Pré-visualização gratuita O pesadelo e a realidade
Lua Alcantara
Ao redor tudo é um caos, fogo e pólvora se misturam criando chamas laranjas crescentes, incontroláveis, subindo aos céus até criar finas camadas negras de fumaça. O medo enche meu coração percorrendo todo o corpo como uma eletricidade maligna, em meio ao caos procuro entre a multidão a única pessoa capaz de apaziguar esse sentimento.
Demoro alguns instantes para encontrar os olhos verdes brilhando no meio da multidão como uma luz iluminando todo o caminho, um anjo salvador no meio da guerra, corro na direção dos seus braços, sendo movida somente pelo impulso e a lembrança de sentir o abraço protetor.
Minha respiração está tão acelerada quanto os meus pensamentos e a sensação que tenho ao chegar perto dele é a de que irei explodir senão toca-lo, como a desgraça anda de mãos dadas com a minha felicidade, encaro paralisada a maneira como a grande lâmina atravessa o seu peitoral, fazendo a camisa branca que usa se tornar um tom de carmesim. As últimas palavras do homem que amo ficam presas dentro da sua garganta da mesma maneira como seu olhar se torna frio e apagado junto com a vida que vai embora no mesmo instante.
Enquanto seus joelhos cedem com o peso da morte caindo contra o asfalto, tenho a visão do monstro que acaba de destruir a única felicidade que tive durante toda a vida, o ar foge dos meus pulmões se misturando as lágrimas que não conseguem apagar o brilho de prazer por ter a certeza de que está terminando de quebrar um pouco mais da minha alma nesse momento.
A escuridão maligna dos olhos pretos se banha com a minha desgraça, retirando a lâmina do corpo do homem que amo, segurando seus fios loiros com a mão livre e usando o objeto banhando em sangue para decepar a cabeça do único que foi capaz de estender a mão para tentar me salvar dessa vida amaldiçoada dentro do morro da rocinha.
"Acorda v***a!" O chute forte acompanha o grito estridente.
Minha mente atordoada pelo sonho confuso que acabou levando boa parte da noite de sono que deveria repor alguma das minhas energias, outro chute atinge em cima das costelas em um local já machucado causando uma dor ainda maior, o suficiente para apagar qualquer dor mental causada pelo sonho estranho.
"Vamos Lua, não tenho o dia todo!"
Desejo mais uma vez, em mais um dia, ficar livre de uma vez por todas da voz de Marcela, minha madrasta é o pior tipo de carcereiro que poderia ter, por isso sabendo que sua raiva só irá aumentar com a demora, decido erguer o corpo mesmo que abandonar o tecido áspero de um lençol velho seja menos prazeroso do que acompanhar ela.
"No que posso ajudar?" Questiono de cabeça baixa para não atrair ainda mais a sua raiva.
"Pode ser útil sua infeliz, hoje é dia de baile." Resmunga batendo o pé na minha frente.
Meus ombros caem automaticamente com a lembrança, aperto os dedos contra o tecido do colchonete jogado no canto da garagem próximo o suficiente do canil que Romarcio mantém com dois rottweilers prontos para avançar contra qualquer desafeto.
"Levanta e vai trabalhar, quando seu pai acordar acho bom já estar longe daqui, o Rô não precisa de estresse hoje."
Aceno concordando, fico em pé tão rápido quanto acordei só com a menção de encontrar o meu pai em dia de baile, prefiro calçar os chinelos e passar direto pelo portão deixando Marcela para trás, não é como se a mulher se importasse.
No meio da rua observo os primeiros raios de sol querendo aparecer no alto do morro, os parças do Romarcio estão posicionados ao redor da casa do chefe prontos para atirar em qualquer um, encaro o Pixote, um moreno da minha altura que sempre abre esse sorriso amarelado com um dente de ouro se exibindo.
Passo os braços ao redor do corpo começando a andar, dando as costas para o homem, para todos aqui dentro da comunidade Romarcio ou Azulão como é conhecido, manda em tudo e em todos, meu pai é o chefe do morro, sua palavra é lei, todos os trabalhadores lá debaixo o amam, qualquer necessidade é só falar com o chefe. Ninguém imagina que desde a morte da minha mãe durante uma invasão anos atrás, ele se tornou o meu maior pesadelo.
Quando Macela apareceu, sendo a Maria Fuzil mais sortuda do morro por ganhar a cama do chefe, tudo que era r**m se tornou ainda pior. Por isso, as seis da manhã estou descendo para a casa da Juju, uma boate pequena que divide o morro entre aqueles que tem mais poder aqui dentro.
Azulão desde que tomou minha mãe como mulher, nunca mais a deixou descer do morro, por isso também nunca coloquei os pés no asfalto, as coisas que sei e aprendi foram com a Dona Dacia, minha mãe e quando ela morreu, a Juju foi a única com coragem suficiente para abrir as portas em busca de me esconder da fúria do chefe.
Como castigo por ser sempre protegida das surras dentro da casa da mulher, ele decidiu me colocar para trabalhar lá, de primeiro imaginei que poderia conseguir algum dinheiro para fugir e colocar a maior distância possível daqui. Mas Marcela que achei ser amiga foi a primeira a me entregar, agora, sou obrigada a trabalhar no lugar dela, como dançarina na boate e entregar todo o dinheiro nas mãos da mulher para que possa bancar os seus luxos.
Estou a dois passos da boate da Juju quando encontro o olhar da Zuleica, uma senhora evangélica que me odeia sem nunca ter trocado duas palavras comigo, porque alguém foi bater um fio para a velha contando que o marido sempre deixa metade do salário preso no meu sutiã.
Viro o rosto apressando os passos e limpando a lágrima da bochecha rápido para que ninguém perceba, o único motivo para que não tenha sido tocada por nenhum daqueles homens é o fato de que todos tem medo de engravidar a filha do Azulão, devo a vida para a dona Juju que sempre inventa uma desculpa diferente para que os homens não consigam me obrigar a tirar a roupa toda ou ser levada para uma cabine exclusiva como a maioria das meninas.
Abro as portas do lugar encontrando com Daniele ainda varrendo o salão com um senhor barbudo jogado em uma poltrona bêbado, a garota assim como as outras me odeia, por isso desvio da parte em que está limpando e sigo direto para as escadas no final do corredor que levam para a cada da Juju, não a encontro no pequeno quitinete, mas em cima de uma mesa quadrada que fica ao lado do fogão tem um pão em cima de um copo de suco de goiaba.
Faço uma pequena prece agradecendo mais um dia por ela existir na minha vida antes de comer e deitar no sofá de dois lugares, puxando o cobertor fino para cima do corpo, sentindo a costela que Marcela fez questão de acertar doer ainda mais.
Romarcio faz questão de mandar algum dos vapores me levar para sua casa quando termina os negócios na boca, encontrar com ele depois que chega é sempre doloroso, pode começar com um tapa, mas sempre vai terminar com o meu corpo encolhido no meio da sala e os gritos de Marcela mandando parar de chorar e ir dormir com os cachorros por irritar o seu homem.
Ninguém entende como alguém tão bom quanto o Azulão pode ter uma filha tão depravada ao ponto de abrir mão do conforto para viver como uma prostituta, ninguém sabe que a minha realidade está distante de ser o de uma princesa e que a única chance que tenho de ser feliz é quando estiver distante do morro.