar que estava realmente bravo. Era como ele mostrava dominância, com seu ego inflado, sua voz sempre querendo ficar acima da minha, até mesmo sua sombra teria de ser maior e mais imponente. Andou pela cozinha, em direção a geladeira, sem pedir permissão pegou alguns doces que estava lá dentro, e bateu a porta com força em seguida. — Não estou falando do Tito, seu i*****l! — Ia estapear minha nuca uma segunda vez, mas eu segurei sua mão, apertando-a com força, na mesma intensidade da dor que pungia em meu esterno. Papai me olhou nos olhos, e sorriu, um sorriso diabólico, combinando com seus olhos que exalavam o desejo de sangue. — acha que é homem agora? — Eu sou homem, pai! — Disse com a voz firme, pude ver suas sobrancelhas se moverem. Estaria surpreso ao ver minha voz naquela entonação? Ou surpreso em ver que quanto mais o tempo passava, eu me tornava uma versão dele. — Você deixou a gente! Eu tive que me virar pra se esse homem que sou hoje. — Não se tornou grande coisa! Ainda pensa com a cabeça debaixo! Prova disso é estar dormindo com aquela mulher! Você não pensa, Carter? Se finge de cego? Levando a mulher de um milico pra cama! Meus olhos se arregalaram, minhas orelhas se moveram, um corpo começava a esquentar. Por que saber aquilo abalou minhas estruturas? Não era nenhuma novidade que meu pai nos observasse, ele tinha consciência de que seu trabalho, suas mãos sujas de sangue, colocavam todos nós em um certo risco. Um jagunço, de anos, com tantos mortos nas costas, duro feito pedra, não queria transparecer is sentimentos por mim, mas eu sabia que esse era o jeito dele de “cuidar” de nós. — Como... Ela não é mulher do Dantas! Os olhos dele... Fuzilaram os meus incontáveis vezes naquela noite. O charuto que ele havia me entregue, estava em minha boca, eu sentia tanta raiva, mordia sua ponta no canto dos lábios, trouxe a chama de um dos fósforos para perto de mim, traguei com força, acendendo o charuto sem nenhuma dificuldade. A mão do velho pousou sobre meu ombro, apertando levemente, encarou-me, mas seus olhos já não me fuzilavam, era pior, havia pena em seu olhar. — Dantas come Amélia desde quando o finado marido dela era vivo. — A voz fria de meu pai, carregada pelo hálito de gim misturado com tabaco. — Aquela mulher não vale um ventem! O que ela disse pra você? Que você a faz se sentir jovem? Que nenhum outro homem a tratou como você a trata? — Sua voz foi gradualmente se elevando, carregava raiva, como se esse sentimento estivesse agarrado ao pigarro em sua garganta.— Ela fala que nenhum outro a fodë como você faz? — O berro que dera fora estrondoso, porém na tanto quanto o soco que eu dei na mesa, quebrando-a em pedaços, derrubando tudo que havia em cima. Não entendo o que deu em mim naquele momento, mas, um impulso diabólico tomou conta de mim. Minhas mãos correram em direção a gola da camisa de botões do velho, o carreguei em direção a parede mais próxima, era como se algo estivesse fervendo dentro de mim, um raiva que era cultivada a anos. — Ande! Me soque! Me soque seu filho da putã! — Ele carregava o mesmo sorriso maquiavélico de sempre, contrastando com seus olhos famintos. — Você é igualzinho a mim. Respirei fundo, soltando-o. O charuto ainda estava em meus lábios, tomei-o entre os dedos, vislumbrando a mim mesmo como a fiel figura daquele velho miserável. Olhei para o relógio em meu pulso, com o olhar baixo, caminhando em silêncio, fui até o rádio da cozinha, passando pelo vidro quebrado da mesa, sintonizei na rádio, ouvi o chiar eclodir dos autofalantes, girei mais um pouco o botão até ouvir minha voz com clareza. Achei que ouvir minha música num rádio me traria felicidade, mas não havia nada ali que me fizesse feliz. Eu precisava desabafar, colocar o sentimento para fora. Puxei meu casaco das costas da cadeira, que estava no chão, levei o charuto que estava em meu lábio até o cinzeiro que se encontrava por entre os cacos de vidro e caminhei até a porta. — Limpe essa bagunça e diga a Isabela que volto em duas horas. — É sua voz, Bentinho? Soltei um riso estranho pelas narinas. — Sim pai, é a porrã da minha voz!
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