O roubo

1326 Palavras
Capítulo 34 Vinícius Strondda João Miguel ria sem disfarce, como se cada gargalhada fosse um tapa que me lembrava de ontem — e eu não gostava de ser lembrado assim. Entrei no carro batendo a porta. — Você ficou bonito ontem, sabia? Falou alto, falou macio... contou umas coisas sobre a Lucia. A boca dele curvou-se num sorriso divertido e quase c***l. Fiz uma voz curta, seca. — E então? Quando foi que você decidiu virar fofoqueiro da boate? Eu já perguntei o que aconteceu p***a. João Miguel deu de ombros como quem entrega um segredo sem crime. — Não é fofoca, é informação de família. Você tava alto. A bebida abriu sua língua e me contou do problema pra resolver. Cara você já começou o novo cargo com pepino grande, hein. — A partir de amanhã só me chame de Don. E agora me diz o que aconteceu, c*****o. — Eu te levei pra área VIP do seu pai, que amanhã será sua, assim que percebi a merda. Não deixei ninguém encostar. Lembrei o gosto do uísque queimando a garganta, a música grossa batendo no peito. — Merda — murmurei, segurando o volante. — Alguém ouviu o que eu falei sobre a Lucia? João Miguel riu, dessa vez um riso de quem gosta de intriga bem regada. — Ninguém. Se vou ser seu Consigliere serei o melhor. Quando vi, te levei pra longe, primo. Nem mesmo Enzo percebeu. Mas tem um detalhe: a Gracy foi até a sua casa depois e não me meti. Parece que... ela tava te seduzindo. Você ficou com pena do olho dela, né? Não deixou ela sair sozinha. Lembrei da imagem de Gracy, do olho roxo, do braço trêmulo tentando alcançar meu rosto. A raiva veio devagar, como óleo aquecendo. O sangue me esquentou por dentro, não de surpresa mas de irritação. Piedade é armadilha na nossa vida. Piedade convida para passar a mão na ferida. — Não deixei ela ir embora? — perguntei, controlando a voz. — Porque acordei no meio da noite? Por que ela apareceu na minha porta com o olho assim? Lucia tá de paranóica já por ver essa puttana lá em casa. João Miguel bateu a mão no volante, rindo. — Fui no banheiro e, quando voltei, tavam quase se beijando. Quase que eu não acredito. Você, primo, com a Gracy no colo em plena boate da família. — Ele abriu a boca como se mastigasse o absurdo. — Mas não aconteceu nada, né? Você se segurou e eu a arranquei antes que fizesse mais merda. — Que c*****o. Nem curto aquela mulher. Uma coisa dessas pode manchar minha honra. Sabe como é o conselho, cada dia mais complicado essa questão de traição. O silêncio ficou grosso. Eu revirei as memórias mais recentes: as luzes da boate, o riso dela, o cheiro do álcool misturado com perfume barato, a visão do olho roxo que não me dava permissão para ser apenas espectador.. Vagas lembranças dela sobre mim. Afastara-a do banheiro, levei-a à sala principal, e nada disso deveria ter acontecido. Não porque ela merecesse, mas porque não queria mais problemas na minha casa hoje. Não com a minha vida em jogo. Não com a minha família. — Não aconteceu nada — confirmei. — E não vai acontecer. Entendeu? Não quero cena. Não quero mulher que faça cena perto da minha família. João Miguel assentiu, ainda com aquela insolência de garoto que acredita ser imortal. — Tá, mas como vamos fazer? Sobre o plano do carro? Comentou por alto ontem. Recuei no banco, espiei o painel. Respirei devagar. Falar de coisa prática me acalmava. O ódio precisa de gesto — e eu sou homem de ações. — Você vai me ajudar a roubar o carro dos Moretti — disse, direto. — Um Lancia Delta HF Integrale, vermelho. Depois esconda o veículo. Me encontra à noite no local da derrapagem. Levarei documentos de Isabella Romano. A partir de amanhã, quando for necessário, aqueles papéis estarão no porta-luvas — e o resto... eu faço com fogo ou água. Entendeu? João Miguel bateu palma, satisfeito. — Fácil. A gente some com ele. Mas e se for na frente da casa dos Moretti? Vai ser perigoso. Arriscado. Concordei com a cabeça. Nada que não se resolva. — Quer saber? — falei, apertando o volante até os nós dos dedos clarearem. — Eu preciso de adrenalina. Vamos roubar esse carro agora. João Miguel sorriu, virou a cabeça, olhando a rua à nossa volta, os olhos brilhando. — Agora? — ele perguntou, só pra formalizar. — Você tem certeza? — Tenho. Chame o Rafa e o Bruno. Duas motos pra bloquear a rua de saída. Diz pra trazerem as máscaras e as luvas. Silenciador nos .9 milímetros e pano pra enrolar quando preciso. Sem sangue. A gente desmaia, esconde, some com o carro e deixa a cena pra parecer infantil. Entendeu? Ele assentiu, já discando. No reflexo do retrovisor eu vi o meu rosto: tenso, pronto. A raiva era frio em minha garganta. Saímos do carro com passos curtos. O portão dos Moretti era uma curva de ferro ao lado da vila, iluminado por lâmpadas amarelas que lambiam os rostos dos seguranças. Atravessei a calçada devagar. João Miguel se moveu ao meu lado como sombra. Meus homens chegaram muito rápido. Rafa e Bruno já estavam posicionados. Dois capacetes, duas motos. — Os homens do Giovanni não mexem com Don Antony, então evitaremos matar. Só desmaiar. Não queremos guerra hoje. Vai parecer um roubo de sorte. — Disse aos meus homens. E quando aquele Lancia sumir e reaparecer, Isabella vai ser considerada morta. — Pensei. Caminhamos até a garagem onde Giovanni guardava o integrale quando não ficava exposto como joia. Havia duas sombras encostadas — guardas de rosto rude, braços feitos de aço — conversando como quem não espera surpresa. A luz fraca moldava os seus perfis, letal e i****a ao mesmo tempo. Coloquei óculos escuros e máscara. Passei por eles com a calma de quem já conhece a morte. Márcio fez o sinal. Rafa acertou o portão lateral; um clique elétrico e a fechadura descansou. Em menos de um suspiro estávamos dentro. A primeira resposta veio rápida. Um dos seguranças olhou por cima do ombro, notou a minha presença e ergueu o braço. Não pensei. Rafa avançou com a mão por trás e, num movimento seco, segurou o homem pelo pescoço, o puxando para dentro de um canto escuro. Um pano cobriu a boca — não descreveria a técnica — e o corpo caiu mole, os olhos ainda vivos por um segundo, depois a calma. O outro tentou gritar. Bruno bateu com a coronha na cabeça dele, o som abafado parecendo um nó sendo apertado. O homem caiu. O Lancia estava ali. — Tempo — murmurei. — Dois minutos. Puxei a chave. O motor respondeu com um ronco que parecia prometer o mundo. O pneu cantou quando tirei o carro da garagem: uma nota aguda — um grito curto da borracha contra o asfalto — e algo dentro de mim estourou. Um figlio de puttana apareceu apontando a arma... — Ah c*****o! Aí é demais. Ninguém aponta uma arma pra mim. Ele correu mais. Então sorri ao ver o espelho retrovisor prontinho pra mim. Se tem uma coisa que gosto é atirar, e se for só com o reflexo fica muito melhor. Nem precisei tirar meu espelho do bolso. — Arrivederci (Adeus). Caiu morto com um tiro na testa. Saímos em fila: o integrale à frente, as motos cobrindo a saída. As luzes da rua corriam, manchas de laranja e sombra. O coração batia agudo, mas a cabeça funcionava com precisão de relógio. Não era apenas furto, Io arrumaria as merdas da minha esposa. — Você matou o cara — João Miguel me lembrou, me dando tédio. — Io não ligo. O cara me apontou a arma. Meu sangue não aguentou. — Tomara que não dê problema... — Se der, Io resolvo...
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR