Pré-visualização gratuita Capítulo 1 - Maju
Maju
Meu nome é Maria Júlia, mas vocês podem me chamar de Maju. Eu tenho 18 anos e sou nascida e criada no morro da Rocinha. Eu sou n***a, tenho cabelos longos e lisos, 1,70 de altura e um corpo bonito, porque, quando dá, eu malho.
Quando eu tinha 16 anos, meus pais morreram por causa de bala perdida. Eu até entrei na justiça com a ajuda da associação de moradores, mas foram os traficantes que atiraram neles, ou seja, não tivemos direito a nenhuma indenização. Eu fiquei perdida com a minha irmã, que na época tinha 14 anos. Eu tentei trabalhar de todas as formas, mas ninguém queria dar emprego para uma menina menor de idade, e foi aí que eu entrei no corre.
Comecei fazendo uns aviãozinhos, levando droga para uns playboys na Zona Sul, e depois fui subindo de cargo. Virei vapor e agora sou gerente. Hoje tem uma carga para chegar, e o gerente geral daqui do morro jogou ela no meu colo. Eu não queria, mas ele falou que era isso ou meter o pé. Como eu não tinha escolha, juntei uma equipe pequena para a gente buscar essa carga.
A gente saiu em dois carros. Eu fui no da frente com mais três, e o outro veio logo atrás dando cobertura. Eu estava com o rádio na mão tentando manter todo mundo alinhado, porque eu já não estava gostando dessa responsabilidade nas minhas costas. Não era uma carga pequena, e eu sabia muito bem que, se desse qualquer merda, não ia ter desculpa que salvasse.
Quando a gente chegou no ponto, o caminhão já estava parado esperando. O cara que fez a venda estava encostado do lado de fora, fumando como se estivesse tudo normal. Eu desci do carro devagar, observando tudo ao redor antes de me aproximar. Não tinha movimento estranho, pelo menos não na minha visão.
— Tá tudo aí? — perguntei, cruzando os braços.
— Tudo certo, como combinado — ele respondeu.
Aquilo já me incomodou, mas eu não podia ficar criando problema onde não tinha. Fiz sinal para os meninos começarem a descarregar para conferência. A gente abriu o caminhão e eu subi para olhar de perto. Fui caixa por caixa, abrindo algumas, conferindo quantidade e vendo se não tinha nada errado.
— Confere direito, Maju — um dos meninos falou.
— Eu sei o que tô fazendo.
Demorou um pouco, mas estava tudo batendo. Pelo menos ali parecia certo. Dei o ok e a gente começou a organizar tudo para seguir viagem. Mesmo assim, eu ainda fiquei olhando em volta mais uma vez, tentando entender por que eu estava com aquele aperto no peito que não passava.
Entramos nos carros novamente, com o caminhão seguindo na frente e a gente dando cobertura. Eu fiquei em silêncio o caminho todo, só ouvindo o barulho do rádio e do motor, tentando afastar aquela sensação r**m.
Só que não deu tempo.
Do nada, dois carros surgiram fechando o caminhão pela frente, e outro apareceu atrás. Foi rápido demais. Eu só ouvi o primeiro disparo e já sabia que tinha dado merda.
— É ataque! — gritei no rádio.
Os tiros começaram na mesma hora. Eu me abaixei dentro do carro enquanto o motorista tentava manobrar. Os meninos começaram a atirar de volta, mas a gente estava em desvantagem.
— Protege o caminhão! — gritei, já abrindo a porta e descendo.
O som dos tiros era alto demais. Eu me posicionei atrás da porta do carro e comecei a atirar tentando abrir espaço, mas os caras estavam organizados. Eles sabiam exatamente o que estavam fazendo.
O caminhão foi cercado. Eu vi quando um dos caras puxou o motorista para fora na base da coronhada, enquanto outro entrou direto na cabine.
— Não deixa eles levarem! — um dos meus gritou.
Mas não tinha como. A gente estava sendo pressionado de todos os lados. Um dos meninos que estava comigo caiu do meu lado, baleado. Eu nem consegui ver de onde veio o tiro, só vi ele no chão.
— Levanta! — gritei, mas ele não respondeu.
Meu coração começou a disparar de um jeito que eu achei que ia sair pela boca. Aquilo estava saindo completamente do controle.
Outro tiro, outro corpo caindo.
Eu senti o desespero batendo forte, mas continuei atirando, mesmo sabendo que a gente já estava perdendo. Os caras eram mais, estavam mais armados e claramente já estavam esperando a gente.
O caminhão começou a andar.
— Eles tão levando! — alguém gritou.
Eu tentei avançar, mas fui puxada de volta.
— Vai morrer à toa, Maju!
Eu olhei o caminhão se afastando, com os caras já dominando tudo. O som dos tiros começou a diminuir conforme eles se afastavam, deixando só o silêncio pesado e o cheiro de pólvora no ar.
Quando acabou, ficou só o caos.
Dois dos meus estavam no chão, mortos.
Eu fiquei parada no meio da rua, com a arma ainda na mão, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Meu corpo tremia, mas não era só de medo, era de desespero.
Eu tinha perdido a carga.
Uma carga que não era pequena.
Uma carga que eu não tinha dinheiro nenhum para pagar.
Passei a mão no rosto, tentando raciocinar, mas minha cabeça parecia travada. Eu sabia exatamente o que aquilo significava. Eu sabia o que iam fazer comigo.
— E agora? — um dos meninos perguntou, com a voz falhando.
Eu olhei para ele, mas não consegui responder na hora.
Porque a verdade era uma só.
Eu estava ferrada.
Não era só sobre dinheiro. Era sobre respeito, posição e sobrevivência. Eu tinha acabado de perder tudo em questão de minutos.
E o pior de tudo…
Eu ainda tinha uma irmã me esperando em casa.
E eu sabia que, se eu caísse, ela ia ficar sozinha no mundo.