11. Respire as tristezas do final da primavera (PT.1)

1571 Palavras
Estava empolgado na loja de discos, não apenas por poder escolher o presente que eu quisesse para Isa, mas também por saber que naquela tarde, as 18 horas, minha música tocaria na rádio. Minha composição, vinda de uma onda depressiva que tive, o Carter que escreveu aquilo nem imaginava que tocaria numa rádio, aquilo me fazia pular de euforia. Conhecendo minha irmã, do jeito que eu conhecia, sabia que discos ela ia querer. Isa adorava uma moça chamada Janis Joplin, dizia que queria ter cabelos são esvoaçantes quanto os dela. Eu sabia que ela andava muito tempo com um grupo de hippies da escola, eu não a impedia, sendo artista, minha vontade era estar com eles também. Gostava dos Jefferson Airplane, sempre colocava no máximo o volume do rádio quando tocava Rabbits, para minha sorte encontrei ambos os discos, e aproveitei para comprar uma vitrola nova. Fiquei alguns segundos olhando para o stand de discos, pensando que em alguns meses os meus também estariam ali. Acabei levando para mim um disco de Amélia Montenegro, com o título “Respire as tristezas do final da primavera” um jazz melódico e sentimentalista. Era estranho pensar que agora ela cantaria enquanto eu tocaria minha guitarra e acompanharia como segunda voz. — Pode me fazer um favor? — Disse ao vendedor quando ele me entregou as sacolas. — Perdão? — O senhor pode colocar na rádio Central as 18 horas? Vai tocar uma música minha, como a loja enche... Sabe... Vão ter pessoa para ouvir. Eu temia em não ser ouvido, no sentido literal da coisa. O vendedor não questionou nada, sorriu, anotou o nome e a sintonização da rádio, me desejou boa sorte quando sai da loja. Voltei para o carro, onde Amélia estava deitada no branco de trás, escondida com os casacos em sua cabeça, nem ao menos me viu entrar. — Deveria ter entrado comigo. — Acredite em mim, íamos demorar horas para conseguir sair. — E por isso você está deitada desse jeito no banco de trás do carro? Ela tirou as incontáveis peças de roupa que cobriam seu rosto e foi para o banco da frente por dentro do carro. Antes que eu pudesse colocar as sacolas com os discos n banco de trás, ela tomou para si, a fim de avaliar minha compra. — A vitrola nova está no porta-malas. Disse dando a partida no carro, que estava endurecendo gradualmente. — Hippies... É isso que ela ouve? — Carregava uma feição de desaprovação, que não durou muito tempo, já que o disco em seguida era o dela. — Este é seu. — Balançou as sobrancelhas ao falar, provocando-me com o olhar. — Ouvi dizer que ela é uma cantora maravilhosa. — Debochou. Sorri soltando ar pelo nariz, comecei a guiar o volante com uma das mãos, enquanto a outra alternava entre a marcha do carro e a coxa de Amélia. — Ela é maravilhosa, principalmente quando está gemendo embaixo de mim. Gargalhou orgulhosamente, levou a sacolas com os discos para o banco de trás do carro. Parecia estar se sentindo tão leve naquele dia. — Onde quer que eu te deixe? — No estúdio, vou terminar algumas coisas e meu motorista me leva pra casa. Assenti, seguimos o caminho em silêncio, com ela olhando a paisagem na janela, e minha mão direita repousada em seu colo. Isa estava ansiosa, havia pendurado cortinas de papel pela casa, desenhadas e cortadas a mão. Olhava o tempo todo o bolo no forno, ajeitava as almofadas do sofá de cinco em cinco minutos. Notei todo esse movimento ao passar pela porta, ela estava tão atordoada que demorou a notar minha presença. — Isa? — Falei um pouco mais alto, como se eu estivesse sinalizando algo para ela. A garota parou de ziguezaguear pela casa, olhou para mim como se tivesse tomado um susto, e partiu para me abraçar. — Por que demorou tanto? Estendi a sacola com os discos, e coloquei a outra com a radiola em cima do sofá, já que a mesa de centro estava completando ocupada com salgadinhos. Abriu as embalagens, e gritou de felicidade ao ver ambos os discos. A tempos não a via feliz daquele jeito. — Obrigada, obrigada, obrigada! Agradeceu tantas vezes, que a palavra parou de fazer sentido para mim. — Abre o que está em cima do sofá. — Ela correu para o sofá, com as mãos apressadas, rasgou todo o pacote, eufórica para saber o que havia ali. — Desculpe por baixo estar embalado é que não tinha papel na... — Eu não acredito! — esbravejou de felicidade, saltou para cima de mim, pulando nos meus braços com um sorriso de orelha a orelha. Beijou meu rosto como não fazia a tempos, vi até poucas lágrimas de felicidade caírem pela lateral dos olhos. — Não foi muito caro? Quer dizer... Você não ganha tios e fundos ainda. — Não custou rios e fundos. — Ela voltou para a vitrola, a deixou arrumada em nossa banca de livros, centralizada. Gostei de vê-la feliz desse jeito, era gratificante, ao menos por um momento ela podia esquecer que nossa família passava por um assombro. Caminhei até a geladeira, tinha feito questão de enchê-la de bebidas, dando preferência as que Isa mais gostava. Porém o que me interessava ali dentro era meu fardo de cerveja, não gostava do sabor doce das bebidas que os jovens gostavam. Provavelmente mamãe morreria ao saber que eu permitia que Isa bebesse dentro de casa, mas em minha mente era muito melhor que ela bebesse comigo por perto do que com desconhecidos. — Eu quase ia me esquecendo, correu até a gaveta que ficava debaixo da mesa de centro, tirou um saco de papel de dentro e voltou até a cozinha, aceitando o copo de cerveja que eu havia lhe servido. — Achei isso debaixo do sofá quando estava arrumando. Abri a sacola, me deparando com um sutiã de renda preto, meu coração disparou, não queria ser descoberto tão cedo, não estava pronto para o sermão que levaria de minha irmã mais nova. Perguntei-me se ela imaginou em algum momento a quem pertencia o sutiã, e não quis saber qual era a resposta. — Eu não quis nem imaginar como isso foi parar debaixo do sofá! — Tem certeza de que não é seu? — Tentei força-la a acreditar numa narrativa estúpida, ou foi a única reação que tive no momento. Isabela olhou para mim desacreditada, bebericou de seu copo olhando-me com aquele par de olhos julgadores. — Está se fazendo de idiotä, não é? É um sutiã de grife, que sozinho poderia comprar meu guarda-roupa inteiro! Mas me diga, quem foi a garota que trouxe para nossa casa? Engoli em seco, já procurando um cigarro em meus bolsos, coceira a garganta, passando a mão por meus cabelos, enquanto o olhar investigativo de minha irmã me seguia pela cozinha. Não havia nada que passasse despercebido por ela, comecei a refletir que provavelmente não demoraria muito até que ela descobrisse sobre meu caso com Amélia, mas também não desejava contar-lhe. — Foi só uma garota. Ela revirou os olhos, colocou seu maço de cigarros em cima do balcão, encarei-a por alguns segundos antes de tomar a caixa para mim. — Guarde essa postura para alguém que não te conheça! Não para mim! Eu sei que você não abre nossa casa para qualquer uma. Sei o quão fechado emocionalmente você é, e nunca, em todos esses anos com você dormindo com aquelas mulheres, as trouxe para nossa casa. Quem é essa mulher? Está namorando? O cigarro, que já estava em minha boca, tremia, a fumaça subia lentamente, minhas mãos prendiam meus longos cabelos velhos no alto da cabeça, estava começando a ficar suado, nervoso com a indagação que Isa me trazia. — Eu não estou namorando, Isa, sabe que eu não sou o tipo de cara que faria isso. Ela franziu os lábios, olhou para baixo por alguns segundos. Sabia como aquilo me doía, nunca em minha vida eu havia sido procurado para ser amado por alguém. Todos que passaram por mim estavam unidos em um único desejo, sexo, e sabiam que eu poderia proporcionar o quanto quisessem. O insaciável Carter Bento, nunca havia sido amado por ninguém. — Sabe que não posso namorar. — Continuei. — Ninguém me aguentaria, e na pior das hipóteses eu trairia a pessoa por não conseguir me segurar. — Se não está namorando... Então está dormindo com alguém de confiança. E eu vou descobrir quem é! Três batidas extremamente calmas surgiram da porta, Isa se levantou da cadeira, ajeitando os cabelos, pediu-me que atendesse a porta já esperando as amigas que viram. Apaguei o resto do cigarro no cinzeiro de vidro, caminhei até a porta, levei um dos meus olhos até o olho mágico e estremeci. Havia um homem lá fora, virado de costas, ajeitando sua roupa, fumando charuto. Podia ver seus cabelos ruivos misturados aos grisalhos que cresciam. Estava bem cortado, como não via a tempos, na verdade eu não observava aquela aparência particular a alguns meses. Era estranho ele aparecer ali, justamente naquele momento, logo após Isa e eu falarmos sobre minha vida s****l. Por que era estranho? Haviam apenas duas pessoas que sabiam de minha hiperatividade, Isa, minha maior confidente, e a pessoa que quando descobriu sobre minhas relações com homens, chutou meu peito com sua bota de couro pesada. Essa pessoa era meu pai.
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