Capítulo 7 – Noite de Dor

1041 Palavras
A lua de mel não tinha cheiro de flores, nem gosto de mel. Tinha o peso metálico do medo. O quarto do hotel, adornado com cortinas de veludo e lençóis alvos, parecia um cenário pronto para um espetáculo c***l. A lua, alta, atravessava a vidraça e iluminava o espaço com uma luz fria, quase indiferente. Rosa caminhava devagar, o vestido de noiva já deixado de lado. Usava apenas uma camisola de tecido fino, que mais parecia transparente sob os olhos de Antenor. Ele a observava como um predador que finalmente alcança a caça. O perfume dele — forte, amadeirado, embriagante — enchia o ambiente, misturado ao cheiro de vinho derramado sobre a mesa. — Agora você é minha, Rosa — disse ele, a voz arrastada pelo álcool, mas firme no tom de posse. Ela estremeceu. O corpo tremia não de desejo, mas de repulsa. Os pés descalços roçavam no tapete felpudo, e cada fibra parecia prender suas pernas, como se até o chão quisesse impedi-la de fugir. Quando ele se aproximou, Rosa recuou. — Não encoste em mim. O olhar de Antenor escureceu, os traços endurecidos pelo ódio contido. — Não seja tola. É sua obrigação como esposa. Ele tentou beijá-la, mas Rosa virou o rosto. Tentou agarrá-la pelos pulsos, mas ela se debateu com a força desesperada de quem sabe que está prestes a perder tudo. — Eu nunca vou te amar — gritou, a voz embargada. — Nunca! A rejeição incendiou o ego ferido de Antenor. Movido pela crueldade de não ser amado, ele a empurrou contra a cama, o corpo pesado cobrindo o dela. As mãos grossas apertavam seus braços com força, deixando marcas roxas na pele clara. Ele tentava impor-se, provar poder. Mas na hora em que tentou consumar sua fúria, a virilidade falhou. O silêncio que seguiu foi mais violento que qualquer golpe. Antenor rugiu, tomado de vergonha e ódio. O rosto contorceu-se, os olhos faiscando. — Maldita! — gritou, levantando-se de repente. — É culpa sua! Rosa, mesmo assustada, ergueu o queixo. O corpo doía, mas a alma queimava de coragem. — Não, Antenor. É sua. Porque amor não se compra, não se arranca. As palavras caíram como açoites. Ele não suportou. A mão dele desceu pesada contra o rosto dela, um estalo seco que encheu o quarto. Depois veio outro, e outro. Rosa caiu sobre os lençóis, o gosto de sangue inundando sua boca, o zumbido nos ouvidos abafando o som de seus próprios soluços. A raiva de Antenor era um rio desgovernado. Ele chutou a lateral da cama, puxou-a pelos cabelos, atirou-a ao chão. Rosa se encolheu, tentando proteger o rosto, mas cada golpe era uma sentença c***l. As paredes do quarto, cobertas de papel dourado, pareciam assistir em silêncio, cúmplices do horror. Quando Rosa já m*l conseguia respirar, Antenor parou. Ofegava, suado, o peito subindo e descendo como se tivesse acabado de travar uma batalha. Mas os olhos, ainda assim, estavam vazios. Chamou pela criada do hotel, Maria, com voz fria, como quem dá uma ordem banal. — Cuide dela. Maria entrou apressada, os olhos arregalados ao ver o estado de Rosa. Sangue escorria de um corte na testa, as marcas vermelhas e roxas já se formavam nos braços. — Meu Deus, doutor Antenor… o que foi que… — Apenas faça seu trabalho — interrompeu ele, a voz gelada. — Ninguém precisa saber de nada. Rosa foi levantada com cuidado pelas mãos da criada. O cheiro de lavanda do lençol que Maria trouxe contrastava com o odor metálico de sangue que impregnava a pele dela. Rosa m*l conseguia falar. Seus olhos, marejados, encaravam a lua lá fora, como se pedissem socorro ao céu. E naquele instante, mesmo quebrada, fez um juramento silencioso: Não vou me entregar. Não vou deixar que ele destrua o que restou de mim. Mas a lua, fria, apenas a observava. As noites de sofrimento se repetiram como um ciclo sem fim. O quarto, antes decorado para ser ninho de lua de mel, transformara-se em cativeiro. Os gritos abafados de Rosa eram engolidos pelas paredes espessas da mansão, enquanto o vento da madrugada trazia para dentro o cheiro de pólvora e tabaco que Antenor exalava sempre que entrava. Ninguém ousava interferir. As criadas abaixavam os olhos, os empregados cruzavam o pátio em silêncio. Quando algum murmúrio surgia, Antenor logo aparecia com a sombra pesada de sua presença e a ameaça velada em cada gesto. — Quem ousar se meter, desaparece. A maldade dele não tinha limites. Com as prostitutas da cidade, sua virilidade era festejada entre copos de cachaça e risadas obscenas. Mas diante de Rosa, sua força se esfarelava. O olhar dela, cheio de ódio e nojo, era como punhal que lhe arrancava o poder. A falha repetida em consumar seu domínio era transformada em espancamentos ainda mais cruéis. Os pais de Rosa, doentes e enfraquecidos, eram mantidos à distância. Desde o casamento, estavam impedidos de vê-la. Viviam com a angústia de cartas nunca respondidas e recados sempre filtrados por Antenor. O coração da mãe definhava em febres silenciosas, o pai se curvava sob a tosse que não passava. Às vezes, em voz baixa, confessavam um ao outro a dúvida que os corroía: — Será que fizemos a escolha certa? A mansão começava a falar por si. Os boatos de violência se espalhavam como vento: criadas novas não ficavam, vizinhos desviavam os olhos, padres rezavam sem coragem de intervir. Antenor, tentando abafar os rumores, mudou-se com Rosa para a antiga fazenda da família dela, alegando que era desejo dos sogros. Foi a maior crueldade disfarçada de gentileza. Rosa voltou para o lugar onde crescera, mas não encontrou o lar. A fazenda, antes repleta de rosas que perfumavam cada manhã, estava agora morta. Os jardins haviam secado, os canteiros viraram barro, e nem a grama ousava crescer. O vento que antes trazia perfume agora carregava apenas poeira. As paredes da casa rangiam, como se guardassem lamentos. E Rosa, caminhando pelos corredores, sentia o eco da própria infelicidade em cada canto. O jardim, testemunha dos primeiros beijos, havia se transformado em ruína. E ela, a menina que prometera amar para sempre, agora era a mulher que carregava no corpo e na alma as marcas de um casamento arruinado pela violência.
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