Capítulo 35
Vinícius Strondda
Despistamos qualquer possibilidade de que alguém tenha visto o carro.
Paramos numa garagem menor da Strondda para esconder o Integrale. Dois homens cuidaram do carro; toque rápido, porta fechada. João estava ao meu lado quando saímos do local — sorrisinho de garoto quando a coisa deu certo, expressão fechada quando lembra do preço.
— Tudo certo — falei seco.
— Certo — devolveu ele, sem entusiasmo, já encostando no carro que ia nos levar de volta.
Ele engatou a marcha e saímos no carro dele rumo à minha casa.
Encostamos em frente de casa. Pisei fora do carro; ele olhou pra mim e o lembrei:
— As sete no lugar que combinamos.
— Dois cadáveres, você quer?
— Exatamente, precisa ser perfeito. E não se atrase. Teremos meia hora. Uma hora no total até a cerimônia que meu pai preparou.
— Não vou atrasar dessa vez.
— Acho bom.
.
Entrei em casa. Lucia veio logo atrás, o som leve dos pés quase correndo, como se quisesse colar no meu ombro. A respiração dela estava acelerada; percebi pelo jeito como o peito subia e descia rápido.
— Aconteceu alguma coisa? — a voz saiu fina, apressada. — Você demorou.
Continuei andando, soltei o sobretudo sobre a poltrona, puxei o nó da gravata e a encarei rápido, sem me deter.
— Aconteceu. Vai se arrumar, rápido. Temos que buscar os documentos.
— Estou pronta, só falta um tênis. Não vai me contar nada?
— Depois. Porque está tão curiosa? Não vi nenhum Moretti.
— Não é isso.
Ela se aproximou mais, os dedos tentando segurar meu braço como se fosse me prender ali até arrancar uma resposta. Cortei o gesto tirando o braço devagar, mas firme, sem brusquidão — apenas com a autoridade que ela já conhecia em mim.
— Conseguiu o carro? — insistiu, os olhos ansiosos, tentando achar brecha no meu rosto.
Inclinei levemente a cabeça, um meio sorriso duro escapou.
— Não tem nada que eu não consiga. Grave isso, Lucia.
Os ombros dela baixaram um pouco, como quem aceita uma ordem. Respirou fundo, engolindo a aflição.
— Está bem.
Ficamos em silêncio por um instante. Ela se virou, caminhando rápido para o quarto, quase tropeçando na pressa de se arrumar. Eu fiquei parado, observando — porque, no fundo, aquela obediência silenciosa me dava mais do que eu gostaria de admitir.
Entramos no carro e fomos até o bairro onde ela se escondia — a parte podre de Roma, com vielas que guardam fome e segredo. As pessoas desviaram o olhar quando passamos; alguns até se curvaram de leve. Ela disse que os vizinhos a conheciam, e não era uma boa ideia eu pisar lá. Fingi que não ouvi.
— Aqui eu entro sozinha — murmurou ao ver o barraco. — Eles me conhecem.
— Odeio que me digam o que fazer. Odeio ordens que não saiam de mim.
— Tá...
Ela entrou rápido no barraco. Abriu um caixote no fundo falso do chão e, com mãos apertadas, puxou os documentos e uma roupa.
— Essa foi usada no dia da fuga. — Vi a blusa amarrotada. Ela me estendeu o pacote com naturalidade, como quem entrega uma peça valiosa.
— Ótimo, ragazza — falei. — Vamos. Com isso fica mais fácil fingir.
Sentei ao volante do carro, olhei para Lucia no banco do passageiro. Ela ajeitava a roupa, os dedos tremendo pouco, mas o rosto decidido. Peguei a mão dela por um segundo — rápido, e falei baixo:
— Quando estivermos lá, observa, fala pouco, faz o que eu mandar.
Ela assentiu, pequena e firme.
.
Na estrada velha da marina, a noite se abria numa fita preta. O plano era simples: um trecho de curvas, cascalho na lateral e a chance de fazer a derrapagem parecer um acidente.
João Miguel chegou no horário.
Peguei os documentos e a roupa.
Fiz sinal com a cabeça e olhei para Lucia. A rua parecia comprimir o som dos nossos passos — só havia o vento e o farfalhar das árvores. Pedi que ela descesse. A voz saiu firme, sem espaço para perguntas.
— Desce. Fica aqui fora, não faz barulho.
Ela obedeceu, as mãos trêmulas segurando a bolsa, o rosto pequeno na luz fraca.
João Miguel e dois soldados aproximaram-se do Integrale. Abri o porta-malas com calma: havia ali duas formas enroladas em sacos negros que emitiram um cheiro que me atravessou — amoníaco velho, sangue seco, algo que a gente prefere nunca nomear. Os dois soldados trabalharam com luvas, rápidos, sem olhares que denunciassem surpresa. Era trabalho habitual para eles.
Enquanto eles acomodavam os sacos no banco de trás do Lancia, dei as costas e empurrei o casaco de Lucia para dentro do meu próprio sobretudo, mexendo sem pressa. Tirei os documentos de Isabella da pasta e, com a mesma naturalidade com que se veste um convidado, escorrei as folhas no bolso interno do casaco dela — aquela peça que ela usaria, já marcada e cheirada como se tivesse corrido. Queria que, se alguém revistasse o corpo, encontrasse o que esperávamos que encontrassem.
— Soltem o freio — ordenei sem olhar. Não era preciso explicar. Eles sabiam o papel que cada um desempenhava naquela noite.
João Miguel ateou fogo no veículo. Precisava queimar bem os corpos para ser impossível identificação.
Enquanto o fogo consumia, tirei do bolso um aparelho celular reserva — pequeno, sem identificação, frio na palma da mão — e digitei uma mensagem certeira ao figlio de puttana do Giovanni, com letras curtas, afiadas. A cada tecla, a certeza do plano me aquecia e me gelava em doses iguais. Enviei sem hesitar.
— Você perdeu duas jóias. Cuidado com quem você tenta passar a perna, Moretti. E obrigado por não estragar a minha festa, me entregando uma virgem nas mãos. Muito gostosa, aliás.
A frase foi um golpe lançado no escuro. Nem precisava de resposta imediata; a notícia iria correr sozinha, como sangue em água quente.
Vi Lucia observar o carro, a boca apertada, os olhos grandes que tentavam entender a dimensão do que eu pedira. Não a olhei. Não precisava.
Empurraram o carro por instinto, eles tem seu jeito. O som das rodas sobre o cascalho marcou o compasso da encenação. Alguém colocou algo no interior, um estalo abafado, o ruído seco de mecanismos que só os que fazem isso em silêncio reconhecem. Não perguntei o que era; não queria saber. Era melhor assim.
Iria jogar a blusa, mas Lucia apareceu segurando meu braço.
— Me dê a blusa.
— O que? Enlouqueceu ragazza?
Ela mostrou um corte no braço feito com algo cortante que deve ter encontrado.
— Che Cazzo. Io no tô acreditando.
— Com meu sangue aí, fica mais real.
— Mama mia, não precisava disso. Ecco.
Ela esfregou o sangue e depois me devolveu.
Lancei a blusa perto do capô, como quem perdeu um acessório na pressa. Queria uma cena: roupa fora, um vestígio humano no chão, o resto do enredo nas sombras. A chama não tomou a peça, já estava apagando.
Os soldados recuaram, fecharam os porta-malas e deram os últimos passos para a margem da estrada. O Lancia ficou ali caído, perfilado contra a lua, prestes a virar noticiário. Senti a adrenalina como um animal domesticado: latente e obediente.
Dei a ordem final com voz baixa, quase íntima.
— Voltem. Agora.
João Miguel olhou para mim por um segundo — havia orgulho na sua face, o brilho de quem participou de algo grande.
— Agora sim, sem nada pra incomodar. Vamos assumir seu cargo em grande estilo. — disse com um sorriso.
— Isabella Romano morreu. Que pena, no?