Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — Perfume e Poder
Oi, meu nome é Samantha Dawson, mas todos me chamam de Sam. Na verdade, nem me lembro da última vez que alguém me chamou de Samantha — acho que foi um vizinho, quando eu tinha uns catorze anos. O senhor Calvin, um homem sempre simpático… até o dia em que eu destruí o jardim dele.
Seu maior orgulho eram aquelas rosas — e, infelizmente, naquele dia, eu estraguei o canteiro inteiro.
Mas eu juro, foi um acidente: a minha bicicleta estava com o pneu murcho, perdi o controle e, antes que pudesse frear, fiz uma verdadeira carnificina floral. Nunca mais vi aquele sorriso tranquilo no rosto dele; naquele momento, ele estava completamente furioso.
Sete anos depois, estou prestes a me formar em Marketing na Boston University — e há duas semanas fui demitida da cafeteria onde trabalhava por, adivinha, me atrasar de novo. Não era o melhor emprego do mundo, mas mantinha as contas em dia — ou pelo menos quase.
Agora estou na Thorne Media Group, prestes a encarar uma entrevista que — se der certo — pode mudar tudo. Talvez — só talvez — eu finalmente comece a viver o que sempre sonhei. Por mais nervosa que eu esteja, me sinto pronta para isso.
A verdade é que trabalhar aqui é o sonho de pelo menos metade dos alunos de Marketing da Boston University. Todo mundo fala sobre a Thorne Media Group como se fosse a Montanha do Olimpo do marketing, cheia de campanhas inovadoras, oportunidades que fazem o currículo brilhar e, claro, aquele prestígio que todo jovem profissional deseja. Eu sei que é clichê, mas… eu quero fazer parte disso.
Chegando à recepção, respirei fundo. — Bom dia, tenho uma entrevista marcada — disse, tentando soar confiante.
A recepcionista sorriu de forma nervosa, teclou algo rápido no computador e ergueu os olhos para mim. Ela parecia um pouco perdida, como se ainda estivesse aprendendo a rotina.
— Ah… sim, claro — disse, hesitando — Você pode seguir até o décimo quarto andar.
Enquanto falava, parecia distraída, olhando para o corredor como se buscasse alguém para confirmar a informação. Mas antes que pudesse fazer isso, outro funcionário se aproximou pedindo algo, e ela acabou me deixando ali sozinha, confusa. Fiquei com a sensação de que havia algo errado, mas decidi não questionar e caminhei em direção ao elevador.
No elevador, apertei o botão do décimo quarto andar e tentei revisar mentalmente minhas anotações, passando pelos pontos que queria destacar na entrevista. As portas já estavam se fechando quando uma mão firme as impediu de continuar.
A porta se abriu… e ele entrou. Era o tipo de presença que muda o ar de um ambiente — e o ritmo da minha respiração junto.
Meu fôlego travou. Cabelos castanho-escuros, curtos e impecáveis, e aqueles olhos azuis… como se lessem tudo que eu tentava esconder. A pele levemente bronzeada, o corpo firme, a postura impecável. O terno escuro era perfeito, mas o que realmente me prendia era ele — a maneira como ocupava o espaço, como se o ar se curvasse ao redor de sua presença.
— Bom dia — disse ele, com a voz firme, os olhos azuis fixos em mim, sérios, quase avaliando.
Eu ainda não tinha me recuperado da súbita presença dele. Não conseguia olhar diretamente, e minha resposta saiu baixa, acompanhada de um sorriso tímido — algo que definitivamente não combinava comigo.
Ele olhou para o visor e apertou o botão de fechar a porta. De repente, me vi presa naquele elevador com ele. Pode parecer exagero — e qualquer um diria “Sam, são só dois minutos” — mas o perfume dele me desarmou por completo. Minhas anotações, a entrevista, todo o motivo de eu estar ali… desapareceram. Tudo o que eu conseguia imaginar era como ele ficaria sem aquele terno — e perto o suficiente para me fazer esquecer o próprio nome.
Para minha irritante frustração, chegamos ao andar e ele se afastou sem sequer me olhar novamente. O perfume dele ainda pairava no ar, mas finalmente consegui me situar e caminhar até o local indicado pela recepcionista.
Enquanto caminhava até o local indicado, tentei recuperar o foco. Era só uma entrevista. Só uma. Então por que a simples lembrança daquele perfume fazia meu coração disparar?
Pelo caminho, via pessoas concentradas em suas mesas, algumas andando apressadas de um lado para o outro — o ritmo constante de uma empresa consolidada, respeitada no mercado, mas que ainda crescia e inovava.
Já na sala de espera, dei meu nome à secretária, que me chamou em menos de vinte minutos.
— O senhor Thorne irá atendê-la agora — disse ela, sorrindo de forma simpática, como se pudesse perceber o turbilhão que eu sentia por dentro — Boa sorte.
Fiquei surpresa. — Como assim "senhor Thorne"? — perguntei, confusa. — Achei que a entrevista seria com o RH.
A secretária franziu o cenho, um pouco surpresa com minha reação. — Não, dessa vez será direto com o senhor Thorne.
Confesso que achei estranho, mas todo mundo fala sobre como pessoas ricas podem ser excêntricas. Respirei fundo, confiei que seria apenas mais uma peculiaridade do mundo corporativo, e segui até a porta indicada por ela.
Eu estava ainda mais nervosa. A entrevista seria diretamente com o CEO, que, pelo que eu havia ouvido, era uma lenda no mercado há mais de 30 anos. Na minha cabeça, já imaginava aquele típico homem grisalho, charmoso, com ar de experiência e autoridade. Bati na porta, tentando disfarçar o tremor nas mãos.
A secretária da mesa dela, com um leve suspiro e um olhar que misturava impaciência e pressa, apenas disse:
— Pode entrar.
E eu entrei. Era tudo ou nada.
Para minha surpresa, não era o homem grisalho e experiente que eu imaginava. Era ele — o mesmo olhar, o mesmo perfume inebriante. Estava distraído com papéis em sua mesa, e sem tirar os olhos deles disse:
— Por favor, sente-se — indicando com a mão uma poltrona confortável à frente da mesa.
A sala era ampla e banhada por luz natural. Uma janela gigante revelava uma das vistas mais deslumbrantes que eu já havia visto, permitindo que eu vislumbrasse praticamente toda Boston. Prateleiras cheias de livros conferiam ao ambiente um ar intelectual e sofisticado. Na grande poltrona de couro marrom escuro, estava ele — o mesmo homem com quem eu havia compartilhado aquela breve e inesquecível viagem do térreo até o décimo quarto andar.
Eu me apresentei, estendendo a mão:
— Sam Dawson.
Foi só então que ele me olhou — e por um instante, tive a sensação de que ele via além da roupa, além da postura… direto no que eu tentava esconder. Pareceu me reconhecer do encontro breve mais cedo, mas não disse nada.
Então, levantou-se por um instante e estendeu a mão, em um gesto firme e elegante:
— Maxwell Thorne.
Claro. Porque o universo nunca perde uma chance de me colocar em apuros.