Pré-visualização gratuita Prólogo
A chuva caía fina naquela manhã cinzenta, transformando a estrada de terra em um lamaçal interminável.
Helai segurava a barra do vestido gasto enquanto caminhava ao lado dos pais. Seus pés pequenos estavam cobertos de barro, e o estômago doía de fome. Aos dez anos, ela ainda acreditava que os adultos sempre sabiam o que faziam.
Por isso não percebeu que algo estava errado.
Seu pai, Dario, caminhava em silêncio.
Sua mãe, Mirena, chorava escondido, limpando as lágrimas sempre que a menina olhava em sua direção.
— Mamãe... para onde estamos indo? — Helai perguntou pela terceira vez.
Mirena forçou um sorriso.
— Você vai morar em um lugar bonito, minha flor.
— Bonito?
— Muito bonito.
A menina abriu um sorriso inocente.
Ela nunca tinha visto nada além das pequenas cabanas da aldeia e dos campos secos onde os pais trabalhavam em troca de quase nada.
Quando a enorme propriedade surgiu no horizonte, Helai ficou sem palavras.
Uma cerca branca cercava quilômetros de terras férteis.
Havia cavalos correndo livres.
Jardins floridos.
Um lago.
E, ao longe, uma mansão tão grande que parecia um castelo.
— Uau...
Seu coração disparou.
— Quem mora aqui?
O pai respirou fundo.
— A família Montenegro.
O nome era conhecido em toda a região.
Os Montenegro eram donos de quase tudo.
Terras.
Comércio.
Fazendas.
Até mesmo as autoridades pareciam obedecê-los.
Helai observou os empregados andando de um lado para outro.
Alguns carregavam caixas.
Outros trabalhavam nos estábulos.
Todos pareciam ocupados.
Ela imaginou como seria viver naquele lugar.
Talvez pudesse brincar perto do lago.
Talvez aprendesse a cavalgar.
Talvez tivesse amigas.
A esperança iluminou seu rosto.
Mas não percebeu o olhar devastado que os pais trocaram.
Quando chegaram à varanda principal, uma mulher elegante os aguardava.
Vestia roupas caras e mantinha o queixo erguido.
Era Isadora Montenegro.
A dona da fazenda.
Ela analisou Helai dos pés à cabeça.
Como se estivesse avaliando um animal antes da compra.
— Então essa é a garota?
Dario assentiu.
— Sim, senhora.
Isadora cruzou os braços.
— Parece saudável.
Aquelas palavras fizeram um arrepio percorrer o corpo da menina.
— Mamãe...
Mirena apertou sua mão.
Forte demais.
Forte como alguém que estava prestes a perder algo precioso.
— Seja obediente, Helai.
A garota franziu a testa.
— Eu vou voltar para casa quando?
O silêncio caiu sobre todos.
Seu pai desviou os olhos.
Sua mãe começou a chorar.
— Mamãe?
— Você precisa ficar aqui.
Helai piscou.
— Ficar?
— Apenas por um tempo.
— Quanto tempo?
Ninguém respondeu.
O coração da menina acelerou.
— Mamãe...
Mirena caiu de joelhos diante dela.
As lágrimas finalmente escaparam sem controle.
— Me perdoa...
Helai sentiu o medo crescer.
— Pelo quê?
— Pela vida que estamos te dando.
— Eu não entendo.
O pai fechou os punhos.
A vergonha estampada no rosto.
— Nós devemos dinheiro.
— Dinheiro?
— Muito dinheiro.
Helai não compreendia completamente o que aquilo significava.
Mas entendeu algo muito pior.
Eles estavam indo embora.
Sem ela.
— Não...
Sua voz falhou.
— Não!
Ela segurou o vestido da mãe.
— Eu vou com vocês!
— Helai...
— Eu vou!
Mirena a abraçou.
O choro das duas ecoou pela varanda.
— Você é forte.
— Não quero ser forte!
— Um dia vamos voltar.
— Promete?
Mirena fechou os olhos.
Não conseguiu responder.
Porque sabia que era mentira.
A dívida jamais seria paga.
A menina estava sendo entregue como serva.
Talvez para sempre.
Isadora interrompeu a cena.
— Já chega.
Duas empregadas se aproximaram.
Helai agarrou a mãe desesperadamente.
— Não! Não! Não!
As mulheres precisaram puxá-la à força.
A menina gritava.
Chorava.
Estendia os braços.
Enquanto os pais se afastavam pela estrada.
Sem olhar para trás.
Porque olhar significaria desabar.
— MAMÃE!
O eco atravessou os campos.
Mas ninguém voltou.
Quando eles desapareceram no horizonte, algo dentro de Helai morreu.
Ela ficou parada.
Sozinha.
Abandonada.
Com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Naquele instante, a fazenda Montenegro deixou de parecer um castelo.
E passou a parecer uma prisão.
Naquela mesma tarde.
Do segundo andar da mansão.
Um jovem observava tudo da janela.
Tinha dezesseis anos.
Alto.
O cabelo n***o caía sobre a testa.
Os olhos cinzentos transmitiam uma frieza incomum para alguém tão novo.
Era Keven Montenegro.
Ele assistira à cena inteira.
A menina chorando.
Os pais indo embora.
Os empregados cochichando.
E não sentiu pena.
Nem por um segundo.
— Quem é ela? — perguntou.
Ao seu lado, Isadora respondeu:
— A nova empregada.
Keven observou Helai parada no jardim.
Pequena.
Magra.
Assustada.
Parecendo completamente deslocada naquele lugar.
— Mais uma boca para alimentar — murmurou.
— Ela vai trabalhar para pagar uma dívida.
Keven voltou a encarar a garota.
Algo nela o incomodava.
Talvez aqueles olhos verdes enormes.
Talvez o fato de parecer tão frágil.
Talvez simplesmente sua presença.
— Não gosto dela.
Isadora arqueou uma sobrancelha.
— Você nem a conhece.
— Não preciso conhecer.
O jovem se afastou da janela.
Sem imaginar que aquela menina se tornaria o centro de sua vida.
Seu maior ódio.
Seu maior erro.
E, um dia, o amor que seria capaz de destruí-lo por completo.