Capítulo 2 – O Primeiro Beijo

1617 Palavras
O verão chegava com sua fúria dourada, queimando a pele e deixando o campo impregnado de perfumes quentes. As rosas se abriam em tons vibrantes, como se cada pétala fosse um suspiro do próprio sol. O ar carregava um zumbido constante das abelhas, o farfalhar lento das folhas, e o som distante da água escorrendo pelo rio. A Fazenda Andrade parecia viver em um feitiço, e para Rosa, aquele jardim era um refúgio. Ela caminhava entre fileiras intermináveis de flores, a barra do vestido tocando o orvalho que ainda resistia nas primeiras horas da tarde. O cheiro doce e inebriante das rosas a envolvia, misturado ao gosto metálico da lembrança proibida: Felipe. Desde o encontro na cerca, semanas antes, ela não conseguia afastar dele os pensamentos. Seu sorriso, seu olhar ousado, a forma como estendeu a mão como quem já sabia que ela aceitaria. Rosa fechou os olhos e aspirou fundo, como se pudesse guardar aquele perfume dentro dela para sempre. Era diferente estar ali sozinha, sem ninguém vigiando, como se o jardim a aceitasse como cúmplice. De repente, um estalo de galho a fez abrir os olhos. O coração disparou. — Rosa… — a voz surgiu baixa, mas cheia de urgência. Felipe estava ali, entre as fileiras de rosas, ofegante como quem correra muito para encontrá-la. O cabelo desgrenhado, a camisa meio aberta no peito, e aquele brilho nos olhos que parecia sempre esconder segredos. — Você enlouqueceu? — ela sussurrou, sentindo as pernas tremerem. — Se alguém nos vir aqui… — Não importa — interrompeu ele, aproximando-se. — Não consegui ficar longe. Rosa recuou um passo, mas o corpo não obedeceu ao desejo de distância. Cada vez que ele avançava, o coração dela dava um salto, como se sua pele reconhecesse antes mesmo da razão. O sol filtrava-se pelas folhas, espalhando manchas douradas sobre eles. Os pássaros faziam um canto irregular, como se acompanhassem o ritmo das respirações. Rosa apertou as mãos contra o corpo, tentando controlar o impulso de tocá-lo. — Você não entende, Felipe. Minhas tias, meus pais… eles odeiam sua família. Dizem que vocês querem nos roubar tudo. Ele sorriu com ironia, mas havia dor no fundo daquele riso. — E você acredita neles? Ela balançou a cabeça, os cabelos negros caindo sobre os ombros. — Eu não sei em quem acreditar. Só sei no que sinto quando você aparece. O silêncio caiu entre eles, pesado e vibrante. O vento trouxe uma rajada de perfume intenso, e Rosa se sentiu tonta, como se o mundo inteiro girasse em torno daquele instante. Felipe deu mais um passo. Estava tão perto que ela podia sentir o calor de sua pele, o cheiro misturado de terra, suor e juventude. — Rosa… — ele disse, a voz baixa, quase um sussurro de prece. Ela ergueu os olhos. E então aconteceu. Felipe inclinou-se devagar, como se desse a ela a chance de recusar. Rosa não recuou. O coração batia tão alto que parecia ecoar pelo campo. Quando os lábios dele tocaram os dela, foi como se todas as rosas ao redor tivessem explodido em flor outra vez. O primeiro beijo. Não era tímido como ela imaginara. Havia urgência, como se cada segundo fosse roubado. As bocas se encontraram, aprenderam-se, e o mundo desapareceu. Rosa segurou a camisa dele, puxando-o mais para perto. Felipe deslizou a mão pela nuca dela, os dedos firmes, a respiração quente contra sua pele. O gosto dele era mistura de sol e promessa. O beijo se aprofundou, crescendo como fogo alimentado pelo vento. Rosa sentiu o corpo inteiro responder, a pele arrepiando-se em ondas. Era só um beijo, mas trazia a violência de algo muito maior, o prenúncio de um amor que não aceitaria limites. Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes. O silêncio foi preenchido apenas pelo som de suas respirações rápidas. Rosa levou os dedos aos lábios, surpresa com a intensidade. — Não devia ter acontecido — murmurou, mas sua voz traía o contrário. Felipe sorriu, aquele sorriso que parecia guardado só para ela. — Vai fingir que não sentiu? Ela fechou os olhos, tentando recuperar o fôlego. — Eu senti demais. É por isso que tenho medo. Felipe segurou seu rosto com delicadeza, polegares acariciando a pele. — Então não tenha. Se existe algo neste mundo que vale a pena arriscar, é isso. Rosa quis responder, mas foi interrompida pelo som distante de passos. O coração disparou. Felipe puxou-a para trás de uma fileira de rosas mais altas. Ficaram colados, o corpo dela contra o dele, tão próximos que era impossível ignorar o calor, o cheiro, o desejo. O empregado da fazenda passou, distraído, sem perceber nada. Quando se afastou, Felipe riu baixinho, nervoso. Rosa, ainda trêmula, o empurrou levemente. — Você vai nos matar do coração. — Ou nos ensinar a viver — respondeu ele, aproximando o rosto mais uma vez. Dessa vez, o beijo foi ainda mais profundo, mais ousado. Rosa sentiu o corpo arder, como se cada nervo fosse fogo. O beijo carregava algo diferente: não apenas inocência, mas fome. O prenúncio do que um dia viria a ser um amor intenso, adulto, avassalador. As mãos de Felipe deslizaram pela cintura dela, firmes, mas respeitosas. Rosa tremeu, sem saber se queria fugir ou se entregar. No fim, não fez nada, apenas deixou que o momento a consumisse. Quando se afastaram de novo, estavam mudados. Já não eram apenas crianças curiosas. Tinham cruzado uma linha invisível. Rosa mordeu os lábios, tentando recuperar o controle. — Se alguém souber… Felipe encostou a testa na dela. — Que saibam. Porque eu nunca vou esquecer esse beijo. Ela respirou fundo, absorvendo cada palavra. Sabia que ele tinha razão. Aquele momento ficaria marcado para sempre, como cicatriz. Ao longe, o sino da fazenda chamou os empregados para o jantar. O feitiço do jardim se desfez. Rosa ajeitou o vestido, o coração ainda em chamas. Felipe deu alguns passos para trás, mas seus olhos não se desligaram dos dela. — Um segredo, Rosa. Só nosso. Entre fileiras de rosas. Ela assentiu, e pela primeira vez, sentiu o peso doce e terrível do amor proibido. Porque às vezes, tudo começa com um beijo. E aquele beijo não era apenas o primeiro. Era o prenúncio de uma história que jamais poderia ser esquecida. O sol já descia lentamente no horizonte, pintando o céu com traços de laranja e violeta. As sombras das roseiras se alongavam pelo chão, transformando o jardim em um labirinto de cores e silêncios. Rosa caminhava entre as flores como quem flutua, cada passo leve, mas carregado de algo que a fazia estremecer por dentro. O beijo ainda queimava em sua boca, um incêndio impossível de apagar. Ela levou os dedos aos lábios, repetindo mentalmente o instante em que os de Felipe tocaram os seus. Era como se sua pele tivesse aprendido uma nova língua, feita de calor, desejo e vertigem. A inocência de criança havia se despedaçado ali, entre fileiras de rosas, e algo mais forte começava a nascer. De repente, ouviu passos atrás de si. O coração disparou. — Você correu e me deixou aqui sozinha — disse Felipe, surgindo por entre os galhos, a respiração pesada. Ela virou-se, tentando disfarçar o sorriso que insistia em aparecer. — Eu precisava respirar. — Eu também. Mas, Rosa… — ele parou, como se procurasse as palavras certas. — Desde que te beijei, não consigo pensar em mais nada. Rosa desviou o olhar, as bochechas coradas. As flores pareciam observá-los, cúmplices de um segredo que jamais poderia ser revelado. — Foi errado, Felipe. Se nossas famílias descobrirem… Ele a interrompeu, a voz grave para alguém tão jovem: — Errado é o ódio deles. Errado é fingir que não sinto nada quando cada vez que te vejo, parece que o mundo inteiro se cala. O silêncio entre eles foi preenchido pelo zumbido das abelhas e pelo canto distante dos pássaros noturnos. Rosa sentiu o corpo tremer. A cada palavra dele, a cerca invisível entre os dois ficava mais frágil. Felipe avançou um passo. Ela recuou. Mas ao encostar-se em uma das roseiras, não teve mais para onde fugir. O perfume das flores misturava-se ao calor dele, e Rosa sentiu-se cercada por um desejo que não entendia, mas que não queria mais negar. Ele ergueu a mão, tocando de leve os fios soltos do cabelo dela. — Rosa, se esse for o único beijo da nossa vida, eu já vou ter vivido mais do que qualquer Moura ou Andrade. Ela respirou fundo, fechando os olhos por um instante. A coragem dele a desarmava. O corpo pedia por mais, mas o coração temia o preço. — Felipe… — sussurrou, sem conseguir terminar. Ele inclinou-se novamente, os lábios roçando nos dela com uma delicadeza que a fez estremecer. Dessa vez, o beijo não foi de urgência, mas de promessa. Lento, profundo, um juramento silencioso de que nenhum dos dois conseguiria voltar atrás. O vento soprou mais forte, espalhando pétalas pelo ar. Algumas grudaram na pele úmida deles, como se o próprio jardim os quisesse selar. O tempo deixou de existir, e Rosa soube, no fundo da alma, que aquele beijo seria lembrado para sempre. Quando se afastaram, estavam diferentes. Não eram mais duas crianças brincando em segredo. Eram dois corações marcados por um destino que ainda não sabiam nomear. Felipe encostou a testa na dela, a respiração entrecortada. — Um segredo, Rosa. Só nosso. Entre fileiras de rosas. Ela assentiu, sentindo o peso e a doçura daquelas palavras. O coração dela batia como se quisesse gritar ao mundo, mas ao mesmo tempo sabia: aquele amor precisaria florescer no silêncio, escondido das sombras. E assim, entre perfume, pétalas e medo, nasceu o primeiro amor. Um amor que não morreria.
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